A amamentação, a idade em que se tiram as fraldas, o tipo de papas, a altura em que os bebés vão para o infantário ou a hora de ir dormir. Entrar no mundo da maternidade não só é andar por um caminho desconhecido, como também de constantes dúvidas. Os pais veem-se atormentados, em particular as mães em determinados assuntos, e vários fatores à sua volta contribuem para isso.

Os avós intrometem-se porque "no meu tempo não se fazia assim", os amigos fit dizem que "as melhores papas são aquelas que se fazem em casa" e o leite materno pode até ser um tema polémico entre as mulheres.

A geração Y, também conhecida como os millennials, que nasceram entre 1981 e 1996, é aquela que está agora mais presente na maternidade. E é também aquela que se depara com os comentários dos avós e pais, com os mil e um livros que antecipam o que uma mulher deve esperar na gravidez, ou que ensinam receitas para os bebés comerem sozinhos.

São tantas as questões que se colocam pelos pais desta gerações, que invariavelmente sentem-se a sufocar com tantas coisas em que pensar. E com esse sufoco, vem a culpa. Porque é que isto acontece? Fomos à procura da resposta junto de três especialistas que explicam como é que os pais se sentem perante tanta informação e a pressão da sociedade.

Júlia Machado, psicóloga no Hospital Lusíadas no Porto, conta à MAGG que muitos pais a procuram no sentido de serem ajudados a lidar com os filhos, porque não sabem como os educar ou se estão ou não a fazer o que é "correto" (um termo que só por si é controverso).

"Existem várias dúvidas na forma como educam os filhos e na maioria dos casos associados a um sentimento de culpa". Entramos aqui no tema principal: a culpa dos pais. O que é isto? E de que forma pode afetar os pais?

"Esta ausência de contrariedade ou de educação leva a criança a não ser frustrada. É bom ser frustrada"

O pediatra Fernando Chaves, do Hospital Lusíadas Lisboa, aponta primeiramente um sentimento de culpa associado à amamentação. Seja porque não podem ou porque não conseguem, algumas mulheres não amamentam os recém nascidos e esse é um dos principais aspetos que faz com que as mães sintam pressão por parte de quem as rodeia.

"Acham que serão piores mães, que os bebés serão mais doentes, que serão menos inteligentes. Ou seja, esta pressão social, muitas vezes baseada em desinformação, é o primeiro passo para a culpabilidade na fase mais precoce", refere o pediatra.

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Outros dos aspetos que pode levar a este sentimento está relacionado com os infantários. Há pais que colocam os filhos por opção e outros por uma questão de necessidade quando não têm com quem os deixar e o trabalho assim o exige. O problema? É que sentem culpa quando se veem forçados a fazê-lo, mesmo que não o verbalizem, acabando por defender-se com "falsas justificações".

O pediatra Fernando Chaves enumera duas: "Que colocam as crianças nos infantários para estimulá-las, quando sabemos que só sociabilizam a partir dos 6 anos, ou que é para ganharem imunidade".

A culpa pode desenvolver-se quando os filhos são pequenos e refletir-se mais tarde em comportamentos compensatórios dos pais através da permissividade. De acordo com a médica de psiquiatra da infância e adolescência Berta Pinto Ferreira, "é importante que os pais forneçam um estilo de vida equilibrado ao que os filhos necessitam e não ao que querem. É importante dizer não".

Estabelecer limites bem definidos, estar emocionalmente disponível e dar o exemplo são algumas das dicas da especialista para atingir este equilíbrio.

A incapacidade de dizer não pode estar relacionada com um crescimento mais frágil das crianças hoje em dia que, de acordo com o pediatra Fernando Chaves, têm pouca capacidade de frustração, uma vez que o facto de terem tudo o que querem, por exemplo, faz com que não criem resiliência.

"Esta ausência de contrariedade ou de educação leva a criança a não ser frustrada. É bom ser frustrada. Acho que cada vez menos as crianças estão preparadas para uma vida", admite o especialista.

Como é que os pais encontram um equilíbrio na educação?

O telemóvel é possivelmente um dos temas mais polémicos na educação das crianças. As questões que se colocam dizem respeito à idade em que devem usar, que tipo de telemóvel, quando deve tê-lo ou como controlar o uso. Para o pediatra Fernando Chaves, a regra é simples: "Não devem ser nem os primeiros a ter, nem os últimos. E quando tiverem, não têm de começar logo com o iPhone 11 ou 12".

O especialista atribui a sensação de culpa à ideia dos pais de que o seu filho tem menos do que os outros. Se os outros têm, então como pai ou mãe estão a falhar nalgum lado, porque os seus filhos "têm de ser pelo menos iguais aos outros".

Como interiorizaram isto não se sabe, mas as tecnologias trouxeram desafios com que os pais nunca antes se tinham deparado. Se antes as preocupações centravam-se no número de horas que podiam deixar as crianças a brincar na rua, agora trata-se de saber a idade em que podem ter um pequeno aparelho nas mãos que os coloca em contacto com o mundo.

Um mundo é também aquilo que se encontra dentro dos livros que falam sobre, literalmente, tudo. Seja como preparar o parto ou como desenvolver a inteligência dos bebés, levando a vários tipos de excessos.

"Acho que existe excesso de informação. Excesso de desinformação e pouca contextualização. Porque obviamente podem haver workshops com boas intenções e bons temas, mas se forem mal transmitidos e mal interpretados pelos pais não funcionam", diz à MAGG o pediatra Fernando Chaves.

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É possível educar sem (des)culpas

O primeiro passo é prevenir. E, no seguimento da opinião do pediatra, esta prevenção não deve ser feita com base em todas as informações disponíveis, sejam elas em livros ou em grupos de Facebook onde se tiram dúvidas sobre maternidade. Nada disso.

"A culpa dos pais deve ser evitada com menos workshops, menos literatura, menos blogues, menos coisas perfeitamente disparatadas de pessoas não preparadas para isso. Se têm duvidas, falam com quem percebe", refere o pediatra Fernando Chaves, do Hospital Lusíadas Lisboa.

Há ainda outras formas de evitar um sentimento de culpa ainda antes da maternidade. A psicóloga Júlia Machado defende que os pais devem primeiramente estar em harmonia consigo próprios, porque ao conhecerem-se e saberem cuidar de si, vão conseguir cuidar de outros de uma forma mais positiva.

"Daí que o autoconhecimento seja um beneficio extremamente necessário e eficaz neste processo de educação", refere a especialista.

"Nem tudo é culpa dos pais, pois existem condicionamentos e estímulos muito fortes da própria sociedade em que vivemos hoje"

A psicóloga exemplifica um caso com que se deparou em consultório em que a prevenção já não se aplica, mas mostra que é possível afastar a culpa, bem como os problemas a que pode estar associada.

"A mãe estava desesperada pela situação da filha pelo facto de a considerar uma criança difícil de educar. Já tinha passado por vários psicólogos e inclusive estava a ser medicada desde muito cedo. Nesse sentido, foram dadas estratégias na consulta de acordo com a essência daquela jovem", recorda, demonstrando que apesar de parecer um caso complicado, pode ser contornado.

Um dos primeiros passos é desconstruir o sentimento de culpa, de forma a que os pais percebam que não existem pais ou estilos de educação perfeitos e que ser pai ou mãe é um desafio que os faz crescer e serem melhores pessoas.

"Nem tudo é culpa dos pais, pois existem condicionamentos e estímulos muito fortes da própria sociedade em que vivemos hoje. É necessário desmistificar a ideia de que a mãe e o pai são a principal influência que as crianças recebem ao ampliar a visão sobre as variadas formas de educar, mostrando que não há uma que seja mais correta do que outra", refere a especialista.

Numa situação como a da mãe que recorreu à psicóloga Júlia Machado, o processo pode ser facilitado se os pais tiverem autoconhecimento, isto é, reconhecerem as características da personalidade e natureza dos seus filhos, de forma a que com ajuda de especialistas possam trabalhá-las.

Além da psicologia, a especialidade de Berta Pinto Ferreira, a psiquiatria da infância e adolescência ou pedopsiquiatria é outra das áreas de intervenção no tratamento da culpa dos pais e do comportamento dos filhos.

Isto porque está "relacionada com a avaliação, estudo e tratamento das perturbações emocionais e do comportamento na infância e na adolescência (dos 0 aos 18 anos) e tem como principais objetivos a promoção de um normal desenvolvimento psicoafetivo, e a prevenção e tratamento de perturbações mentais e afetivas na esfera individual e/ou familiar", explica a especialista.

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