Embora não seja a série incrível que muitos diziam ser, especialmente nas últimas temporadas, "A Guerra dos Tronos" é talvez o exemplo mais recente de como é possível sentarmo-nos em frente à televisão à hora marcada e esquecer o mundo lá fora e o frenetismo das redes sociais. Tudo isto para apreciar cerca de 50 minutos de televisão ininterrupta — com a certeza de que, quando terminarmos, haverá milhares de pessoas que viram o mesmo que nós e que estão mortinhas por comentar, discutir e teorizar sobre o que vai acontecer nos próximos episódios.

No entanto, desde que Portugal (e o mundo) foram apresentados ao admirável mundo novo do streaming, termos como binge watching e maratonas de séries passaram a fazer parte do vocabulário de muita gente. Pior: passou-se a fazer séries com episódios de cerca de 15 minutos de duração ("Bonding", da Netflix, é um bom exemplo) em que o único objetivo é o consumo rápido e descartável.

Inventem-se séries com episódios de 3 minutos (que a malta não aguenta mais)
Inventem-se séries com episódios de 3 minutos (que a malta não aguenta mais)
Ver artigo

Porque é precisamente isso que o "binge" promove: a ideia de começarmos uma série com a mesma rapidez com que desistimos dela, em que o importante já não é acompanhar uma história, mas sim dizer que a vimos — porque ninguém gosta de ficar de fora da conversa global em redor de fenómenos.

As maratonas de séries são, como o nome indica, a correr. Não há tempo para digerir, pensar e apreciar as subtilezas, os diálogos, as personagens e as suas complexidades e o trabalho de realização. Afinal, há mais conteúdo para ver que merece a nossa atenção e é difícil tirar o pé do acelerador quando se podem ver dez ou 13 episódios de uma assentada.

Só que este modelo de lançamento, utilizado por serviços como a Netflix e a Amazon Prime Video, traz mais desvantagens do que vantagens — tanto para os utilizadores como para as plataformas. Do lado do consumidor, é fácil: o facto de uma série ser lançada de uma só vez implica que ninguém a vai conseguir acompanhar ao mesmo tempo.

A adesão é sempre maior aquando da estreia, principalmente se for uma das séries mais importantes do catálogo, mas a tendência é que o interesse vá desaparecendo ao longo das semanas. Precisamente porque todos temos ritmos, vidas e disponibilidades diferentes para estar em frente à televisão. Em suma, não há um culto em redor da série que torne entusiasmante o processo de a acompanhar.

Quantas vezes quis comentar um episódio de "The Crown" no trabalho só para receber como resposta algo como: "Ainda só vou nos primeiros episódios, por isso não digas nada."

Além disso, as séries não foram feitas para serem vistas em maratonas, porque isso anula o efeito dos cliffhangers e dos plot twists, estrategicamente colocados no final dos episódios, que nos fazem levar as mãos à cabeça quando nos apercebemos de que teremos de esperar uma semana para ver o resto.

Guerra de Séries #01. Ainda há dúvidas de que “Os Sopranos” é a melhor série de sempre?
Guerra de Séries #01. Ainda há dúvidas de que “Os Sopranos” é a melhor série de sempre?
Ver artigo

Do lado das plataformas, o problema está no fator de visualizações e de cobertura mediática. Mesmo as séries mais vistas de uma plataforma, como "Stranger Things" da Netflix, poderiam alcançar ainda mais visualizações à medida que o alarido em redor de uma série ia aumentando a cada semana.

A cobertura mediática também seria prolongada já que jornalistas e críticos de televisão teriam como dissecar a série semanalmente, o que não é possível quando os episódios são lançados todos de uma vez. Nestes casos, a cobertura acontece apenas enquanto a série é popular (estatuto que dura meros dias) e pouco mais.

A Disney+ foi inteligente em fugir ao modelo da Netflix e da Amazon Prime Video e apostar em episódios semanais para "The Mandalorian", a série da saga "Star Wars". O resultado está à vista: não só é uma das séries mais populares de 2019, como garantiu que o serviço está constantemente a ser comentado e falado nos meios de comunicação.

Mais: a Disney+ já atingiu o marco de dez milhões de subscritores quando a expectativa era que, num ano, conseguisse entre 10 a 18 milhões.

"La Casa de Papel" que conquistou o mundo (e enriqueceu produtores de máscaras de Dalí)
"La Casa de Papel" que conquistou o mundo (e enriqueceu produtores de máscaras de Dalí)
Ver artigo

A única vantagem de ver uma série em maratona limita-se a poder dizer nas redes sociais que já a viu, enquanto percorre o catálogo com uma velocidade frenética à procura da próxima para "mastigar". As chances de estar realmente atento são reduzidas.

No entanto, não deixa de ser curioso que as mesmas pessoas que se atiram a sessões de binge watching que envolvam mais de duas temporadas com 12 episódios cada, são as mesmas que se queixam que filmes como "O Irlandês" são muito longos e que, por isso, só podem ser vistos por partes. Isto diz muito do tipo de público em que nos tornámos.

Newsletter

A MAGG é uma revista digital pensada para mulheres e focada nas preocupações centrais da vida de cada uma. Falamos de tudo o que está a acontecer de forma descontraída mas rigorosa.
Subscrever

Notificações

A MAGG é uma revista digital pensada para mulheres e focada nas preocupações centrais da vida de cada uma. Falamos de tudo o que está a acontecer de forma descontraída mas rigorosa.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.