Jantar de Natal 2019. Família à mesa, muita comida, copos de vinho branco, tinto e cheios, e eu numa das pontas da mesa. Trinta e três anos, sem filhos, a viver a 400 quilómetros de toda a gente e com uma vida que, para quem vive nos padrões de rendas de 250€ por um t3 com terraço, é daquelas "bem modernas".

Toda a gente à mesa estava a par do fim da minha anterior relação, mas sentia que a malta precisava de um respirar de alívio. Até pensei beber mais um copo de Alvarinho antes de lançar a bomba, mas a minha mãe antecipou-se: "Oh Marta, não tens nada para contar?". Por segundos, acabou o Natal. Cancela renas, presentes e luzes no pinheiro. A Marta, da cor do fato do homem de barbas que devia ser o protagonista da noite, tinha algo a anunciar.

"Conheci uma pessoa", disse num tom que nem é o meu, quase com a voz a falhar. Pronto, estava feita a noite. Podia dizer que a minha família se autointitula muitas vezes de família-da-etnia-da-qual-não-é-o-dia-indicado-para-dizer. É que andamos em bando e falamos todos tão alto e tão a atropelar-nos que, quem vê de fora pensa que à mesa está instalada a discussão. Mas não, gostamos bastante uns dos outros.

Só digo que entre as rabanadas e o bolo rei, houve espaço à mesa para expressões como Tinder, match e Instagram. A minha prima pede para ver fotos, a minha tia pede o historial. Peço a atenção a todos, que aqui não é simplesmente dizer que o rapaz é do Algarve. "Nasceu em Inglaterra, a mãe é sul africana, cresceu no Zimbabwe e agora vive em Portugal".

Muitos uaus, muita surpresa, mas a maior de todas vejo-a na cara da minha avó, que até aqui assistia a tudo sem mudar de expressão. Leva as mãos à cabeça e pergunta: "É preto?".

Toda a gente se ri mas, na verdade, todos esperam avidamente pela minha resposta. "Não, não é preto, bó", digo-lhe já a revirar os olhos. Respira aliviada, sentimento que vejo ser geral.

O problema não está na minha família nem na minha avó de 84 anos. Está em todas as vezes que tive que repetir o discurso.

Não é que alguém se opusesse à relação caso ele fosse realmente preto, nada disso, mas é o alívio que me incomoda sempre que o veem mais caucasiano do que qualquer um de nós.

E esse alívio também o senti eu, que não estou aqui numa bolha de hashtags e discursos de amor. É que alguém ser do Zimbabwe é exótico para meter conversa, mas não é fixe quando temos que justificar tons de pele e sotaques a toda a hora.

Teve que levar comigo a dizer que ia de zebra para a escola e eu tive que levar com emojis de elefantes das minhas amigas sempre que o assunto era sexo com alguém que vem de África. A sorte é que ele percebeu que metade do meu cérebro é sarcasmo e eu percebi que as outras têm é inveja.

#amplifymelanatedvoices. O movimento que quer voz às pessoas negras
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Hoje perguntei-lhe como é que ele via todos este movimento e tive mais respostas do que o que esperava. Percebi o porquê de ter entrado no supermercado só para comprar um gelado ao sem abrigo americano que vive à porta do Pingo Doce. Percebi o porquê de ir para o grupo dos "Vizinhos do Areeiro" mandar vir com quem publica comentários xenófobos. Percebi o porquê justificar o facto de os nossos vizinhos ucranianos nos encherem de bolos com um "se calhar é das poucas vezes que também alguém os trata como gente".

Quem muito já teve que se justificar e voltar a erguer em terra estranha fica com umas ganas de justiça que não se vê nos outros. As pessoas esperam que ele seja branco como os ingleses e preto como os africanos, quando ele só quer ser o Carlos.

Mas ser o Carlos é difícil numa sociedade de rótulos mais difíceis de tirar do que os dos frascos das azeitonas. Eu ainda não os descolei todos, mas alguns foram-me arrancados sem dó por uma criança de cinco anos quando, há uns anos, fui conhecer o Jardim de Infância de Arroios para uma reportagem. Sabendo de antemão que ali estavam miúdos de 18 nacionalidades, muni-me de perguntas sobre a cor da pele, as tradições à mesa e as regras sobre cada religião.

Pergunto ao Adriano, o menino com a pele mais escura de todo o grupo, de onde é. À espera de ouvir Angola ou Senegal, sai-se com um "Sou do Benfica". O Rodrigo, o mais pequeno da sala, partilha do clubismo, mas ri-se da resposta do amigo. Ao perceber que eu os estava a julgar pela cor da pele, explica-me: “A minha mãe é castanha e o meu pai é branco”. Curiosa com a resposta, pergunto-lhe: "E tu?"

“Eu? Eu sou o Rodrigo.”

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