Quando falamos de voluntariado, a premissa generalizada é que se trata de algo bom. Mas de qualquer tipo? Nem sempre. Para todas as pessoas? Também não. O importante é saber escolher o tipo de voluntariado que melhor se adapta a cada indivíduo e perceber que, se alguém estiver a passar por uma fase menos boa, será sempre útil recorrer primeiro a ajuda especializada antes de achar que apenas o contacto com os outros vai ajudar, explica Catarina Graça, psicóloga e psicoterapeuta na Clínica da Mente.

Nos últimos tempos, a saúde mental tem vindo a ser cada vez mais alvo de debate e a ganhar destaque no panorama nacional e internacional. Também temos a ideia de que fazer voluntariado pode ser vantajoso para melhorar o estado de espírito, mas, como alerta a psicóloga Catarina Graça, o importante é sabermos escolher o tipo de voluntariado que se adapta ao nosso feitio e às nossas necessidades no momento, visto que se assim não for, pode ter o efeito contrário.

Tudo isto "em conformidade com o tratamento de psicoterapia. A pessoa tem de se compreender primeiro a ela própria porque só aí vai perceber o que é dela e o que é dos outros, para que não haja misturas [de emoções]", realça a especialista à MAGG.

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No pós reforma, por exemplo, Catarina Graça refere que pode ser vantajoso para algumas pessoas fazer voluntariado porque, nesta fase da vida, como deixam de ter rotina e um propósito profissional, acabam por cair em depressões. "É uma forma de voltarem a sentir-se úteis e com uma ocupação e um propósito."

"Uma pessoa emocionalmente destabilizada é como uma espécie de esponja"

No caso de pessoas mais jovens, que possam estar a passar por alguma fase menos boa, a especialista alerta que este tipo de ocupação pode ter vários benefícios.

"O voluntariado também pode ajudar a desenvolver alguma empatia, comunicação, sensibilidade e maturidade e ser bom para ajudar as pessoas a integrarem-se no trabalho, por exemplo. Tive um paciente que nunca tinha conseguido trabalhar porque o problema dele era a comunicação e a relação com os outros. O voluntariado, num formato de responsabilidade decrescida, não tem aquele compromisso para com a instituição, mas, ao mesmo tempo, colocou-o num contexto de trabalho e ajudou-o a integrar-se e a desenvolver as suas próprias competências cognitivas."

No fundo, a psicóloga defende que as situações variam muito de pessoa para pessoa e alerta para alguns cuidados a ter. "Uma pessoa emocionalmente destabilizada é como uma espécie de esponja: vai absorvendo a problemática e as realidades dos outro — o que pode ser prejudicial no sentido em que se vai estar numa realidade difícil (por exemplo, um voluntariado num contexto de saúde, em que estamos a lidar com realidades pesadas), pode não ser uma boa escolha e não ajudar a pessoa a sair do seu estado emocional."

Deste modo, Catarina Graça defende que "o voluntariado é positivo na medida em que gere alguma diferença que tenha um propósito de mudança do estado emocional", porque se a pessoa passar a lidar com estados emocionais semelhantes, "se calhar vai-se afundar mais nesse estado que a perturba no momento".

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"Não há um tipo de voluntariado que seja útil para toda a gente, temos mesmo de ver caso a caso" 

Apesar de existirem pessoas que sentem melhorias a nível da saúde mental por perceberem que há outros com o mesmo tipo de problemas — "o que as faz sentir mais compreendidas" —, a especialista alerta para o facto de haver "outro grupo de pessoas que entra demasiado nessa realidade e ao ouvir problemas nos quais nunca tinha pensado, às vezes, passa a tomar também os problemas (como uma espécie de contaminação)".

Quanto ao tipo de voluntariado ideal para cada um, a psicóloga explica que também esta decisão irá depender muito do contexto de vida em que o indivíduo se encontra. "Se estivermos a falar de alguém que vive sozinho, que não tem apoios (...) naturalmente vai precisar de interagir com alguém. Por isso há possibilidade de escolher um voluntariado que não seja de uma realidade muito próxima e que puxe por novas sensações, pelo sentimento de utilidade, empatia e socialização", sugere Catarina Graça.

"Tudo o que possa distrair a pessoa do seu estado emocional atual vai ser extremamente positivo, mas penso que não há um tipo de voluntariado em particular que seja útil para toda a gente, temos mesmo de ver caso a caso", continua, referindo que, por exemplo, uma pessoa que trabalha o dia inteiro em frente ao computador, se calhar verá mais vantagens em fazer um voluntariado com pessoas.

"Do lado oposto, uma pessoa que só lida com pessoas e está com alguma perturbação associada à relação com os outros, se calhar quer um voluntariado sem pessoas". O essencial é, segundo a especialista, se estivermos a passar por algum fase menos boa a nível de saúde mental, saber procurar ajuda médica antes de tomar qualquer decisão.

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