Em "Era uma vez... em Hollywood", há um momento em que Cliff Booth, a personagem interpretada por Brad Pitt, chega à pequena e atulhada caravana onde vive e prepara um mac and cheese. Basicamente, ele ferve o macarrão e espeta-lhe em cima um queijo em pó nojento, para depois se ir refastelar no sofá a ver televisão. Aquilo repugnou-me. Onde é que já se viu um homem daquela idade a comer aquela porcaria, ainda para mais com um corpinho daqueles para conservar?

Ironicamente, poucos dias depois, era eu que vertia um pó nojento numa tigela com noodles provenientes de um pacote de 80 cêntimos (mais coisa menos coisa). E eis que uma epifania cai sobre mim: valha-me deus, eu sou o Cliff Booth.

E este é mais um dos esbardalhanços dos 30 anos, a altura da vida em que apesar de termos conhecimento e discernimento suficiente para compreendermos o significado de boas escolhas alimentares, continuamos a fazer exatamente o contrário. Continuamos a enfardar álcool, continuamos a mandar vir McDonald's no dia seguinte, continuamos a comer hidratos de carbono ao almoço e ao jantar porque #fuckthepolice.

Esbardalhanços aos 30 anos. Uma conversa com o meu eu de 6 anos
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Bem, nem toda a gente. Há os puristas do abacate: esta é aquela estirpe de gente que adora comer sementes e que ousa dizer que o seu prato preferido é um hambúrguer de grão. Nada contra os suprarreferidos, também os como e até que os aprecio. Porém, estas afirmações carecem de alguns reparos. Em primeiro lugar, meus amigos: o abacate pode ser muito saudável, mas está a matar gente na América do Sul. Se não sabem disto, vão ler.

Em segundo: como ousam chamar hambúrguer a uma leguminosa espalmada e prensada? É como a atribuição do sufixo vegan a alimentos como alheira ou queijo. Por-favor. Arranjem nomes para as vossas comidas e deixem as nossas em paz.

Adiante. O ponto é: sim, aos 30 anos, já fazemos sopa, já comemos mais vegetais, já sabemos escolher as melhores fontes de gordura e até já só compramos bolachas de tipo Marinheiras e frutos secos para carregarmos nas nossas carteiras e picarmos quando a fome aperta.

Mas, como em vários campos da vida, não estamos imunes à asneira, com a diferença de que, face à infância e adolescência, estamos absolutamente conscientes sempre que as cometemos. E, amigos, dói muito mais — tanto que a cada batata frita que mandamos para o bucho, conseguimos ouvir o eco das nossas células e nádegas a gritarem "nãaaao".

Mas um dia de cada vez, uma semana de cada vez, um mês de cada vez. Não cedamos ao perdido por 100, perdido por mil. Que se aceite a asneira esporádica (sem a rigidez da #cheatmeal, que coisa irritante), sem o perigo de se normalizar o atentado nutricional e calórico.

Eu tenho esperança. Um dia, vou ter paciência para passar um domingo fechada na cozinha a fazer contas às marmitas da semana. Nessa altura, a caixinha com arroz integral, brócolos cozidos e peito de frango vai olhar para mim com tal força, que Cliff Booth não mais se conseguirá apoderar da minha alma. Pelo menos, com tamanha frequência.

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