Ontem, quando enchia o frasco com o detergente multiusos que fiz a partir de cascas de laranjas percebi que a redução do desperdício é, para mim, o equivalente a um eu com 5 anos estar à frente de uma mesa cheia de plasticina e legos. Aquelas engenhocas mentais que faço entre juntar o bicarbonato às cascas de fruta são a minha meditação. Ou o meu crochê, para quem sempre usou agulhas e umas quantas linhas para desligar a mente do que não interessa assim tanto.

Não pensem que sou super croma e que o meu cérebro funciona em peças de encaixe tipo Tetris. Zero. Nas cartas só sei jogar ao peixinho, não sei fazer contas à mão com mais de dois dígitos (e com um...bom, adiante) e quando uma receita pede 2/3 de chávena de farinha, quase que sinto o barulho das roldanas enferrujadas de uma máquina fabril, mas no meu cérebro.

Agora, imaginação, amigos, nisso já não me apanham na curva.

Com cinco anos tinha pesadelos que, se fosse hoje, davam direito a muitas horas de psicanálise. Já matei a minha mãe numa máquina de cortar fiambre, a minha tia foi electrocutada, uma amiga acabou morta na mala de um carro e o meu irmão, esse, coitado, já morreu tantas vezes que daria um spin off desta série de terror.

Mais tarde fiz do meu esquentador o Zordon dos Power Rangers — 90's kids will understand —, dava voltas ao jardim com o lanche na mão porque, na minha cabeça, aquilo equivalia a uma caminhada gigante e aquele pão com marmelada era um piquenique, daqueles que via nos filmes.

Não apontem o dedo, isso é feio. E já todos saímos "só para apanhar ar"
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A coisa continua. O meu primo, que tem Trissomia 21, para mim estava era a fingir. Então, escondia-me atrás da porta quando ele estava sozinho na esperança de um dia o ouvir falar com os outros habitantes do planeta de onde eu imaginava que ele vinha. Nunca o consegui apanhar.

Também acreditei que colar um DOT no ecrã me daria dinheiro e, acho que desses engodos todos, só não cheguei a comer flores para que me aparecesse o Jorge Tadeu. Mas conheço quem o tenha feito, o que me diz que não estou sozinha nisto da imaginação fértil.

Lembro-me de questionar a minha catequistas com coisas para as quais ela não estava preparada para responder e de, um dia, perguntar à minha mãe se isto que estávamos a viver não seria um sonho. Não no sentido lírico da palavra, mas mesmo um sonho de quando estamos a dormir. "Se quando dormimos sonhamos com outras realidades, quer dizer que isto agora pode ser também um sonho que alguém está a ter, não é mãe?". Pousou-me no chão, mandou-me brincar e creio que terá ligado ao pediatra. "Tinhas com cada saída", diz-me agora.

E esta semana dei por mim a engendrar mais um plano mental. Daqueles com teoria da conspiração, como eu gosto.

Não digo que estes últimos dois meses estejam a ser um sonho que eu estou a ter e no qual imagino esta realidade. Não há imaginação que supere isto.

Mas e se — acompanhem-me por favor — isto tudo tiver começado com dois amigos, imagino-os sempre americanos, adolescentes e até um bocado parvos — sem ofensa — que num dia de tédio em casa e talvez depois de terem fumado uma ganza pensaram, "e se fingíssemos que anda aí um vírus mortal?". Um lança a proposta, o outro ri-se, a coisa escala. Um deles lança um tweet a dizer que a prima morreu de um vírus ainda desconhecido mas que se passa de forma semelhante ao da gripe. A crush dele partilha, os colegas de turma também. A coisa escala para toda a escola, respetivas famílias e, entre posts nas redes sociais, muitos "ouvi dizer" e algumas mortes no entretanto porque, não sei se lembram mas ainda se morre doutras coisas, a coisa torna-se viral.

E os dois amigos, no quarto, a rirem-se depois de outra ganza, ao verem as pessoas a andar de máscara, de viseira e de luvas na luta contra um vírus inventado dentro daquelas quatro paredes cheias de posters dos Green Day. Sim, o meu conceito de adolescência permanece fechado na década de 90.

Ser sustentável não é só usar saco de pano. E foi preciso uma pandemia para mostrar isso
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Na minha cabeça, tudo isto foi partiu de uma coisa sem importância e que fugiu ao controlo de quem a criou. Um bocado à semelhança daquela festa de aniversário em que o convite no Facebook foi partilhado de forma pública e, de repente, a casa enche-se de mais de mil pessoas. Ou como o caso da Janet Cooke, a jornalista que inventou uma personagem para uma reportagem sem saber que aquele texto lhe ia valer um Pulitzer, mais tarde retirado, claro. Se calhar pensou apenas, "Eh pa, ninguém nunca vai saber que este Jimmy de oito anos e viciado em heroína não existe. Se calhar até passa despercebido". Pumba, primeira página. Pumba, prémios de jornalismo.

O mesmo para estes dois amigos, que só se queriam divertir durante a moca e, de repente, viram esse momento escapar-se-lhes. Eu sei que há testes médicos, vacinas em laboratório e muitas mortes, mas não me estraguem já a brincadeira, ok?

É que só mesmo desta forma consigo às vezes rir-me de tudo isto que vivemos. Se na passagem de ano, entre uma passa e um copo de champanhe, te dissessem que este ano ias andar de máscara como até aqui só os chineses faziam, que não ias poder deitar-te na praia a apanhar sol, que não ias poder ir ao funeral do teu avô, nem comemorar o aniversário com uma festa ou pegar ao colo o bebé da tua amiga que acabou de nascer, acreditavas? Pois, eu também não. Por isso, deixem-me usar a imaginação e esperar que os dois amigos idiotas venham a público assumir a brincadeira. Pode ser que aí o criador do DOT assuma que colar aquele autocolante na televisão afinal não me dava prémio nenhum, ou então que o Jorge Tadeu tarda mas não falha e vai aparecer como a salvação deste 2020.

Pronto, já vou tomar os comprimidos.

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