Ponto prévio: Tony Soprano da série "Os Sopranos" ia a uma psiquiatra e não a um psicólogo. Mas queríamos mesmo muito usar esta imagem, porque foram as consultas mais emocionantes que algum dia passaram na televisão.

Fui uma adolescente insuportável. Lidar comigo nesta fase de construção — que se prolongou para lá dos 18 — exigiu um esforço colossal por parte dos meus pais. Com a distância do tempo, isto é-me claro como a água. As conversas de casa não bastavam e é fácil perceber porquê: há pouca distância emocional entre um pai e um filho, há a típica alergia que muitos adolescentes ganham em relação aos pais, há a preocupação de um educador, que nem sempre consegue ser imparcial. A coisa não estava fácil. E um dia, sentadas na mesa da cozinha, a minha mãe pediu-me: "Por favor, vai para um psicólogo."

Naquele momento senti o desespero dela e reconheci a confusão que ia em mim. Aceitei e, gradualmente, abrandei o meu fluxo mental. Foram vários anos a refletir sobre assuntos que estavam guardados debaixo do tapete, assuntos que eu nem sabia que eram assuntos, questões que influenciavam a minha forma de estar. Enquanto o processo decorria, sem saber, estava a dar a volta: dediquei-me ao curso, criei uma rotina saudável, formei-me nos anos em que era suposto, fui imediatamente à procura de trabalho e aqui estou eu hoje.

"Há problema em sugerir a minha psicóloga a uma amiga?"
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Só que isto não é como tomar um antibiótico. Os problemas não passam em três dias e siga para bingo. Os processos são mais demorados, assim como os sinais de melhoria. Por isso, põe-se a questão: quais é que são as manifestações da melhoria que nos permitem reconhecer que aquele investimento está, ou não, a dar frutos? Com a ajuda de uma psicóloga, fomos em busca das respostas.

As pequenas mudanças têm de aparecer

Quando recorremos à psicologia é porque há algum assunto da vida que nos está a perturbar. “Quando as pessoas procuram um terapeuta é porque estão mal. Essencialmente, o que a pessoa quer é sentir-se bem, aprender a manejar sentimentos complicados, perceber-se”, começa por explicar à MAGG a psicóloga Beatriz Matoso.

Por isso, considera, o primeiro sinal de que o trabalho está a resultar reflete-se na mudança. E não tem de ser uma alteração brusca e flagrante que nos diga: “Está feito. Problema resolvido. Foi um prazer, até à próxima.”

São pequenos sinais. “Por exemplo: uma pessoa que esteja deprimida, que no início apareça desleixada e que, de repente, se começa a cuidar mais”, diz. “São mudanças que se notam a partir do exterior.”

No caso dos adolescentes, nota que há jovens que se tornam mais agressivos com os pais — e nem sempre isso é mau. "Os adolescentes que estão na construção da sua identidade, muitas vezes quando começam a trabalhar a compreensão com eles próprios, e da dependência face aos pais, tornam-se mais agressivos. Essa é uma mudança que os pais não toleram e pensam que significa que estão piores. Mas não quer necessariamente dizer isso."

Mas, a longo prazo, aquilo que consultas de psicoterapia devem gerar ao paciente é o aumento do bem-estar. Se isto não acontecer é porque alguma coisa está mal. E a culpa é de quem? Este é um trabalho que se faz a dois, portanto a raiz do problema pode vir de ambos os lados: pode ser o psicólogo a desempenhar mal o seu papel ou pode ser o paciente que não foi capaz de criar as condições necessárias para que aquele trabalho resultasse, por mais que o terapeuta se tenha esforçado.

É que olhar para dentro exige esforço. "Há pessoas com maior capacidade de reflexão, pessoas mais curiosas em relação a si e ao mundo, que ajudam ao desenvolvimento do processo.”

Depois, há outras que não. Aí, o psicólogo tem o dever de lhe dar as tais ferramentas, mas é uma coisa que também vai depender da disponibilidade e esforço do outro. “Não se pode estar à espera que o terapeuta faça o trabalho todo.”

Não é suposto sairmos da consulta pior do que entrámos

Atenção: há consultas que podem deixar o paciente emocionalmente cansado. É que num processo de terapia toca-se em feridas. Escavam-se, desmembram-se e dissecam-se assuntos que nos deixam mais vulneráveis, frente a um problema que até então não tínhamos reconhecido. Mas há muitas de onde se sai com força para enfrentar o cosmos inteiro, de onde se sai mais introspectivo ou admirado com uma qualquer descoberta interior.

Por isso, sair sistematicamente perturbado de um consultório também é um indicador de que o processo não está a correr como o suposto. "Se um paciente sai sempre mal é porque alguma coisa não está bem”, diz. “É porque não está a sentir o apoio do terapeuta, porque não se conseguiu estabelecer empatia, ou porque ele está a fazer um mau trabalho.”

Mas também é suposto sentirmos desconforto

É a tal questão: há feridas que doem, mas que têm de ser tratadas. Portanto, estar numa consulta a conversar como se se estivesse num café, confortavelmente esparramado num sofá, não é bom sinal. Há momentos em que nos sentimos desconfortáveis e tensos. E é mesmo suposto ser assim.

“O paciente tem de ser colocado num local desconfortável. Numa relação íntima e em que as pessoas são autênticas, há questões que podem incomodar, mas que são motores de crescimento.”

Mas não é assim de forma abrutalhada. É com método: "O terapeuta deve criar condições para que as pessoas procurem pensar e entender o que se passa com elas. O essencial numa terapia de caracter analítico é que se criem condições para que isto aconteça.”

O terapeuta não é absolutamente passivo — mas também não é ele que decide por nós

Aquela ideia de um terapeuta que se senta a tirar notas e que só abre a boca para perguntar “e como é que isso o faz sentir” é a que foi criada por Hollywood e não deverá corresponder à realidade. E nem sempre temos os psicólogos a darem diretrizes específicas sobre como é que se resolvem os problemas. Essencialmente, e dependendo do método, o papel destes profissionais passa por ajudar os pacientes a encontrarem as tais ferramentas que permitem desbloquear os sentimentos ou situações que estão encalacrados e a gerar o mal-estar.

"Eu nunca tiro notas durante as sessões. No início é preciso recolher alguns dados, mas se as pessoas chegam em crise, faço isso depois. Procuro sentir aquilo que o outro me está a dizer, o mais profundamente possível. O terapeuta tem de se compenetrar no outro”, considera Beatriz Matoso.

É a partir daí que se pode podem colocar as questões que pretendem ajudar o paciente a desenvolver a sua capacidade de pensar e tomar conta de si. “No fundo, quando alguém procura terapia, é isso que quer: encontrar dentro de si essa capacidade”, diz. “É uma coisa que se vai construindo, através do desenvolvimento do pensamento construtivo que vá ao encontro do seu bem-estar. E isto não acontece milagrosamente.“

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