A prematuridade é um dos maiores medos dos pais, e é também um tema recheado de desconhecimento. A maioria da população sabe que um bebé prematuro é uma criança que nasce antes do tempo, que precisa de uma incubadora para se tentar desenvolver fora do útero da mãe, e que muitos destes casos são complicados. Mas para Marta Gomes de Pina, mãe de Francisco, um grande prematuro (nome dado aos que nascem antes das 32 semanas) que nasceu apenas com 690 gramas em outubro de 2015, a sociedade ainda precisa de ser sensibilizada.

"As pessoas podem saber o que é a prematuridade, mas não fazem ideia do que se passa numa situação destas", explica Marta à MAGG, que acaba de lançar "O passarinho que nasceu antes do tempo (Uma história sobre a prematuridade)", um livro infantil para crianças a partir dos 2 anos, mas que pode (e deve) ser uma poderosa ferramenta informativa também para os adultos.

"Os bebés prematuros agarram-se à vida como nenhum adulto se agarra"
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Marta Gomes de Pina lançou este livro com vários objetivos — uns definidos previamente, outros que se foi apercebendo com o decorrer do processo. "Essencialmente, escrevi o livro para sensibilizar a sociedade em geral para a prematuridade, porque as pessoas não sabem o que passa com um extremo prematuro, não sabem o que se passa nestas situações. E esse desconhecimento leva a atitudes menos próprias, como comentários como 'acaba de crescer cá fora'. Apesar de até serem sem maldade, estas atitudes acabam por magoar os pais de prematuros, dificultar ainda mais o processo duro pelo qual já estão a passar. É mais um problema, uma dor acrescida."

A par deste principal objetivo, a mãe de Francisco revela que tem recebido várias mensagens de pais de prematuros que utilizam o livro como forma de contar aos filhos a sua história. "Fui-me apercebendo que o livro fazia falta porque os pais não sabiam como contar aos filhos a história do seu nascimento. Na verdade, a prematuridade é uma coisa dolorosa de se passar às crianças, e têm-me dito que o livro ajuda imenso."

livro
O primeiro livro de Marta Gomes de Pina está à venda por 12,50€.

Marta Gomes de Pina descreve o seu primeiro livro como uma "história simples", que explica às crianças que nasceram antes do tempo o seu "percurso e a sua luta pela vida", e que pode realmente ajudar os adultos a transmitirem aos filhos o que se passou na altura do seu nascimento.

"Eu sempre consegui contar ao Francisco a sua história — todos os anos, no Dia Mundial da Prematuridade, contava-lhe a história do menino que ficou na caixinha para crescer —, mas há pais que não conseguem. No livro não falo das sequelas da prematuridade, se não isto tornava-se um filme de terror. Mas com esta história do passarinho, muito simples, é fácil explicar a estes miúdos que são uns guerreiros e uns lutadores. E isso basta. Não é que os prematuros sejam mais que as outras crianças, nada disso, mas são guerreiros desde o início, lutaram pela vida desde bebés. E isso tem de ser valorizado", descreve Marta.

marta e filho
Marta acredita que o livro pode ajudar pais de prematuros a contarem a história do nascimento aos filhos.

Mas porquê um livro infantil, e não outro mais pormenorizado, dirigido ao público adulto? "Há cerca de dois anos, quando o Francisco entrou para a escola, os professores pediram-me para ir lá no dia da prematuridade explicar aos colegas dele todo o processo. Mas não consegui transmitir-lhes a ideia, ficaram eles frustrados e eu também. Na minha cabeça só existiam termos técnicos, e não consegui mesmo explicar-me. E foi nesse momento que alguém me disse que eu devia escrever um livro infantil."

Na época, Marta Gomes de Pina não se sentia psicologicamente capaz para avançar com o projeto, mas nunca esqueceu a ideia. "Fiquei a matutar naquilo. Eu não sou escritora, não tenho pretensões a tal, e mesmo o que escrevo na minha página [Antes do Tempo é uma plataforma nas redes sociais onde Marta fala sobre prematuridade] é escrito madrugada fora, numa espécie de catarse. Nunca escreveria algo mais denso ou técnico. Mas isto foi mais fluído, e aconteceu realmente numa madrugada, onde agarrei num papel e numa caneta na mesa de cabeceira e escrevi a história toda."

A história de Francisco: de um pobre acompanhamento pré-natal a um nascimento com 690 gramas

Marta Gomes de Pina estava grávida de menos de 27 semanas quando mediu a tensão numa farmácia e tinha 17,8. Depois de ter sido mal acompanhada pela sua obstetra, e não ter realizado o rastreio bioquímico no primeiro trimestre, a mãe de Francisco deu entrada de urgência na Maternidade Alfredo da Costa com tensão muito alta e descobriu o que realmente se passava.

“A minha placenta estava a bloquear o oxigénio e os nutrientes de que o Francisco precisava. Há crianças que têm este problema e continuam a crescer, e são os tais nados mortos. No meu caso, ele deixou de crescer, a chamada restrição de crescimento, ficou quietinho com o mesmo peso, para que o pouco que recebia fosse canalizado para os órgãos vitais, neste caso, o coração e o cérebro”, contou Marta à MAGG neste artigo. Foi-lhe também dito que, no mínimo, teria de tentar aguentar a gravidez até às 28 semanas — a cada dia que passava, as hipóteses de sobrevivência do bebé aumentavam 3%.

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Francisco acabaria por nascer no dia 8 de outubro de 2015, com 27 semanas e cinco dias de gestação, depois de uma cesariana de urgência. O bebé estava no limite e Marta continuava a ter picos de tensão enormes. “Lembro-me de a médica que me estava a acompanhar, Ana Campos, diretora técnica da MAC, me dizer que, devido à minha situação, iam pelo menos salvar a mãe. Claro que eu naquela altura queria que salvassem o meu filho, queria lá saber de mim, mas entendo que é o protocolo. Existiam boas hipóteses de me salvar, o meu filho sabia-se lá como é que ele ia nascer”, conta.

francisco
Francisco nasceu com menos de 700 gramas.

A cesariana acabou por demorar mais, exatamente devido à administração de um medicamento endovenoso muito agressivo — “lembro-me de as veias me arderem” —, para a neuro proteção do cérebro do bebé à nascença, dado que as  primeiras duas semanas de vida são cruciais em termos hemorragias no cérebro. “Quase todos os prematuros com estas semanas as têm e este medicamento que eu fiz tenta protegê-los, depois a diferença está na forma como os bebés absorvem essas hemorragias e os danos que ficam no cérebro”, afirma Marta Gomes da Pina.

Ainda durante a cesariana, Marta passou por uma paragem cardiorespiratória, felizmente resolvida a tempo, e Francisco nasceu com 690 gramas, mais 190 gramas do que o peso previsto. Foi imediatamente para a incubadora e ventilado, dado que os pulmões praticamente não funcionavam. Ficou 141 dias internado, entre a MAC e o Hospital Dona Estefânia, onde em janeiro de 2016, com cerca de três meses, lhe foi efetuada uma traqueotomia (operação cirúrgica que consiste numa incisão na traqueia, de forma a permitir a introdução de uma cânula para ser possível a passagem do ar).

“O Francisco esteve ventilado durante muito tempo, e assim que começou a ganhar força, puxava o tubo. Todo esse tira e põe do tubo criou feridas na traqueia, e embora com a evolução dele os pulmões já estivessem preparados para respirar sozinhos, as lesões na traqueia geravam um colapso e tal não era possível. A traqueotomia foi o que salvou o meu filho, é por isso que ele esta vivo”, relata a mãe de Francisco.

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Hoje em dia, com 5 anos, Francisco já não tem a traqueotomia, que lhe foi retirada há cerca de três meses. "Continua a ter um buraquinho, agora mais pequeno, que está tapado com uma compressa para não entrarem impurezas. Vamos ver como as coisas correm no inverno, principalmente quando ficar doente, se se aguenta sem nova traqueotomia. Caso corra tudo bem, na primavera de 2021 deverá passar por uma pequena operação plástica para fechar completamente a cicatriz."

francisco
Francisco celebrou o seu quinto aniversário a 8 de outubro.

Como sequelas de prematuridade, Francisco tem uma displasia broncopulmonar grave, em que parte do pulmão está morta, situação causada pela imaturidade do orgão aquando do seu nascimento. "Como qualquer prematuro, o Francisco nunca vai ter os pulmões de uma criança de termo. Mas à medida que vai crescendo, esta questão da parte morta vai-se tornando cada vez mais insignificante, ele vai ganhando outra resistência. Agora claro que as infeções respiratórias são o nosso grande drama, e então esta situação da COVID-19... Se ele apanha, é realmente complicado." Fora isso, Marta Gomes de Pina explica que o filho é uma criança feliz e saudável.

"O passarinho que nasceu antes do tempo (Uma história sobre a prematuridade)" foi lançado a 8 de outubro, e é uma edição de autor, onde dois euros das vendas revertem para a unidade de cuidados intensivos neonatais da Maternidade Alfredo da Costa, onde Francisco nasceu. "Era muito importante para mim doar parte do valor das vendas à MAC, e por isso é que não quis uma editora. Não sei quanto dinheiro é que vamos recolher, não sei se dará sequer para comprar um ventilador ou uma incubadora, mas se der para ajudar, com o que quer que seja, para que bebés e pais fiquem um pouco mais confortáveis, já fico feliz", afirma a autora.

O livro está à venda por 12,50€, online na página Antes do Tempo ou na loja Flying Teapot — e os portes são gratuitos. A única loja física onde o pode adquirir é na Boutique da Cultura, em Carnide. É escrito por Marta Gomes de Pina, com ilustrações de Luíz Morgadinho.

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