Sharenting. Pode nunca ter ouvido esta palavra, mas se tem filhos e uma página de Instagram ativa, é bem provável que já o tenha feito. O termo diz respeito à partilha, pelos pais, na redes sociais de conteúdos sobre os seus filhos, sejam imagens, informações ou desabafos acerca dos mais novos.

"A expressão sharenting não é de agora, mas, ao longo dos anos, vão surgindo designações que explicam alguns dos comportamentos mais prevalentes da sociedade", afirma a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva à MAGG, reconhecendo a existência do termo.

Estas mulheres não querem ter filhos e apontam o dedo à sociedade. "O que eu vejo mais são mães infelizes"
Estas mulheres não querem ter filhos e apontam o dedo à sociedade. "O que eu vejo mais são mães infelizes"
Ver artigo

E é agora que os nossos dedos, tão rápidos a apontar e a julgar os outros — e se há tema onde os julgamentos surgem de todos os lados, esse tema é a parentalidade —, devem dar uma volta de 180º e serem apontados para nós. Porque salvo raríssimas exceções, quem é o pai ou a mãe que nunca partilhou o que quer que fosse sobre os seus filhos? Sabemos que existem perigos, mas salvaguardadas informações pessoais, será que estamos a fazer algo prejudicial ao publicar uma imagem das crianças num passeio ou numa festa?

Filipa Jardim da Silva recusa posições radicais ou demagógicas, sendo uma apologista do equilíbrio. "Não é sensato, ou pelo menos não é essa a minha perspetiva, afirmar que todos os pais que partilham fotografias dos filhos estão errados. Mas há diretrizes que devemos seguir", explica a psicóloga e fundadora da Academia Transformar.

Se nunca publicaria nas redes uma história embaraçosa, não o faça com as dos seus filhos

É inegável que as redes sociais tomaram de assalto a nossa vida. Há quem partilhe mais, há quem o faça menos, mas mesmo a ritmos diferentes, todos acabamos por tornar públicos, em alguma escala, detalhes, rotinas ou hábitos, desde o local onde trabalhamos ao sítio onde estamos alojados no fim de semana. Invariavelmente, quem tem filhos acaba por os incluir nesta partilha.

"Com a nossa presença massificada no online enquanto adultos, as partilhas em grande escala das nossas crianças também existem. Aliás, muitas vezes, as partilhas começam ainda quando as crianças não nasceram, com a publicação de ecografias por exemplo", salienta Filipa Jardim da Silva.

filipa jardim da silva
Filipa Jardim da Silva é psicóloga clínica

Para a especialista, é importante olharmos para os dois lados da questão. "De um lado temos a liberdade individual dos pais, que querem partilhar com os amigos ou rede de seguidores, conforme as pessoas que estamos a falar, um momento bom das suas vidas como é a chegada e o crescimento de uma criança, falar sobre o tema, fazer partilhas da gestação, até desmistificar alguns aspetos da parentalidade. Há aqui um lado de partilha, de humanização da parentalidade que é compreensível e, de alguma forma, tem o seu quê de importância. Até porque só nos relacionamos uns com os outros sendo humanos e autênticos."

No entanto, cruzando a liberdade individual dos adultos com a liberdade e o direito à privacidade das crianças, Filipa Jardim da Silva relata que são os contornos como partilhamos os nossos filhos que são verdadeiramente importantes, bem como uma diferenciação sobre o tipo de conteúdos publicados.

"Diria que uma boa prática é o pais só publicarem conteúdos dos seus filhos na mesma lógica do que seriam os partilhado por si, sejam imagens, informações, histórias. Assim, isto implica não partilhar certos episódios ou imagens de momentos que possam ser constrangedores para as crianças ou constituir uma fonte de informação para terceiros que vai criar uma desvantagem para estas."

Por exemplo, e tal como explica a psicóloga clínica, se uma criança chegar a casa com a marca de uma dentada de um colega, a falar do menino que o mordeu, os pais devem ter noção das implicações de tornar essa história pública. "Vamos supor que o meu filho diz que já não quer brincar com aquele colega, que ele é mal educado, etc. Se eu publico isso nas redes, estou a dar a informação a esse colega, aos pais dele, possivelmente até à educadora e a dezenas de outras pessoas informação excessiva que a comunidade não ia ter acesso de outra forma."

Filipa Jardim da Silva defende então uma triagem. "Se eu quero divulgar algo da vida do meu filho, independentemente de me parecer uma coisa muito corriqueira, como um trabalho de casa que ele não achou piada, uma queda, um episódio que até posso achar cómico, tenho sempre de pensar se não estou a expor a privacidade dele."

Quando os miúdos estão no meio da arena (pública) dos pais

Nos últimos dias, uma série de publicações no Instagram de Alexandre Esteves de Oliveira, ex-companheiro de Mariana Patrocínio, foram replicadas em vários órgãos de comunicação social. Entre outras acusações, o advogado usou as redes sociais para criticar comportamentos da irmã de Carolina Patrocínio, tecendo comentários maldosos sobre as suas amigas e chegando mesmo a referir não ter tido filhos para ganhar seguidores nas redes sociais, num indireto, mas claro, ataque à antiga companheira. Pior: Alexandre fê-lo numa legenda de uma fotografia de uma das filhas, e chegou mesmo a trazer as crianças para a discussão.

Ex-companheiro de Mariana Patrocínio critica mãe dos filhos em público. Família já reagiu
Ex-companheiro de Mariana Patrocínio critica mãe dos filhos em público. Família já reagiu
Ver artigo

De acordo com Filipa Jardim da Silva, seja em casos de separação ou de qualquer outro motivo de conflito dos adultos, as crianças devem estar protegidas e fora destas arenas. Ao colocá-las entre os pais, de forma mais ou menos públicas, estamos a fazer o oposto de protegê-las. "Se achamos que, ao ter este tipo de atitudes, estamos de alguma forma a enaltecer o nosso amor por elas, em algum momento vamos perceber que não é assim."

Até porque ver os pais em discussões e ataques cerrados é do pior que se pode fazer a uma criança. "Os miúdos têm nos pais os seus ídolos, as suas figuras de referência, as suas estruturas de segurança. Quando sentem, notam e se apercebem de informação [como ataques ao antigo parceiro nas redes] que lhes dá a ideia de que estas duas figuras de referência estão em combate uma com a outra, isto resulta num grande abalo na sua segurança. Pode espoletar um conjunto de inseguranças nas crianças, ficarem com a ideia de que não podem gostar dos dois da mesma forma, que não podem partilhar com o pai o que fazem com a mãe e vice-versa", diz a especialista, que salienta a vital importância de as crianças não serem usadas nestas lutas.

"Quando os filhos se apercebem e tomam consciência de que estão a ser uma arma de arremesso entre os pais, isso cria um sentimento imediato de sofrimento. Para não falar do desconforto e do estado de alerta que, muitas vezes, fazem com que estas crianças, de forma muito precoce, comecem a ter um papel de mediador que não lhes cabe a elas, a ter atenção acrescida sobre o que podem e não podem contar a um e a outro."

E no caso de situações expostas publicamente, estas aumentam de gravidade. "A exposição de situações de conflito familiar no contexto de redes sociais, independentemente de estarmos a falar de figuras públicas ou não, torna as crianças mais vulneráveis. Isto porque os conflitos são públicos para outras pessoas, sejam crianças ou adultos, e estes miúdos veem a sua dinâmica familiar e intimidade ser alvo de comentários, exposta para a devassa alheia. Isto, naturalmente, contribui para termos crianças mais ansiosas e vulneráveis a ataques, e até ter um forte impacto na sua saúde psicológica, interferir com sono, apetite, desempenho académico e humor, tal como acontece quando estas são expostas e colocadas no meio dos conflitos dos pais."

Quer partilhar a fotografia fofinha do seu filho? Pergunte-lhe se pode

Voltando à premissa inicial, nem todos os pais estão a fazer algo de mau quando partilham conteúdos dos seus filhos, nem isso tem de ser negativo. E uma forma de dar a volta à questão facilmente é envolver os miúdos na decisão.

"Por volta dos 4 e 5 anos, as crianças têm a noção da sua identidade diferenciada dos outros. Por esta altura, os pais já podem perguntar se eles se importam que lhes tirem uma foto, se a podem mostrar e publicar. E se os filhos responderem que se importam ou que não gostam de tirar fotografias, há que respeitar isso. Vale a pena introduzir a criança na decisão enquanto pessoa individual, porque os filhos não são apêndices nem extensões dos pais independentemente da profissão, status ou exposição publica e do que está a acontecer na vida dos adultos. Vale a pena separar essa identidade de cada um, porque quando fazemos isso, estamos a protegê-las", esclarece Filipa Jardim da Silva.

Também há que ter a certeza que ambos os pais estão alinhados em relação aos conteúdos sobre os filhos que são partilhados, principalmente quando falamos de casais separados, garantindo que há um consenso sobre o que pode ou não ser tornado público.

Os ecrãs estão a substituir os pais
Os ecrãs estão a substituir os pais
Ver artigo

Até porque existem perigos para esta exposição, quer sejam momentâneos ou futuros. "Os miúdos expostos de forma excessiva muito precocemente podem tornar-se, mais tarde, em adolescentes e adultos com dificuldades em compreender e estabelecer o que são limites de privacidade e podem efetivamente ter dificuldades acrescidas no que é a construção segura e bem definida das suas identidades", alerta a psicóloga.

Mais: de acordo com dados de investigações recentes sobre a exposição digital das crianças, estas correm mais riscos de bullying devido a existir mais informação disponível de fácil acesso a todos. "Há mais por onde pegar", salienta Filipa Jardim da Silva. Para além disso, a psicóloga também alerta os pais para os perigos verdadeiros da partilha de informações em relação a questões de segurança.

"Não é preciso que quem me segue saiba a escola onde andam os miúdos, a hora e o hospital onde nasceram, nome completo, morada, identidade dos colegas e principais amigos, sítio onde a família passa férias com frequência. As nossas crianças têm uma presença digital cada vez mais cedo, muito antes dos 18 anos, e as investigações recentes têm demonstrado que, quando as crianças atingem a maioridade, já têm dados partilhados o suficiente para que haja roubo de identidade."

Subscreva a newsletter da MAGG.
Subscrever

As coisas MAGGníficas da vida!

Siga a MAGG nas redes sociais.

Não é o MAGG, é a MAGG.

Siga a MAGG nas redes sociais.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.