Calma e gratidão são as palavras que melhor descrevem o segundo dia nos Açores. Escrevo a segunda parte do diário de bordo à noite, deitada na cama, já em Santa Maria, no hotel com o mesmo nome da ilha. Foi o primeiro hotel da ilha (a partir de 53,50€ por noite) e é o único que está aberto devido à pandemia de COVID-19, que fez diminuir a atividade turística e, consequentemente, levou ao fecho dos hotéis, como aconteceu no continente.

Nos Açores. Não fomos ao mar, mas podíamos nadar neste ovo escalfado com queijo da ilha
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Por coincidência, tal como na chegada a São Miguel, também aterrei perto da hora do jantar — a isto se chama escolher bem as horas de chegada. Eu e dois colegas jornalistas fomos recebidos por Laurinda Sousa, guia da agência Melo, que mal nos viu disse “não está fácil”. E não estava mesmo. Da saída do aeroporto para o carro, além de ser difícil andar tal não era o vento, mal conseguia ver alguma coisa à frente com o cabelo à frente dos olhos. Senhoras, isto não é uma ilha para cabelos penteados, esticados, impecáveis. É melhor renderem-se ao primeiro minuto — e em relação a tudo. Quanto menos planos fizerem numa visita à ilha, melhor. Ao acordar pode estar a fazer sol, de seguida chove torrencialmente e está tudo bem. Aliás, está perfeito. Mas já lá vamos.

Do aeroporto, na freguesia de Aeroporto, até ao restaurante, conheci a história desta ilha. Tem profundas marcas da influência dos militares americanos que instalaram uma base aérea em Santa Maria durante a II Guerra Mundial. Ficaram vestígios da antiga base no aeroporto, algumas casas antigas e, entre outras estruturas, o posto de controlo fronteiriço que hoje é uma rotunda à qual os populares chamam de “açucareiro” devido à forma peculiar que lembra um pote de açúcar.

Rotunda
créditos: MAGG

É, no fundo, uma América dentro de uma ilha. A melhor forma de saber tudo sobre este passado militar na época em que Salazar ainda estava no poder, é fazer o roteiro do Aeroporto de Santa Maria (gratuito) através de um código QR que nos leva a passar por 21 pontos de interesse e em cada um deles dá-nos acesso a um audioguia para perceber a história dos edifícios e zonas edificadas.

Voltando ao “açucareiro”, para quem vem do aeroporto, é o ponto de partida para os vários pontos da ilha, permitindo antever que esta vai ser uma viagem doce em gastronomia e emoções. Uma delas foi logo ao chegar a Vila do Porto. Senti-me de regresso à infância, quando visitei o Portugal dos Pequeninos, em Coimbra, vestida com um colete de carneira e movida a inocência. O colete já lá vai, mas ao entrar em Vila do Porto senti a inocência de outros tempos, apeteceu-me brincar e entrar naquelas casas simples, de paredes brancas e altura reduzida.

Já que os americanos deixaram por cá uma marca, parámos no Central Pub, na freguesia Vila do Porto, onde os aros de cebola frita (4,50€) são obrigatórios para entrada, mas ninguém diz que não a um pão de alho e queijo (2,25€) — pelo menos eu não disse. E se a carta junta América e Itália, incluindo as famosas pizzas desde a polémica de ananás (7€) à local com alheira mariense (8,50€), porque não juntar Portugal? Eu escolhi umas lulinhas grelhadas (11,50€), como também podia ter sido um bacalhau à Brás (9€). Do brownie com gelado e chantilly (3,50€) que veio para a mesa, já não rezou história.

De volta ao quarto, simples e antigo, apesar de uma remodelação recente, reparo num pormenor: entre os amenities há uma esponja de sapatos. Antiquado? Não. Desnecessário? De todo. É genial. É que com a chuva que faz na ilha, estas botas pretas chegam ao fim do dia a suplicar por uma pinga de água, um paninho, melhor, uma esponja e esta está mesmo à mão.

Açores
créditos: MAGG

Santa Maria tem 97 quilómetros quadrados de superfície e apesar de ser a terceira ilha mais pequena do arquipélago dos Açores, há muito para ver e absorver.  Sabiam que é a mais antiga dos Açores em termos de formação geológica? E que foi a primeira a ser descoberta e povoada? Mais! Que a Coca Cola chegou primeiro a Santa Maria, em meados dos anos 40, do que a Lisboa? Pumba!, lisboetas, vai na volta foi assim que surgiu o clássico “só temos Pepsi, pode ser?”.

Mas o verdadeiro mistério é que Santa Maria "nasceu duas vezes" (inserir emoji de cabeça a explodir de choque). Houve uma primeira ilha que emergiu, depois desapareceu e ficou submersa e mais tarde voltou a emergir. Quem nos explicou e mostrou foi Joana Pombo Tavares, guia da Casa dos Fósseis e neta de Dalberto Pombo, que humildemente durante toda a visita nunca disse uma palavra sobre as suas raízes.

Açores
créditos: MAGG

Dalberto deu um grande contributo para melhor conhecer a fauna e flora da ilha, descobrindo até que não são só os seres humanos que vêm de longe e querem ficar na ilha. O avô de Joana descobriu que as tartarugas que nasciam na Florida vinham por mar para Santa Maria, aqui ficavam dez a 15 anos, cresciam e regressavam à costa americana onde ficam mais dez a 15 anos até atingir a maturidade sexual e fechar o seu ciclo de vida.

Açores
créditos: MAGG

A visita ao museu é o ponto chave para conhecer Santa Maria, que exige, primeiro, uma parte teórica explicativa e, só em segundo, podemos explorar na prática. Foi no museu que percebemos que a ilha foi formada em duas fases dando origem a “um bolo por camadas” no qual dá para distinguir os eventos vulcânicos, disse Joana. Eu não disse que isto ia ser doce?  Santa Maria já foi conhecida como ilha do sol, mas a designação deixou de fazer sentido porque não é (sempre) assim e são mais as vezes em que o tempo é instável. Por isso, em vez de ilha do sol é antes uma ilha de natureza, onde tudo é imprevisivelmente belo. É aqui que entra o “perfeito” que falava mais atrás.

A primeira prova disso foi o facto de o plano da viagem ter mudado de plano a) para plano c). Mas nada nos impediu de subir até ao Pico Alto — a melhor forma é ir de carro, que pode alugar, por exemplo, na empresa Ilha Verde — enquanto o tempo dava tréguas. Até chegar lá acima, cada degrau era uma nova descoberta. Eis uma uva da serra, planta endêmica (exclusiva) dos Açores, depois uma conteira, planta invasora e cheia de fibra que existe em abundância nos Açores e que devido às suas características está ser estudada para substituir o plástico em algumas utilizações.

Será a planta do futuro da sustentabilidade? Teremos que aguardar, mas é um sinal de que os Açores, único arquipélago no mundo distinguido como destino turístico sustentável em dezembro de 2019, estão um passo mais à frente. Ao chegar lá a cima, poucas palavras conseguem descrever a paisagem, mas três coisas trago: o cheiro da natureza em estado puro, vontade de tocar na vegetação que se acumula na zona montanhosa da freguesia de Santa Bárbara — também conhecida como Presépio ou Sol Nascente, por ser aqui que nasce o sol —, e nós no cabelo, tantos que é melhor ignorar.

Açores
créditos: MAGG

Na descida do Pico Alto para São Lourenço, já perto das 13 horas, hora a que Laurinda avisou que ia chover, encontrámos minutos antes Oliver Handler, caminhante e guia de trilhos.  Já tinha ouvido falar do Oliver, já o admirava e ansiava poder falar com ele e finalmente surgira oportunidade. Mal parámos o carro quis convidá-lo para entrar, dar-lhe um abrigo, mas sabia que não era isso que ele queria. O Oliver tinha uma missão: terminar o percurso do trilho Grande Rota.

Sozinho, começou em Vila do Porto e durante cinco dias e oitenta quilómetros, o seu objetivo é dar a volta à ilha passando por todas as adversidades — desde o vento à chuva, a mais odiada por Oliver — e com objetivo diário de chegar a um ponto de conforto, os abrigos de apoio criados pelo projeto Ilha a Pé. “Ontem tive uma sopinha de peixe muito boa. E há sempre vinho”, disse e acrescentou: “Hoje vamos ver o que me espera”, “acho que vou ter uma cerveja”. Consigo levava uma mochila para todas as eventualidades, como a chuva programada para as 13 horas que caiu com pontualidade britânica, e fazia-se acompanhar de uma cana, já fissurada, que apanhou logo no início da viagem. “Já me salvou de algumas quedas. Vai comigo até ao final”, disse enquanto eu o admirava da janela do carro. Oliver é uma força da natureza dentro da própria natureza dos Açores. Estão um para e com o outro.

Açores
créditos: MAGG

Depois do feliz encontro com Oliver, continuamos a descer e fomos dar ao Miradouro do Espigão, ponto obrigatório para apreciar a paisagem. Pode parecer que não é nada demais ou diferente do que foi visto no Pico do Alto, mas há sempre pormenores que saltam à vista. Veem-se as nuvens a correr, o tempo a passar, embora aqui o tempo não seja uma maratona, é para viver devagar. Uma forma de o fazer é aproveitar para fazer um piquenique no Parque das Fontainhas, uma reserva florestal.

Comer, olhar e agradecer

Descer para a Baia de São Lourenço mete respeito pela estrada íngreme e é de respeitar a vista que a ilha nos oferece, largando telemóveis ou quaisquer distrações. Do alto vê-se a encosta e a baia, onde o mar batia forte e o azul estava cristalino pelo raios de sol que caiam sobre a água. Contudo, os raios depressa desapareceram para dar lugar a chuva intensa durante alguns minutos. Bastou abrir a porta do carro para seguir para o restaurante do almoço.

Nos Açores é assim: não há monotonia. Não é uma ilha de quem gosta de tudo garantido (embora o website spot azores dê uma ajudinha). Porque depois desta chuva regressou o sol, depois novamente chuva e assim sucessivamente. E nem uma reclamação sobre o tempo se ouviu durante estas variações. Acima de tudo, gratidão pelo privilégio de poder assistir a este espetáculo natural enquanto degustávamos os pratos do Ponta Negra. Aqui a especialidade é, para entrada, bondade. Fomos recebidos por Ana Batista, funcionária do restaurante desde o verão passado, trabalho que assumiu com paixão depois de ter regressado para as suas origens, Santa Maria, após vários anos em França.

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O encontro com Ana e o fenómeno a que estávamos a assistir lá fora foi o culminar de sucessivos encontros com gente genuína na ilha. Mas vou deixar-me de sentidos figurados e passar ao que interessa: a comida. Na entrada, ovos com alheira e um pão da vila para acompanhar o queijo de vaca “fresquinho de hoje”, anunciou Ana, com um toque da famosa pimenta da terra.

De seguida, veio um cherne (16€) fenomenal e para o fim uma invenção de Ana. Uma vez que tinha bananas a mais, sugeriu a Pedro, gerente do restaurante, que servissem de sobremesa numa versão flameada com a banana. Não é que juntaram rum e gelado de caramelo e foi um sucesso? Por falar nisso, outro dos pratos célebres da carta é o bitoque de atum (13€). “Isso foi por causa do Lucas, namorado da filha do Pedro. Apetecia-lhe um bitoque, mas não lhe apetecia carne. E eu perguntei ‘porque não de atum?’ Ficou bom e ficou”, contou Ana.

Açores
Banana flameada créditos: MAGG

Depois deste encontro, seguimos viagem: o próximo destino foi o Museu de Santa Maria (visita 1€ adultos e 0,50€ crianças). Depois de beber a natureza, fomos beber da cultura da gente da terra. Aqui percebi que Lisboa está para os Santos Populares como as Festas do Espírito Santo estão para Santa Maria.

A festa, sem data prevista, centra-se no Império do Divino Espírito Santo e é realizada conforme as promessas que são feitas por locais ou não. Pode ser algo relacionado com saúde, com o trabalho e muitas são de emigrantes, e a paga é, no fundo, solidariedade. Toda a comunidade tem direito, gratuitamente, a sopa de pão com caldo de carne de vaca posta a cozer no dia anterior em grandes panelas de ferro. Tudo isto era regado com vinho de cheiro numa altura que não havia cá COVID-19. “Lembro-me de ser criança, os impérios andarem por aí e beberem todos do mesmo copo”, diz Jéssica Carvalho.

Para rematar a gastronomia, finalmente comi atum dos Açores ao jantar no restaurante DuFogo. E valeu bem a pena.

Uma ilha de empreendedores

Enquanto nos apresentava a Nossa, uma marca de cerveja artesanal e única em Santa Miguel, Marc Oliver, alemão que se instalou na ilha em 1992, estava ansioso que provássemos aquilo que faz com tanto orgulho. Enquanto alemão, o bichinho pela cerveja vem desde sempre e até chegou a tirar um curso na área.

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Um dia, questionou-se porque é que não havia cerveja artesanal na ilha e, logo de seguida, porque é que não criava ele a sua própria cerveja. “Consigo matar saudades da minha terra natal, de Munique, quando passamos lá o cheiro das fábricas que produzem cerveja é muito presente. E como estou a trabalhar na restauração, a cerveja diferente é muito cara para importar e vender e consigo fazer um produto mais barato, com mais qualidade e um produto local aqui da ilha”, diz à MAGG o também proprietário d’A Travessa snack bar e do Beach Park junto à praia.

Com um empurrão da Incubadora — uma empresa que dá oportunidade, espaços de trabalho e condições para pequenos empreendedores de Santa Maria lançarem os seus projetos — depois de várias experiências bem sucedidas Marc lançou-se no mercado com a primeira cerveja de trigo em Santa Maria, a única ilha onde, para já é vendida: pode encontrá-la nos dois estabelecimentos que detém (garrafas pequenas 3€, grandes a 4,50€).

Açores
créditos: MAGG

Em garrafa tem oito variedades — desde a de maracujá à preta Dark Vienna Larger — e por vontade de Marc provávamos todas, mesmo sabendo que a percentagem de álcool de algumas pode ultrapassar os 8%.

Não caímos nessa, Marc. Mas lá provámos, começando pela de aroma a maracujá e é mesmo só aroma. Todo o sabor intenso de uma cerveja artesanal estava lá e o cheiro não era a fruta mas sim a caramelo. Até na cerveja esta ilha se mostra doce. Segundo Marc, estas cervejas “dão fome” e eu não fui de cerimónias e ataquei o pão da Cagarrita, ou melhor, Rosa, que se juntou a Marc para aproveitar o malta que sobra da cerveja e assim criaram um pão de malte, farinhas integrais e sementes cozido a forno de lenha — que, já se diz na minha terra, é tão bom que se come mesmo como “pão com dentes”, sem mais nada.

A história de Rosa começou pelo pão, com apenas 9 anos, no dia em que teve de fazer sozinha um pão para a família e que, segundo a mesma, mal o pai provou disse para a mulher: “Maria, temos mulher. Foi o melhor pão que fiz até hoje”. A vida continuou a levá-la pelo mundo da cozinha, tendo passado de Santa Maria para a Madeira e depois Lisboa, mas regressou a Santa Maria para criar o seu próprio negócio também com ajuda da Incubadora. Começou pelo mais tradicional, biscoito de orelha (3€), e daí até aos fósseis doces (3,75€) feitos com mel em vez de açúcar para corresponder às necessidades de hoje em dia. “Estes são uma homenagem aos nossos fosseis e tem até um memorando”, diz Rosa, acrescentando que é “uma bolacha que qualquer pessoa pode comer”.

Igualmente empenhado em tornar a vida dos marienses mais saudáveis, Daniel Filipe Andrade criou o projeto Cantinho das Aromáticas que conta com cerca de 30 produtos desde aromáticas a legumes frescos e prontos a comer das suas estufas. Aqui a novidade é mesmo essa: para os mais apressados ou preguiçosos da ilha, nada como produtos já prontos e de qualidade já que são cultivados, colhidos por Daniel e embalados com a ajuda da Incubadora para chegar de forma mais prática aos locais. “Isto começou porque cá não há aromáticas e também nao havia nenhuma empresa com produtos prontos a consumir”, explica Daniel.

Açores
créditos: MAGG

*A MAGG viajou a convite da Associação do Turismo dos Açores para a promoção da campanha "Açores, Seguro por Natureza".

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