Esta segunda-feira, 27 de abril, a Direção-Geral da Saúde (DGS) elaborou um calendário semanal de sugestão para os pais de crianças até aos cinco anos, que publicou no seu site oficial. Elaborado em conjunto com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, este calendário de atividades pretende ajudar os pais a procurar o equilíbrio entre "os momentos de trabalho e de lazer, de interação e autonomia e que garanta tempo para si próprio", escreve a DGS sobre a iniciativa.

Está bom. Vamos aplaudir a iniciativa, obrigadinha DGS por nos oferecerem linhas orientadoras irreais e que colocam qualquer pai à beira de um ataque de nervos para aguentar os pratos todos no ar. Sim, é verdade que há quem esteja em casa apenas dedicado aos miúdos, mas a grande maioria de nós está mesmo em teletrabalho.

E se eu não me posso queixar, vou aqui lançar que a maioria das chefias não ficava com um sorriso na cara se todos os pais se levantassem a meio de uma reunião no Zoom. "Desculpem lá, mas são 9h00 da manhã. Está na hora da minha atividade em conjunto de desenvolvimento de linguagem com o meu filho". Estão a imaginar? Está giro.

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Mais: no meu caso, estou a trabalhar há quase duas semanas, porque antes disso estava a gozar o resto da minha licença de maternidade. Desde que as creches fecharam, para além da bebé de 4 meses, tenho também a minha filha de 3 anos em casa há cerca de um mês. E mesmo durante as semanas em que não tinha de trabalhar, seguir estas orientações à risca roçava o impossível.

Sim, sabemos que são apenas indicações. Mas caramba, são indicações feitas por pessoas que supostamente têm mais aptidões que nós (#ordemdospsicólogos), logo o facto de não as conseguirmos seguir minimamente levanta aqui uma questão: sou só eu que sou inútil e péssima mãe?

Mas vamos por partes, e vamos analisar ponto a ponto a sugestão de calendário da DGS. Vá, na loucura, vamos escolher a terça-feira, para criar aqui uma ideia fixe de realidade. Vamos a isso?

Até às 8h30 — Acordar, higiene, vestir

Problemas vários já aqui com uma hora certa para acordar. Não sei quanto aos vossos filhos, mas a minha de 3 anos virou completamente o boneco desde que isto tudo começou. Vai para a cama entre as 21h30 e as 22h (olha, já estou a fazer porcaria, a DGS diz que tenho de começar a pensar nisso às 20h30, já lá vou), como sempre, mas não raras são as noites em que fica mais de uma hora, duas até, a cantar na cama, a reunir os bonecos de peluche todos, a fazer listas de compras mentais, sei lá eu o que ela faz. Mas vos garanto que adormece muito mais tarde, e de manhã divide-se entre acordar às 7h da manhã com birra, ou acordar tarde demais, por volta das 9h30, o que vai comprometer imenso a sesta. Hora certa para acordar? Não vai dar. E banhos antes de comer? Está bem, só se o quiser fazer debaixo de berros. Também não vai dar.

8h30/9h — Pequeno-almoço

Não tenho grandes problemas com esta sugestão, afinal todos temos de comer e acredito até que grande parte das crianças com menos de 5 anos o façam por esta hora. Ahh, achavam que ia criticar tudo, não era? Malandros.

9h/10h — Atividade em conjunto (Escolher uma atividade de desenvolvimento de linguagem)

Vamos lá ver se nos entendemos. Os miúdos estão em casa, saturados, com saudades dos amigos, das educadoras, dos avós, de sair à rua. Nós, os adultos, para além de cansados disto tudo, estamos preocupados com as mortes que continuam a acontecer e também com a instabilidade financeira que aí vem, mas temos de os manter entretidos, ao mesmo tempo que temos de continuar a trabalhar para pagar as nossas contas.

E para a grande maioria das pessoas, o horário de trabalho começa justamente entre as 8h e as 10h. Tudo muito giro, mas a esta altura do dia se calhar o ideal é conseguir que os miúdos se distraiam com um puzzle, os seus brinquedos ou, na loucura, que possam ver um bocado do Panda na televisão enquanto abrimos o computador e vemos a caixa de emails, numa altura em que o nosso cérebro ainda não derreteu. Procurar 10 objetos pela casa começados pela letra A ou criar um livro com a criança, com desenhos e fotografias? Fofinho, mas tenho 25 e-mails para responder.

10h/11h — Atividade autónoma (Escolher uma atividade de desenvolvimento de autonomia)

Olha, porreiro, positivo. Temos aqui uma hora para os putos estarem sozinhos. Sugestões da DGS? Fazer tarefas domésticas, aprender a costurar, fazer a ementa da semana. Sou só eu que estou a ver aqui o problema? Bem, a não ser que queira que a minha filha "vaze uma vista", não vou propriamente dar-lhe uma agulha para as mãos, até porque os meus conhecimentos a nível da costura ficaram atrás há muito tempo, com os fascículos de ponto de cruz da Planeta Agostini.

E mesmo que esqueça que fazer estas atividades com uma criança de 3 anos seja impossível, e me concentre nas mais velhas, com 5 anos, achamos mesmo que os miúdos desta idade conseguem fazer tarefas domésticas sem beber desinfetante ou escolher ovos com salsichas para todos os dias da semana?

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11h/11h15 — Lanche da manhã (fruta)

É fruta, ouviram? Fruta. Nem pensem na eventual bolacha para safar. Levantem o rabo do computador e vão descascar a maçã. Irresponsáveis.

11h15/12h15 — Brincadeira livre

Pronto, liberdade, ótimo. Podem fazer o que quiserem. Mas cuidado com os silêncios, já sabemos que são traiçoeiros e querem, quase sempre, dizer que fizeram porcaria. A última vez que não ouvi a minha filha durante um bocado apareceu-me a dizer que tinha feito cocó no pé. Não me canso desta história.

12h15/13h45 — Preparar almoço, almoçar

Isto quer dizer que também temos quase duas horas de pausa de almoço? Bem, vou aqui arriscar que muitos de nós não o podemos fazer sob a pena de serem 20h e ainda estarmos em frente ao computador. E restos do jantar, dá para aquecer? Dava jeito.

13h45/15h — Descansar/Sesta

Não faço a menor ideia de como é possível fazer um miúdo de 4 ou 5 anos descansar se ele não quiser dormir a sesta. Cá por casa, a sesta da minha filha é vida, pois é o único momento do meu dia de trabalho em que consigo adiantar coisas tranquilamente. De qualquer forma, e devido ao que já expliquei antes, o facto de ela estar toda trocada faz com que não faça sestas todos os dias, ou que sejam bem mais curtas do que o habitual. E isso, invariavelmente, faz com que as birras sejam comuns e me tirem toda e qualquer concentração assim que ela perde o sono.

15h/16h — Atividade em conjunto (Escolher uma atividade de desenvolvimento do corpo)

Então, claro. Então os putos estiveram a dormir, vocês conseguiram trabalhar ali uma hora e pouco (mesmo que só tenham começado às 11h e feito uma pausa de almoço de quase duas horas) e queriam continuar? Não, tudo aí a montar uma gincana pelas várias divisões da casa ou fazer origamis. Sim, está nas sugestões da DGS. Origamis. Pode ser antes um "quantos queres"? Cheguei a ter negativa num período a Educação Visual.

16h/16h30 — Lanche da tarde (iogurte/leite e pão)

Mais uma vez, aqui tudo a seguir à risca. Nem pensem em tentar inovar, dar uns cereais um dia, uma papa noutro. Todos os dias da semana é assim. Ao menos não nos obrigam a dar um determinado aroma de iogurte, o que me causaria sérios problemas com a minha filha, que quer sempre iogurte de coco, como contei aqui.

E atenção, se os vossos filhos fizerem birra por quererem comer outra coisa, nem pensem em ficar fatigados com as birras deles ou desvalorizar a situação, encarar com humor, filmar e mandar ao pai para ele saber o monstrinho que temos cá em casa. Depois de partilhar na minha crónica que filmei uma birra da minha filha, birra essa que me deixou pelos cabelos, uma utilizadora do Facebook disse que eu devia era abraçar a miúda e conversar calmamente com ela sobre a birra. Vocês são todas perfeitas, não são? Nunca se irritam e têm todo um conhecimento de parentalidade positiva debaixo do braço, não é? #beijinhonoombro

16h30/17h30 — Atividade autónoma (Atividade de criatividade e/ou imaginação)

"Fazer de conta que se conseguiu viajar no tempo e já se está em dezembro de 2020. Imaginar estratégias para avisar o seu Eu de março de 2020 que conseguiu viajar no tempo" é uma das sugestões. Caramba, posso fazer isto também? Gostava mesmo de saber se vai dar para ir à praia, está-me a apoquentar.

Vá, agora a falar a sério. Outra das sugestões é criar um podcast. Crianças a criar um podcast. Já não basta tudo o que é influenciadora digital se ter virado para isso (amigas, nem todas vocês têm assim tanta coisa fixe para dizer), como agora os nossos filhos também vão "criar conteúdo".

17h30/18h30 — Brincadeira livre, tempo de ecrã, relaxamento

Ah, já percebi porque é que não podiam ver o Panda de manhã, o tempo de ecrã é só agora. Atenção, o tempo que os nossos filhos dedicam à televisão ou a tablets é uma das minhas maiores preocupações e já proibi várias vezes a minha filha mais velha de ter acesso a isso de segunda-feira a sexta-feira. Estou ciente dos problemas, das consequências e acho mesmo que, enquanto pais e educadores, devemos ter isso em atenção e encontrar estratégias para o combater.

Mas tudo isso é mais fácil quando os podemos tirar de casa para ir ao jardim, ao cinema, ao parque, à praia ou a um museu. Quando temos todo o tempo do mundo para lhes dedicar. Neste contexto de teletrabalho, e principalmente se não tiverem ajuda durante grande parte do dia, que atire a primeira pedra quem não precisou de os pôr a ver desenhos animados um bocado. E, por favor, não me lixem a cabeça com isso.

18h30/20h — Preparar jantar, jantar

Jantar até às 20h? Amigos, estamos a equilibrar balanças desde as 8h da manhã, acham mesmo que conseguimos largar tudo para ir fazer jantar às 18h30? Por volta desta hora, é a hora que o meu marido chega a casa (ele, que não está em teletrabalho grande parte dos dias) e consegue finalmente susbtituir-me para eu ainda terminar coisas. Ao mesmo tempo que as miúdas têm de tomar banho e, efetivamente, se tem de preparar algo para comer. Se estivermos sentados às 21h, alguém soe o alarme de milagre.

20h/21h30 — Descansar em família

Rio-me eu, ou riem vocês?

20h30/21H30 — Dormir (Crianças)

Sou honesta, cara DGS: se desse, até eu ia dormir às nove da noite, que ando aqui que parece que me passou um camião TIR por cima. Mas não dá e honestamente, cumprir este horário à risca também se tem revelado um desafio. Ou porque ela não tem sono, ou porque ainda estamos a jantar, ou, pura e simplesmente, porque é a partir das nove da noite que conseguimos finalmente ter uns breves momentos para brincar, sem a pressão de mil coisas para fazer.

Sim, os nossos filhos precisam de nós, mas não somos robôs e andamos estoirados. Por mais que estas recomendações venham com boas intenções, são irreais e só nos fazem sentir mais pressionados. Fazer tudo isto é mais difícil que sei lá o quê. E sabem porque é que consegui escrever isto? Porque tenho o meu marido em casa, há pediatra com as miúdas daqui a pouco. Caso contrário, já tinha uma ao colo, outra a espalhar plasticina por todo o lado, e a cabeça em água. Isso, ou deixava a mais velha ver o Panda.

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