Há uns meses, penso que num sábado de manhã, estava tranquilamente a tomar o pequeno-almoço com a minha família quando recebo uma notificação no telemóvel. Olhei, e era um amigo a enviar-me uma notícia que tinha acabado de sair numa revista lida por milhões de pessoas onde era contada uma mentira grosseira sobre mim e sobre a minha namorada, mas supostamente dita em forma de "piada".

A coisa era ainda mais grave, porque a frase tinha sido dita num palco perante uma plateia de mais de cinco mil pessoas e era agora exposta na internet, através de um vídeo, perante milhões de outras pessoas. Muitos outros ingredientes agravaram tudo isto: a suposta história metia ao barulho o nome de um dos meus filhos, tinha contornos eróticos de gosto muito duvidoso e era absolutamente humilhante para a minha namorada.

Pior ainda: o que era ali dito, por uma pessoa altamente poderosa e influente na sociedade portuguesa, tinha tudo para criar gravíssimos problemas não só emocionais como profissionais e sociais à minha namorada, já que aquela "notícia" iria seguramente espalhar-se na internet e ser lida (das mais variadas formas, com as mais variadas interpretações) por centenas de milhares de pessoas.

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Assim que vi aquilo, abri o Google e fiz uma pesquisa para perceber se a notícia era um exclusivo daquela publicação ou se já estaria noutras. Claro que estava. Era trend no Twitter e já havia sido replicada em diversos outros órgãos de comunicação social. Chegou, inclusive, às páginas (em papel) do "Correio da Manhã".

Na base desta história, ou suposta "piada", repito, estava uma mentira. Perante a indignação, o desespero, a vergonha que imediatamente invadiu a minha namorada, não podia fazer outra coisa que enviar uma mensagem à autora da suposta "piada" e pedir-lhe para, no imediato, desmentir o que havia dito, porque a história, tal como ela a contou, e tal como se podia ouvir no vídeo, era falsa e estava a causar danos gravíssimos na vítima dessa tal "piada". Foi o que fiz. Imediatamente, enviei-lhe uma mensagem que dizia algo como: "Peço-te, por favor, para desmentires a história que está a circular, que já está em várias notícias de revistas, e que está a causar danos muito sérios na minha namorada".

Qualquer pessoa de bem, que não fosse mal intencionada, e que tivesse tido como único intuito fazer uma piada inocente, perante aquela mensagem, teria tido um laivo de consciência e entendido que estava a prejudicar seriamente a imagem e a saúde mental de outra pessoa. E, assim, teria tido a humildade e a humanidade de reconhecer o erro e tentar, de alguma forma, minimizar o impacto que a sua ação estava a ter na vida de outra pessoa. Foi honestamente o que achei que iria acontecer. Estava enganado.

A resposta que obtive do outro lado foi algo como: "Oi? Desmentir a história? Aquilo era uma piada. Desde quando é que os humoristas agora desmentem piadas? E desde quando é que os humoristas fazem humor com histórias que são sempre verdade. Seria ridículo desmentir isso".

Insisti, de variadíssimas formas. Tentei a abordagem didática, explicando que a esmagadora maioria das pessoas não iria ler mais do que um título, e esse título era mentiroso e devastador para a minha imagem e sobretudo para a imagem da minha namorada. Não resultou. Tentei a abordagem humilde, de pedir, por favor, para pelo menos esclarecer a comunidade dela sobre o teor daquela história, que já estava em quase todas as revistas e jornais deste país, e a vitalizar nas redes sociais. Só pedi um story a dizer: "Aquilo era uma piada. O que eu disse não é verdade". Uma vez mais, a resposta foi uma recusa, sempre com o mesmo tipo de argumento, de que os humoristas não têm de se justificar, nem pedir desculpas, porque só fazem piadas.

Foram seguramente horas de trocas de mensagens numa tentativa de convencer aquela pessoa a perder cinco segundos do seu tempo para tentar corrigir uma situação por ela causada e que estava a destruir por completo outra pessoa. Não tive sucesso. Até hoje, e mesmo consciente do fortíssimo impacto negativo que aquela história teve na carreira, na vida social e sobretudo na saúde mental de outra pessoa, ela foi incapaz de se pronunciar sobre o tema.

Eu percebo bem a sensação de revolta que nasceu dentro do peito do Will Smith no momento em que percebeu (demorou uns segundos) o alcance da piada do Chris Rock. Acredito que o que o fez saltar da cadeira e subir ao palco para dar um tabefe no humorista foi a expressão da sua mulher, visivelmente incomodada e agastada com a piada (que naturalmente eu não sinto como sendo assim tão grave, mas também não me era dirigida, por isso não posso nem quero julgar aquilo que os outros sentem).

Não sou por natureza violento, nunca resolvi nada na vida com estalos, e na verdade o alvo direto daquela história nem sequer era eu (embora fosse um alvo indireto). Restou-me aquilo que podia fazer na altura: apoiar a vítima, tranquilizá-la, isolá-la da toxicidade das redes sociais nos dias seguintes, aconselhá-la a reforçar a terapia, procurar mais ajuda e pontos de equilíbrio para superar a situação.

Esta situação foi só a gota de água num processo continuado de uma agressão psicológica continuada que se havia iniciado meses antes. Sempre em formato de historietas, revelações, piadas, brincadeiras, que foram causando enorme dano emocional, psicológico e muitas vezes profissional. À conta destas "piadas", uma pessoa teve de meter baixa prolongada, mudar de departamento na empresa para tentar minimizar a vergonha social, reforçar as consultas de apoio à saúde mental, passou por períodos muito próximos de uma depressão, e vi-a em estados emocionais muito débeis, frágeis, que me obrigaram a um apoio continuado. Do outro lado, do lado de quem fez "apenas" piadas, tudo na maior, glória, espetáculo, fama, aplauso social.

Um estalo à Will Smith não iria resolver nada, como no caso dele não resolveu. A única forma de não deixar uma situação destas impune é seguir a via que resta, a correta, aquela a que um cidadão comum, anónimo, que não tem o poder das estrelas do humor, pode recorrer: os tribunais. Será a Justiça a decidir se uma hipotética gargalhada de cinco segundos de três ou quatro mil pessoas é mais importante do que a saúde mental, o trabalho e a vida de outra pessoa. Será a Justiça a decidir se a liberdade de expressão é válida em qualquer circunstância, mesmo quando a usamos para humilhar, ofender, prejudicar e magoar outra pessoa de forma deliberada e com consequência óbvias e diretas no estado emocional e psicológico de uma pessoa inocente, que não concordou em participar daquela história. Será a Justiça a decidir se o humor é uma entidade que vive à parte da sociedade e sobre a qual não incidem as leis que regem todas as outras áreas de uma sociedade que vive num Estado de Direito.

Do caso Will Smith versus Chris Rock resta uma última discussão: a da legitimidade da violência. “Ah, o Will Smith até podia ter razão, mas não podia ter feito aquilo. A violência não é admissível”. É mais ou menos este o tom de grande parte das pessoas. Certo. A violência não é admissível. Nenhuma das violências, nem a física, nem a emocional/psicológica. Porque é que continuamos a achar que uma é muito mais grave do que a outra? Pela mesma razão que achamos que comer um cão é uma coisa inaceitável e comer um porco é a coisa mais normal do mundo: o poder do costume social.

Aprendemos, socialmente, que bater é errado, e não conseguimos desbloquear o cérebro e sair dessa maneira de ver o mundo. Bater é tão errado como agredir emocionalmente. Até porque a agressão verbal, psicológica, pode doer muito mais do que a agressão física. A humilhação que resulta de uma agressão emocional pode ter traumas muito mais sérios do que a humilhação que resulta de uma agressão física. Por isso, é importante que se tentem erguer aqui barreiras de decência ou patamares diferentes para a agressão: agredir é um crime, seja com palavras ou com a mão. E o valor é o mesmo.

Este é um tema que se sente que, aos poucos, começa a incomodar verdadeiramente a comunidade dos humoristas, que durante anos se sentiram no tal mundo com uma lei muito própria que lhes permite tudo. Os roasts, um formato em que as pessoas se insultam e humilham umas às outras, em palco, cara a cara, é um exemplo disso. O roast quer mostrar que não há mal nenhum em brincar com qualquer assunto e que temos é de ter capacidade de nos rirmos de nós mesmos. Certíssimo. Mas quem participa num roast fá-lo voluntariamente e já sabe ao que vai: está ali para gozar e ser gozado. As regras estão definidas à partida e são aceites por todos. Quer dizer, mais ou menos. Já estive nos bastidores de alguns roasts e sei que não é exatamente assim como se quer vender a coisa. Os próprios intervenientes dos roasts fazem uma pequenina lista negra de tópicos sobre os quais preferiam que não se fizessem piadas. Ou seja, aquela coisa de que vale tudo, nem sequer isso é inteiramente verdade ou como querem fazer passar.

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Recentemente, Bruno Nogueira lançou o programa "Tabu", na SIC, uma vez mais para tentar provar que se pode fazer humor com tudo, sem que as pessoas se ofendam. É a mesma lógica do roast: não há nenhum problema em fazer uma piada com o Fernando Manuel que tem cancro, se o Fernando Manuel souber que vão fazer essa piada, aceitar que a vão fazer e aceitar fazer parte de um espetáculo em que vão gozar com ele e com a doença dele. Isso é liberdade individual. Agora se o Fernando Manuel estiver tranquilamente sentado no sofá de casa e de repente vir que estão milhares de pessoas a gozar com ele por ele ter cancro e ele não sabia que isso ia acontecer, então, não, não é aceitável, tolerável nem passível de ser normalizado e aceite como "liberdade de expressão". É só bullying, humilhação.

Estamos num momento é que é fundamental que se reflita muito a sério sobre a forma como temos de adaptar os nossos comportamentos numa sociedade plural onde todos temos o direito de sermos o que quisermos ser sem medo de sermos humilhados, alvos de chacota social, seja por usarmos o cabelo verde, pesarmos 220 quilos, sermos bissexuais, não-binários ou gostarmos de ouvir Tony Carreira. A aceitação não nos deve servir só quando nos queremos promover e criar uma imagem de que somos guias de moral e bons costumes. Aceitar pode custar, certo, mas dói menos. Não é?

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