A amamentação tende a ser romantizada. Quem nunca pesquisou ou passou pelo processo tende a associá-lo apenas à imagem de uma mulher calma e sorridente, que emana paz, enquanto partilha um momento íntimo com o bebé. No entanto, este cenário idílico nem sempre corresponde à realidade e a "publicidade agressiva" tende a aproveitar-se disso para alimentar um negócio de cerca de 48 mil milhões de euros, garante a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Isto, no caso, partindo do pressuposto de que "publicidade agressiva" não tem de ser evidente ou notória. E a indústria do leite artificial tem vindo mesmo a ser acusada de violar a lei da publicidade, com recurso a "práticas chocantes e ilegais", há quase uma década.

Afinal, o que é "publicidade agressiva"?

Talvez até já se tenha cruzado com este tipo de anúncios ou campanhas, ainda que não se tenha sentido invadido. Porquê? Porque tendem a parecer simpáticos ou inofensivos, explica a enfermeira especialista em saúde materna, Marília Pereira. "Às vezes, a publicidade nem é aparentemente tão agressiva assim. Pode ser até bastante subliminar e estar escondida atrás de chavões como: ‘o leite materno é o melhor para o bebé’, isto dito por marcas de leite artificial", diz.

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A publicidade recorre a este mesmo argumento para ir ao encontro das recomendações da OMS e da legislação para o efeito, "embora, na prática, grande parte das diretrizes não esteja a ser cumprida", acrescenta.

Amostras gratuitas de fórmulas ou leites de transição, brindes e até cupões de descontos são apenas alguns exemplos de violações apontadas ao Código Internacional de Substitutos de Leite Materno pela rede International Baby Food Action Network (IBFAN, na sigla inglesa), já em 2014 — ano em que o assunto foi levado ao Comité dos Direitos das Crianças, das Nações Unidas.

Agora, quase oito anos depois, a indústria publicitária continua alegadamente a aproveitar-se da vulnerabilidade emocional das grávidas para alimentar o negócio e motivar as vendas, com recurso a publicidade falaciosa e "agressiva". A acusação é feita pela OMS e pela Unicef, através de um novo estudo, divulgado esta terça-feira, 22 de fevereiro.

A IBFAN suporta esta teoria e garante que há violações das normas tanto na publicidade do produto, como nos rótulos.

O que é que a lei nos diz?

Em termos práticos, independentemente do suporte da publicidade, seja em anúncios, cartazes ou no próprio texto das embalagens, a lei é clara: a mensagem deve apenas conter informações de carácter científico e factual, "não devendo pressupor nem fazer crer que a alimentação por biberão seja equivalente ou superior ao aleitamento materno".

Sendo que nas fórmulas de transição é preciso mesmo mencionar que o produto se destina apenas a fins nutricionais específicos de lactentes de idade superior a 6 meses e que deve constituir apenas um dos componentes de uma dieta diversificada — sem que, por isso, seja utilizado como substituto do leite materno durante os primeiros 6 meses de vida.

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Tudo isto, no caso, combinado com a proibição de publicidade e ofertas aos consumidores, tanto de forma direta (a partir do fornecedor) como a partir dos postos de venda, no caso da fórmula 1, a destinada a bebés com menos de 6 meses. "Nos locais de venda directa ou indirecta não pode haver publicidade, oferta de amostras nem qualquer outra prática de promoção de venda directa ao consumidor de fórmulas para lactentes no retalhista, como expositores especiais, cupões de desconto, bónus, campanhas de vendas especiais, vendas a baixo preço ou vendas conjuntas", lê-se.

E, neste sentido, "os fabricantes e distribuidores de fórmulas para lactentes não podem fornecer ao público em geral, nem às grávidas, mães ou membros das respectivas famílias, produtos grátis ou a preço reduzido, amostras ou quaisquer outros brindes de promoção, quer directa, quer indirectamente, através do sistema de cuidados de saúde ou dos profissionais de saúde".

A lei é rigorosa, porque o estado psicológico de um grávida ou recém-mamã assim o obriga, diz especialista

O relatório da OMS, divulgado esta terça-feira, 22, garante que "a publicidade ao leite de fórmula influencia as decisões sobre a alimentação dos nossos filhos" e que 51% dos pais em estudo (que contou com 8.500 participantes à escala global) foram expostos ao marketing destes produtos. À MAGG, a psicóloga Catarina Graça explica o impacto que pode ter numa mulher em período pós-parto.

"Neste período, há aqui uma bomba hormonal completa. Há muita novidade, muitas inseguranças e, como é óbvio, a pessoa quer soluções rápidas. Não digo milagrosas, mas quase. E no meio de tantas noites mal dormidas, tanta confusão e tanto cansaço, é normal que caia nessa tentação", esclarece.

catarina graça
Psicóloga Catarina Graça

A especialista deixa a ressalva de que, principalmente no período pós-parto, quando há dificuldades no processo de amamentação, sentimentos de culpa tendem a ser frequentes. "Se já existir o tal sentimento de culpa e de que está a falhar, isto pode ser uma machadada autêntica no papel da mãe", que quer encontrar uma solução rápida e eficaz, porque o bebé tem de comer, diz.

Se a decisão de optar pelo leite artificial é consciente ou não, depende de caso para caso, mas Catarina Graça refere que a publicidade pode personificar um agente capaz de influenciar o processo de ponderação.

"Há publicidades que nos ficam na memória subliminar, nem nos lembramos bem de onde é que vimos aquilo, mas efetivamente fica-nos na cabeça. Eu não digo que seja possível que os nossos olhos sejam tapados a todo o tipo de publicidade, mas acho que as mulheres não devem ser bombardeadas".

"Se bem que vem muito do treino de tentar resistir às influências. Vai existir sempre aquela pessoa que se lembra de aconselhar [leite artificial], porque no fundo acha que é o melhor, mas não deixa de criar inseguranças. Também não é suposto estar aqui num massacre e num sofrimento constante, mas cabe à mulher decidir até quando quer tentar e manter-se fiel aos seus ideais", remata.

Em Portugal, a amamentação não é imposta

À MAGG, a enfermeira Marília Pereira garante que, em Portugal, a amamentação não é imposta à mãe, sendo que tem opção de escolher o que reconhecer como mais adequado para si. "Quando o bebé nasce, o profissional de saúde pergunta (ou deve perguntar) à mãe como é que quer alimentar o seu bebé. Nunca se deve dizer logo 'então vai amamentar, não é?'".

Quando chegam ao hospital, a ideia de amamentar geralmente já vem na cabeça das mulheres, explica. O que falta depois, até para dar continuidade ao processo, é apoio. Isto porque, de facto, há desafios.

A dor quando o bebé faz uma má pega, principalmente quando há fissuras, a subida do leite ou até o choro são exemplos que Marília Pereira aponta como principais obstáculos ao processo de amamentação.

Marília Pereira
Enfermeira Marília Pereira

Ainda assim, diz, "partir para o leite artificial deve ser sempre a última solução". "Para os dois, a amamentação ajuda com a questão da vinculação. Mas há vantagens diferentes para cada um", avança.

"Para a mãe, há a questão da recuperação do peso e da evolução nutritiva. Com a amamentação, a mãe vai continuar a produzir ocitocina, que é a hormona responsável pelo trabalho de parto, que ajuda tanto na a ejeção do leite como na contração do útero. O que evita hemorragias no pós-parto e minimiza o risco de anemia até", esclarece, com a ressalva de que também há vantagens emocionais, que têm que ver com a auto-estima, alívio de stresse e não só.

Já para o bebé, o leite materno é realmente o alimento mais completo, que é feito à medida das suas necessidades e que vai variando ao longo do dia e ao longo do tempo, explica. "Vai ajudar até em termos da imunidade e na prevenção de infeções a todos os níveis".

Ainda assim, dados globais indicam que apenas 44% das crianças com menos de 6 meses de idade são exclusivamente amamentadas, e que nas últimas duas décadas duplicaram as vendas de substitutos do leite materno.

Amamentar nem sempre é fácil, mas há opções

Amamentar tende a ser sempre a melhor solução, em termos nutritivos, garantem as especialistas, mas, acima de tudo, é preciso garantir que cada família tem toda a informação de que precisa para tomar uma decisão consciente.

"Quem não consegue amamentar por questões fisiológicas fará parte de uma franja muito reduzida de mulheres. Agora, aquela mulher que até queria, mas não conseguiu amamentar, normalmente não consegue por falta de apoio", diz a enfermeira.

Apoio esse que, segundo Marília Pereira, deve ser procurado logo durante a gravidez. E, neste sentido, pode ser fornecido pela enfermeira do centro de saúde, por algum especialista em aconselhamento de leito materno ou até por grupos de apoio à amamentação, presenciais ou online, mas gratuitos, por exemplo.

"O objetivo será sempre perceber, junto da comunidade da mãe, quais as opções que existem. E, claro, ouvir conselhos de quem já amamentou, mas tentando sempre não criar ideias pré-formadas até chegar o momento em si."

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