Sara Matos regressou a casa. A atriz é a protagonista de "Yerma", peça de Federico García Lorca que está em cena até 13 de dezembro no Teatro Municipal Mirita Casimiro, no Estoril. É que a tragédia é produzida pelo Teatro Experimental de Cascais (TEC), onde Sara se formou e que, este ano, celebra 55 anos. Em simultâneo, está a gravar a série "O Clube", uma das apostas da SIC para a plataforma de streaming OPTO. Mas já lá vamos.

Motivos mais do que suficientes para uma conversa com a atriz de 30 anos. Começámos pelo teatro mas, quando demos por nós, fomos parar à cada vez mais importante questão da saúde mental. Mas, comecemos pelo início, por "Yerma" e pelo TEC. "Foi onde comecei com 15 anos, com o meu professor, mentor e agora encenador Carlos Avillez. Tem um significado especial, não só pelo Carlos Avillez. Quando comecei a ser reconhecida pelo público já tinha feito teatro profissional antes. Mas comecei a fazer muitas personagens muito relevantes e não conseguia arranjar algum tempo para interpretar uma personagem com esta carga. É uma peça que requer uma grande entrega emocional", conta Sara à MAGG.

A peça, escrita em 1934, relata a história de Yerma e Juan, um casal que não consegue ter filhos e que vive uma relação infeliz. "Entreguei-me com muita paixão, não havia outra forma. Depois de ler o texto, pensei ‘ok, ou é tudo ou é nada’", conta. Sara, que está em cena durante toda a peça, considera interpretar Yerma o seu "pequeno tesourinho". Porque "houve tempo para fazer as coisas". O entusiasmo na voz e no rosto de Sara Matos (entrevistámos a atriz por Zoom) é indisfarçável. A conversa flui e Sara vai dizendo que quer passar "essa emoção" do texto de Lorca aos espectadores. "Pela casa que é e por aquilo que eu aprendi ali, tecnicamente gostava de me ver a dar o salto", confessa. "Há aqui uma data de desafios que têm sido uma adrenalina gigante", admite.

A pressão social sobre as mulheres, as questões da maternidade, são temas abordados em "Yerma". "Essa pressão existe, acho que vai existir sempre, a não ser que não desistamos de lutar por aquilo em que acreditamos. Mas acho que, individualmente, temos de saber trabalhar as nossas fragilidades, meter os nossos neurónios a pensar", começa por refletir a atriz. E continua. "Não tenho problema nenhum em dizer isto, eu faço terapia desde os meus 14 anos. Hoje em dia sei as ferramentas que isso me deu, a nível profissional e pessoal", conta Sara.

"A nível profissional, a minha postura no meu trabalho. E, pessoalmente, por todas as experiências que tenho vivido, sejam boas ou más, a maneira como eu as aceito. Não é com qualquer conotação negativa que digo isto, mas injustiça no mundo vai haver sempre. Por exemplo, não sou vegana, a minha melhor amiga é e, no entanto, não deixo de perceber que há aqui um problema ambiental, então por isso tento ao máximo não comer carne todos os dias, porque estou acordada para a vida. Agora, não é apontando o dedo que vou mudar o Mundo. Acho que esse é um trabalho que cada um de nós pode fazer", explica a atriz.

A atualidade da peça reflete-se, segundo a própria, na pressão que a sociedade impõe. "Temos sempre de alcançar algo e às vezes iludimo-nos — e agora estou a falar na questão de uma mulher que não pode ter filhos. E se fosse a questão de um homem ter de estar com uma mulher para o resto da vida, depois separam-se e divorciam-se… As pessoas vivem muito esta ilusão de compararem relações… Não julgo quem o faça, mas não somos todos iguais e acho que temos de ser livres, pelo menos dentro do nosso mundo", conta a atriz. "Há lutas que têm de ser vividas mas, às vezes as pessoas esquecem-se que a luta tem de começar individualmente. Acredito piamente que nascemos e morremos sozinhos, e se não estamos ligados com o nosso corpo, espiritual e físico, é muito difícil criarmos ligação com as outras pessoas e termos a nossa luta se não tivermos a nossa luta interior", reflete a atriz.

A pandemia, essa omnipresença na nossa vida, mudou a rotina de todos, e também dos que trabalham para entreter o público, seja na televisão ou no teatro. Sara Matos começou esta nova realidade ainda a gravar a novela da SIC "Terra Brava", na qual interpreta Elsa Santinho e, agora, além do teatro, está em fase de filmagens de "O Clube".

"Este desafio que todos estamos a viver foi uma novidade em abril. Agora já não é, mas não deixa de ser um desafio constante. Eu não estou sozinha, estamos todos no mesmo barco, e isso faz-me relativizar um bocado as coisas. O Mundo todo está a viver isto. É um desafio de todos", explica. Sara sente-se "agradecida" por estar a trabalhar em dois projetos. "Mas a nível geral, está muito complicado…o que é que eu posso tirar de positivo? É pensar porque é que isto tudo está a acontecer, dar mais valor ao ambiente, à natureza… a verdade é que temos todos de saber aprender a parar um bocadinho. Como é que isso se faz? Vamos ter de aprender a fazer isso. Preocupa-me muito o futuro imediato. Tenho vivido muito o presente, o dia a dia", confessa.

 "O tempo está a passar, eu estou a fazer cada vez mais coisas e, ao mesmo tempo, não me levo assim tão a sério"

À boleia da questão da saúde mental, queremos saber de que forma é que Sara Matos tem lidado com estes tempos incertos. "Os meus amigos costumam dizer ‘Sara, tu és uma boa ouvinte’. Não sei se foi da terapia ou não, porque não há um resultado específico, é uma coisa que se vai construindo, uma ligação muito forte com uma pessoa que nos vai acompanhando e que nos vai ajudando a encaixar as pessoas todas para que nós não vivamos as histórias das outras pessoas, nomeadamente dos nossos pais, dos nossos avós, de outras gerações, que possamos aceitar ao máximo as nossas fragilidades e não viver a medo. Essencialmente, não viver a medo. É uma coisa que acontece muito. Ninguém está à espera de sair da sua zona de conforto e termos uma ajuda psicológica é muito importante", explica.

Mas acrescenta. "Isso também não foi propriamente uma escolha minha. Em termos de educação, é algo que tenho de agradecer ao meu âmbito familiar. Já cresci com isto. No TEC, temos uma aula que se chama TPT e que trabalha muito a parte emocional. Por exemplo, para nós, atores, acho que é essencial fazermos esse trabalho. Porque estamos tantas horas perdidos ali numa personagem que, se não metermos as coisas no seu devido lugar, às vezes pode influenciar-nos um bocadinho".

Sara Matos reflete ainda sobre as razões que a levaram a ser acompanhada por um psicoterapeuta. "Eu comecei a fazer terapia quando escolhi ser atriz, é muito engraçado. Sem dúvida que me ajudou bastante na questão de ser uma pessoa mais serena em relação à vida".

Quando questionamos a atriz sobre se os resultados deste acompanhamento lhe trouxeram serenidade para enfrentar tempos incertos, a atriz relembra o início da sua carreira. "É engraçado ter falado nessa palavra. Quando comecei a fazer televisão, comecei logo com uma série ["Morangos com Açúcar"] que me deu um grande destaque. Quando me perguntavam o que é que eu achava disto da fama, fazia-me imensa confusão. ‘Não digo fama, acho que é reconhecimento’. Como havia outra palavra que era 'carreira e eu dizia ‘não, não, percurso artístico!’. São palavras que me assustam muito, que não fazem parte do meu vocabulário. E havia uma delas que eu dizia muito quando me questionavam sobre o que é que eu queria futuramente em termos pessoais. Eu dizia: ‘quero ter serenidade’. Foi uma palavra que aprendi desde muito cedo. Era uma das coisas que a minha mãe dizia muito quando lhe perguntava o que era ser feliz. ‘Para mim, é ter paz na minha vida, é ter serenidade’. Então, lembro-me de ter 19, 20 anos, falar disto e os jornalistas olhavam para mim e ficavam ‘mas que conversa?!’. Ou seja, não é que eu tivesse uma alma velha, mas já era uma pessoa que ambicionava trabalhar muito e fazer personagens mas, ao mesmo tempo [ter essa serenidade]".

E é essa palavra que norteia a vida de Sara que a faz sentir segura quando, por exemplo, sobe a palco para interpretar um dos mais importantes textos teatrais do século XX. "Estou com uma adrenalina muito grande mas, ao mesmo tempo, estou segura", diz. "Foi um investimento pessoal muito grande e deve-se a isso. O tempo está a passar, eu estou a fazer cada vez mais coisas e, ao mesmo tempo, não me levo assim tão a sério", acrescenta, sorridente.

"O Clube". "Vai haver cenas muito bonitas mas com uma tensão sexual muito grande"

Voltemos à televisão, mais concretamente àquela que promete ser uma das mais aguardadas séries de 2021. "O Clube", que a SIC estreará no próximo ano na plataforma OPTO, passa-se num clube noturno lisboeta e vai mostrar guerras de poder e interesses neste mundo. A avaliar pelas primeira imagens da trama, o adjetivo certo é "escaldante". "Ainda não fiz nenhuma cena de sexo mas, quando fui convidada para fazer esta série... Para já, nunca tinha feito nada assim, uma acompanhante de luxo. A história é baseada no Elefante Branco e vai ser impactante", revela.

Tal como Carolina Torres, entrevistada recentemente pela MAGG, Sara Matos salienta a forma como as cenas íntimas vão ser mostradas no pequeno ecrã. "Obviamente que vai haver cenas de sexo, mas a realização vai passar muito pelos pequenos pormenores. Vai ser intenso no sentido que vai haver uma intimidade grande, profunda mas não vamos ver duas pessoas a fazer sexo. E só por isso acho interessante. Vai haver cenas muito bonitas mas com uma tensão sexual muito grande. E isso é que é interessante de se ver", conta.

Sara Matos é uma das caras da SIC, a primeira estação de televisão portuguesa a criar uma plataforma de streaming. "É muito fixe. O que a SIC está a fazer é muito inovador em Portugal e é a pensar no futuro. Identifico-me muito com esta casa, no sentido de querermos aproximar-nos do público e criarmos projetos diversificados. Também vai dar mais trabalhos a mais atores e, por isso, é espectacular".

E, por falar em streaming, o que anda Sara Matos a ver no pouco tempo livre que lhe resta? "Consegui ver Gambito de Dama. Consigo ir acompanhando Netflix. Pouco, mas consigo".

Newsletter

A MAGG é uma revista digital pensada para mulheres e focada nas preocupações centrais da vida de cada uma. Falamos de tudo o que está a acontecer de forma descontraída mas rigorosa.
Subscrever

Notificações

A MAGG é uma revista digital pensada para mulheres e focada nas preocupações centrais da vida de cada uma. Falamos de tudo o que está a acontecer de forma descontraída mas rigorosa.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.