As escolas de todo o País fecharam a 16 de março para colocar em quarentena alunos e professores de forma a travar a contaminação da COVID-19. Com o fecho veio também uma questão primária: "E agora?". Algumas escolas optaram por dar aulas virtuais ou partilhar conteúdos e exercícios por mail, no entanto, esta não é uma alternativa abrangente, já que muitos alunos não têm acesso a computador ou internet em casa.

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Soubemos também este sábado que a telescola vai regressar — a primeira vez que foi implementada foi a 6 de janeiro 1965 — com o objetivo de dar hipótese aos alunos até ao 9.º ano de voltarem às aulas a 13 de abril de forma gratuita e mais abrangente. O mesmo não se aplica aos alunos do ensino secundário cujas medidas ainda estão a ser estudadas.

As mudanças são várias, mas não seria também um momento oportuno para fazer uma reforma no ensino em Portugal? Há quem ache que sim e que já vem tarde: "O ensino vigente no mundo está profundamente desajustado da realidade, seja em conteúdos, dinâmicas de ensino e corpo docente. Talvez agora fique clara a necessidade de uma mudança profunda a todos os níveis", diz à MAGG Luís Rasquilha, CEO da Inova Consulting e conhecido como "profissional do futuro" no programa "CBN Noite Total", no Brasil.

Luís já esteve presente em três talks no TEDx, uma no Brasil e outras duas em Portugal, sendo que a que deu em Lisboa em 2010 ficou marcada pelas ideias inovadoras no que diz respeito ao ensino.

O digital

Desde a talk em Lisboa passaram-se dez anos, mas as ideias do CEO mantêm-se. Luís considera que o ensino devia ser reestruturado e que o digital pode dar uma ajuda, tal como temos visto a acontecer nos últimos tempos. Mas a tecnologia não é o único fator chave.

"O digital é um eixo estratégico mas que complementa os eixos académicos de conteúdos e metodologias pedagógicas. Não chega digitalizar a educação atual", refere, acrescentando que este é um erro frequente sempre que se tenta transformar o ensino.

Significa isto que a reforma tem de ser feita de raiz e não apenas à superfície, ou seja, na forma como são transmitidos os conteúdos. É preciso mudar o plano de estudos e Luís Rasquilha tem algumas sugestões: "Há que saber desde sempre coisas como empatia, empreendedorismo, planeamento ou finanças de pessoas, psicologia, etc, temas muitas vezes abordados apenas de leve no ensino superior e praticamente zero no secundário", refere. São no fundo as chamadas soft skills, ou competências não técnicas, que têm pouca expressão no sistema de educação atual.

Luís Rasquilhas defende por isso que haja um equilíbrio entre as áreas exatas, humanas e criativas, destacando 10 habilidades relevantes, de acordo com o mais recente estudo do Fórum Económico Mundial (WEF) sobre o futuro do trabalho.

10 habilidades mais relevantes para o trabalho no futuro:

  1. Pensamento analítico e inovador;
  2. Aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem;
  3. Criatividade, originalidade e iniciativa;
  4. Design e programação de tecnologia;
  5. Pensamento critico e analítico;
  6. Resolução de problemas complexos;
  7. Liderança e influência social;
  8. Inteligência emocional;
  9. Raciocínio, resolução de problemas e idealização;
  10. Análise e avaliação de sistemas.

Horas intensas de aulas e estudo são uma melhor opção?

Portugal ainda é muito agarrado à ideia de que quantas mais horas passadas no ativo — seja na escola ou no trabalho — mais produtiva será a pessoa. Mas e meso assim? "A pergunta que faço sempre é o que devemos considerar? Horas ocupadas ou aprendizagem efetiva? Resultados obtidos? Claro que dependendo do curso, período da vida, idade, etc, o equilíbrio dos temas é fundamental", refere o CEO.

Defende ainda que é preciso ócio criativo e ao sobrecarregar os estudantes com tarefas, essa capacidade de criar e pensar diferente, "tão importante hoje", diz, acaba por se perder. A reestruturação passa por isso em dar atenção à aprendizagem efetiva e não ao tempo efetivo de aprendizagem.

Luís Rasquilha usa dois temos inovadores para sugerir o que deveria ser implementado no futuro: um ensino híbrido e lifelong. Traduzindo por outras palavras, é "onde se consegue colocar as dinâmicas presenciais e online e se mantêm uma cadência de educação ao longo da vida", refere.

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Os ajustes vão desde as competências dos professores, passando pelo ADN das escolas com temas radicalmente diferentes dos que são abordados atualmente, até à capacidade de ajustar a cada aluno a sua necessidade. Resta saber qual o papel dos pais no meio destes ajustes — deverão ajudar os filhos nas tarefas?

"Sem dúvida. Isso é algo atemporal, embora seja necessário entender como pode ser equilibrado o tempo entre o que os pais precisam para trabalhar e para estar com os filhos. É algo mais abrangente e mais complexo que ultrapassa o ensino em si. Mas sim, é fundamental a sua presença na vida das crianças, independentemente da idade", refere.

Os alunos que chegam ao 10.º ano são muito novos para decidir o que querem seguir para o resto da vida?

Quando falámos com o "profissional do futuro" quase prevíamos o que diria sobre a maturidade para escolher a área de estudo que dita o curso a seguir. O que é facto é que são vários os jovens que mudaram de área semanas depois de entrar no 10.º ano ou até que andaram alguns anos num curso que nunca foi o que sonhavam. Todos esses casos podem resultar de uma decisão precoce.

"Pensando que a expectativa de vida pode chegar em breve aos 120 anos e que se prevê 12 carreiras diferentes na vida de uma pessoa esse é um tema que já devia ter sido resolvido há muito tempo", refere o CEO da Inova Consulting.

Mas não é só na entrada para o ensino secundário que, na opinião de Luís Rasquilha, devem ser feitas mudanças. A reestruturação vai mais adiante: "Em toda a estrutura de ensino que nos leva até ao dia dos exames, que esquecemos na hora seguinte a sermos aprovados neles. Não faz sentido", aponta o professor.

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