Esta segunda-feira, 19 de setembro, a atriz brasileira Cláudia Raia anunciou estar à espera do terceiro filho. Aos 55 anos, a artista contou tudo sobre a forma como descobriu a gravidez nas suas redes sociais, e deu a entender que esta aconteceu de forma natural. Para além da partilha ter sido patrocinada por uma marca de testes de gravidez — ou seja, paga —, a polémica estourou quando uma jornalista acusou a atriz de mentir acerca da forma como engravidou.

Polémica no Brasil. Cláudia Raia terá mentido sobre a gravidez aos 55 anos (e vendeu o anúncio a uma marca)
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Cristiane Gersina da Silva assinou uma coluna no jornal "Folha de São Paulo" sobre o caso Cláudia Raia, afirmando que "não é possível" que a atriz tenha engravidado de forma natural aos 55 anos, levantando suspeitas sobre se a gestação não terá sido fruto de uma fertlização in vitro (isto depois de numa entrevista em 2020, Raia ter admitido que congelou óvulos).

Na mesma crónica, Cristiane Gersina da Silva disse ainda que é "altamente improvável" que o processo tenha decorrido sem qualquer intervenção, uma ideia reforçada por Fernando Cirurgião, obstetra e diretor do serviço de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital São Francisco Xavier, no que diz respeito a gravidezes naturais acima dos 50 anos.

"A probabilidade de engravidar naturalmente acima dos 50 anos é praticamente nula", diz o especialista à MAGG. "Aliás, mesmo a partir dos 40 anos, estamos a falar de uma probabilidade de um para dez de engravidar espontaneamente. Mesmo uma mulher saudável, com períodos regulares, já tem hipóteses muito baixas."

Fernando Cirurgião é diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital São Francisco Xavier
Fernando Cirurgião é diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital São Francisco Xavier

No entanto, Fernando Cirurgião salienta que "na medicina, não há impossíveis". "Enquanto existirem menstruações, tal significa que há ovulações, mas é claro que a qualidade dos óvulos já está muito comprometida, e estes têm um tempo de vida limitado", explica o diretor do serviço de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital São Francisco Xavier.

As fertilizações in vitro podem ser o caminho para engravidar mais tarde

Apesar de Cláudia Raia nunca ter sido taxativa ao afirmar que engravidou naturalmente, todo o discurso deu a entender isso mesmo — até porque a atriz recordou uma conversa com a sua médica, onde se mostrou muito surpreendida quando a especialista falou na hipótese de esta estar grávida.

Assim, o mais provável é que a artista brasileira tenha recorrido a uma fertilização in vitro (FIV), um método de reprodução medicamente assistido, onde acontece uma união do ovócito com o espermatozoide no laboratório de FIV, a fim de obter embriões já fecundados para transferir para o útero materno, de acordo com informações da IVI, clínica de reprodução assistida.

Esta inseminação dos ovócitos pode ser realizada mediante a técnica de FIV convencional ou da Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides (ICSI), permitindo esta última alcançar a gravidez com êxito em casais diagnosticados com uma má qualidade na amostra de sémen do homem.

Uma FIV pode acontecer com sémen próprio, uma situação indicada em "pacientes que não tenham tido sucesso em tratamentos anteriores mais simples, como a inseminação artificial; mulheres com ausência ou lesão nas trompas, necessárias à fertilização natural ou por inseminação artificial; mulheres com endometriose avançada, com provável repercussão nas trompas e na qualidade ovocitária; e em situações nas quais dispomos de um número limitado de ovócitos", de acordo com dados cedidos pela IVI, com clínicas em Lisboa e Porto.

No entanto, este processo também pode acontecer com sémen de dador no caso de "mulheres solteiras ou casais de mulheres; fator masculino severo, com má qualidade espermática; fracasso anterior de fertilização com espermatozoides próprios; má qualidade embrionária ou fracasso de implantação repetido em que se suspeite de um fator masculino como causa principal; ou ainda no caso de homens portadores de uma doença genética que não pode ser estudada nos embriões".

Catarina Godinho
Catarina Godinho, médica ginecologista e especialista em Medicina da Reprodução

Catarina Godinho, médica ginecologista e especialista em Medicina da Reprodução, reforça à MAGG que a "doação de gâmetas, ovócitos ou espermatozoides está indicada quando a gravidez num casal não é possível com os próprios gâmetas".

Até que idade é possível recorrer a uma FIV no Serviço Nacional de Saúde?

Em Portugal, existem duas respostas no que diz respeito ao limite de idade para tentar uma fertilização in vitro, e tudo depende se o pretende fazer através do setor público ou privado. Mas, com os custos elevados destes processos no privado, o cenário não é muito animador para quem pretende recorrer ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), principalmente nos tempos que correm, em que a maternidade acontece cada vez mais tarde, muitas vezes apenas depois de se atingir segurança financeira e profissional.

Caso queira recorrer a uma FIV no público, através do SNS, o limite máximo é os 40 anos, mas a resposta não é tão taxativa assim, dado que têm de se ter em conta os tempos de espera para o processo avançar no setor público.

"Durante a pandemia, e devido à suspensão de muitos serviços, houve um período em que existiu uma maior permissão e continuaram com processos já depois dos 40 anos, isto em casais que já estavam em lista de espera", explica Fernando Cirurgião. No entanto, e agora que esse período já faz parte do passado, o especialista reforça que as regras ditam que são os 40 anos a idade máxima para uma mulher efetuar uma FIV através do SNS, mas esse número diz respeito ao processo de fertilização propriamente dito.

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"Quando uma mulher tem uma indicação de FIV aos 39 anos, a idade já não lhe vai permitir seguir com o processo, dado que temos de contabilizar o tempo de espera desde que se inscreve até ao procedimento acontecer, e isto pode demorar mais de um ano, dois anos até. Aliás, a partir do momento da inscrição até chegar à primeira consulta, podem passar meses", diz o diretor do serviço de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital São Francisco Xavier.

Fernando Cirurgião explica que tudo se deve à escassez de centros públicos para fertilizações in vitro em Portugal. "Há muito poucos. Em Lisboa pode ser feito no Hospital de Santa Maria ou na Maternidade Alfredo da Costa, e depois existem mais dois centros, um em Coimbra e outro no Porto", diz o especialista, que salienta também que, através do SNS, existe um limite máximo de três tentativas de fertilização in vitro por cada mulher.

Também é possível no privado — mas há custos associados

Já no setor privado, os tempos de espera são francamente encurtados e existem várias clínicas de reprodução medicamente assistida pelo País, tal como a IVI. No entanto, e tendo esta clínica como exemplo (sendo que a mesma assume no site oficial não serem a opção mais cara em Portugal), os valores de uma FIV rondam os 5.200€, processo que inclui análises hormonais do ciclo e controlos ecográficos, punção e laboratório, cultivo e transferência, entre outros procedimentos necessários.

No privado, e ao contrário do que acontece no público, não existem limites de tentativas ou a bitola dos 40 anos, mas Catarina Godinho, médica ginecologista e especialista em Medicina da Reprodução, reforça que há dados a ter em conta.

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"Não há limite de tentativas que uma mulher possa fazer, mas ao fim de quatro tentativas, se não há sucesso, a probabilidade fica muito limitada", explica à MAGG, e fala também de taxas de sucesso, acrescentando que "uma gravidez anterior por si só [espontaneamente e sem recurso a intervenções médicas] não é fator de melhor prognóstico".

"Os processos são mais bem sucedidos até aos 35 anos, mas é depois dos 40 anos que a taxa de gravidez desce drasticamente, sendo muito difícil uma gestação depois dos 45 anos com ovócitos próprios", conclui a especialista em Medicina da Reprodução.

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