De robe vestido e charuto na mão, Álvaro Vieira Branco (interpretado por Marco Delgado) surge como um homem poderoso, mas que acusa o cansaço da vergonha, de que é recordado diariamente, de ter sido derrotado. O ex-ministro, agora em prisão domiciliária, é acusado de corrupção, tráfico de influências e abuso de poder após ter sido descoberto o seu envolvimento no caso Marinada, referente à construção de marinas fluviais no interior do País.

Quer porque "Prisão Domiciliária", assim se chama a nova grande aposta da OPTO SIC, surge no rescaldo da decisão de Ivo Rosa deixar cair os crimes de corrupção imputados a José Sócrates, ou porque João Miguel Tavares — que assina o argumento em parceria com os jornalistas Tiago Pais, Catarina Moura e Rodrigo Nogueira — é quem dá o rosto pela série, não é difícil assemelhar a figura de Álvaro Branco à do antigo primeiro-ministro caído em desgraça.

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Mas João Miguel Tavares tem a defesa pronta. "Na verdade, o projeto começou [a ser pensado] em 2013. A ideia é anterior à detenção de Sócrates, numa altura em que ainda ninguém suspeitava que isso iria acontecer", explica à MAGG.

O conceito, porque na altura não passava disso, nasce de uma vontade de Patrícia Sequeira, que realiza a série, de contar uma história sobre um político corrupto "que não podia sair de casa".

Entender a cabeça de quem "mete dinheiro ao bolso" e "sabe que o está a fazer"

"Achei bastante graça ao desafio de criar uma série dinâmica em que as pessoas não podiam sair de casa. Claro que, além disso, e mais do que uma história sobre como funcionam os mecanismos da corrupção em Portugal, interessava-me perceber como é que pensa a cabeça de alguém que mete dinheiro ao bolso, sabe que o está a fazer, e mesmo assim mantém cargos públicos e de responsabilidades sociais e políticas", diz João Miguel Tavares.

E ainda que o conceito tivesse nascido em 2013, só em 2020 é que o projeto foi formalmente ressuscitado quando surge o interesse da SIC. É nesta fase que a jornalista Catarina Moura passa a fazer parte do grupo de argumentistas. "Primeiro, porque achava que a Catarina tinha um sentido de humor que condizia muito bem com a série, mas também porque era importante haver uma mulher a escrever."

“Prisão Domiciliária”. A série co-escrita por João Miguel Tavares sobre um político corrupto
No tornozelo de Álvaro Branco (Marco Delgado), a lembrança constante da vergonha créditos: António Moura

E o humor, explica o comentador político, era elemento que todos "queriam ter na história". "No início, a série era assumidamente humorística e só mais tarde foi evoluindo para o tom que tem agora, que mistura o humor com uma componente dramática assinalável e um toque de suspense".

É que o humor, mostram-nos as grandes séries que mudaram para sempre a história da televisão (é o caso de "Os Sopranos", "Breaking Bad" e "Mad Men"), por fazer parte da vida, não deve ser descurado por uma série dramática com receio de que isso possa, de alguma forma, desvirtuar a história.

"Atualmente estou a ver 'Ozark', que me parece ser a série mais interessante da Netflix. E apesar de ser puramente dramática, o humor está sempre presente. Além de achar que o humor faz parte da nossa vida, está também sempre presente na minha escrita. Embora seja um cronista de política, não há único texto meu que não possa ser entendido como estando construído para ter graça."

Fazer a diferença contra o desencanto face à ficção portuguesa

Numa altura em que, lá fora, "a ficção televisiva atingiu picos de excelência, muitas vezes suplantando até o próprio cinema enquanto sítio onde as coisas mais fascinantes estão a acontecer", o que José Miguel Tavares sentia quando olhava para a ficção portuguesa era frustração. Ressalvado o facto de crer que o paradigma está a mudar, "Prisão Domiciliária" surge, precisamente, com a motivação de "ajudar a fazer parte dessa mudança".

Para isso, o projeto arrancou com duas premissas em mente. Em primeiro lugar, era importante que não houvesse personagens estúpidas e facilmente manipuláveis. "É um erro muito comum na nossa ficção em que, de quando em vez, lá vemos o gajo tipicamente burro e idiota que acaba enganado por toda a gente", diz. "Também é habitual haver personagens que agem puramente por mal e que não têm nada de luminoso", características que, enquanto argumentista, lhe interessavam zero.

“Prisão Domiciliária”. A série co-escrita por João Miguel Tavares sobre um político corrupto
João Miguel Tavares, Catarina Moura, Tiago Pais e Rodrigo Nogueira partilharam a escrita do argumento da série

"A ideia era que todas as personagens fossem estimulantes e inteligentes para que, numa última análise, quase que se pudesse fazer um spin-off de cada uma delas", como acontece em "Better Call Saul", que partilha o universo de "Breaking Bad" para desenvolver a figura de Saul Goodman, o advogado caído em desgraça, anos antes dos acontecimentos da série-mãe.

A segunda premissa passava por "tentar que o tom da série não se parecesse com nada do que já existe na ficção portuguesa". Essa ideia, que os quatro acreditam ter conseguido passar do papel para o ecrã, foi um atrevimento que lhes era permitido porque nenhum deles alguma vez tinha feito isto.

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"Somos amadores, não só porque nunca fizemos nada disto, mas porque temos muita coisa no olhar. Vimos muita televisão e muito cinema. Isso fez-nos fazer diferente", garante João Miguel Tavares.

O resultado final será divulgado esta sexta-feira, 16 de abril, quando a série se estrear em exclusivo na OPTO SIC. Do elenco fazem parte nomes como Afonso Pimentel, Sandra Faleiro, Diogo Amaral, Valerie Braddell, Filipe Vargas e Maria João Falcão.

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