Chegámos à Figueira da Foz antes do meio dia, e poucos minutos passavam da hora certa quando entrámos no restaurante Caipirinha. Este é o nono restaurante a ser visitado pelo chef Ljubomir e nós, como já é habitual, fomos ver que mudanças foram feitas pelo chef do 100 Maneiras — e o que é que já se alterou entretanto.

Logo à entrada, ficámos surpreendidos pelo ambiente sombrio: não havia quase iluminação (algo que não ajuda a tirar umas boas fotografias para os clientes que querem avaliar o restaurante numa das plataformas online), e as paredes azuis escuras também não contribuíam.

A remodelação é o resultado da mudança feita pela equipa do "Pesadelo na Cozinha", mas parece não ter funcionado bem. Mas como viemos também para provar a comida, seguimos caminho até à mesa.

Não é por acaso que na Caipirinha um dos pratos com mais saída é a picanha, mas o frango assado também não fica atrás: "Vêm todos comer frango. São sete frangos a sair aqui já", disse à MAGG o proprietário do restaurante, que já depois de termos comido fez uma pausa para falar connosco, quando viu entrar um grupo de clientes cujos gostos já conhece.

O chef do Caipirinha a preparar o frango assado
Luís Pereira

Verificámos que a ementa mudou, mas mantém inúmeros pratos. No entanto, não são tantos como aqueles que o chef contou. Num comunicado de imprensa enviado às redações, estavam contabilizados 74 pratos, mas João disse-nos que não é bem assim.

"Não eram 70 e tal. Eram 32. Só que ele somou a carta francesa com a portuguesa. Eu fui lá verificar e são 32", contou João entre risos.

Apesar da carta reduzida, e das várias opções de carne e peixe, optámos pela pizza, que antes da passagem do chef Ljubomir já fazia parte da casa e do trabalho feito pelas mãos de Wesley, 31 anos, filho do proprietário do restaurante. Primeiro, veio para a mesa um couvert simples — com pão, azeitonas e patê —, e alguns minutos depois chegou a pizza bolonhesa.

O aspeto estava no ponto, a temperatura nem tanto (algo que achámos estranho, dado que supostamente tinha sido acabada de fazer), e o sabor tornou-se enjoativo ao fim de algum tempo — e de vários pimentos e cebola em excesso.

Não ficámos fãs, mas a mousse de chocolate para sobremesa surpreendeu. Podemos não ser um críticos gastronómicos, mas podemos dizer que de mousses de chocolate percebemos, e esta, além de caseira, era cremosa.

Quando ao preço, achámos um pouco caro para um restaurante que está a tentar cativar os clientes. As pizzas tinham um preço razoável (a que comemos era 6€), mas um simples prego no prato custava 9,50€. No fim da refeição, pedimos para falar com João, proprietário do restaurante há quatro anos depois de vir do Brasil com a família e pegar neste negócio, que naquela altura conseguiu uma pausa no trabalho — que já teve dias melhores.

“Pesadelo na Cozinha”. Tudo o que aconteceu n'A Casa das Francesinhas
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"Não coloquei os óculos para ler direito e quando acabei de assinar estava lá 'Pesadelo na Cozinha' e eu: 'Ai'"

Não foram os vizinhos, nem sequer nenhum dos familiares que trabalham com o João (pelo menos pelo que sabe), que chamaram o programa até à Caipirinha. A própria produção contactou o restaurante e João conta que na altura até achou estranho: "Quando vi o telemóvel, aquilo estava de Lisboa e eu pensei: 'Deve ser alguma coisa'".

Depois de tentarem saber como era o movimento da casa (cerca de 30 almoços e jantares naquela altura), perguntaram se João queria fazer publicidade ao restaurante. Imediatamente disse que não, porque já outra estação de televisão lhe tinha feito uma proposta, onde cobraria dois mil euros.

Aí, tudo ficou ainda mais estranho para João. "Disseram que seria de borla. E eu pensei: 'De borla? Estou a achar estranho porque ninguém faz nada de borla'", conta, mas refere que acabou por aceitar. Seguiu-se então a visita da produção, algumas fotografias, perguntaram o que é que o proprietário queria que fosse mudado, até que chegou ao momento de assinar o contrato.

"Ela deu-me o contrato para assinar. Assinei, e as letras grandes você percebe... Não coloquei os óculos para ler direito e quando acabei de assinar estava lá 'Pesadelo na Cozinha' e eu: 'Ai'. E perguntaram: 'Então mas você não sabia?'. E eu: 'Não. Agora já assinei. Já está, já está. Não volto com a minha palavra atrás'". Dava-se assim início ao "pesadelo", no verdadeiro sentido da palavra.

João, proprietário do restaurante Caipirinha
Luís Pereira

"Eu abri o restaurante com oito pratos"

João conta que quando o chef chegou ao restaurante, um dos primeiros defeitos que apontou foi o facto de o marisco e hambúrguer serem congelados — as únicas coisas congeladas naquele dia, porque, como diz, tudo o resto era tudo fresco. Além disso, o chef ficou esputefacto com a ementa, que afinal não tinha os tais 74 pratos, mas sim 32.

Contudo, o número continua a ser elevado e tem uma explicação: "Eu abri o restaurante com oito pratos. Depois as pessoas sentavam aqui e perguntavam: 'Mas você não tem peixe?'. E aí eu aumentei o peixe. 'Ah, a gente queria comer pizza e aqui você não faz'. Aí eu resolvi e montei o forno. E assim foi crescendo de acordo com o que as pessoas foram pedindo".

"Pesadelo na Cozinha". "O que Ljubomir faz é chamar os outros merdas e ir-se embora"
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Agora, depois de o chef ter dado algumas sugestões para a nova carta —  como massada de peixe, creme de mandioca ou tarte de limão merengada — João confessa que não vai colocar dois ou três pratos da ementa de Ljubomir, e que da sua vai tirar pelo menos uns dez.

As alterações ainda não estão a 100% instaladas, dado que na ementa que vimos nenhuma das sugestões do chef estavam incluídas. Contudo, mesmo sem todas as transformações assentes, João já nota diferença no movimento — e não é para melhor.

"Se não melhorar, tenho que fechar. Se não, não consigo pagar"

Desde que Ljubomir passou no restaurante Caipirinha, que o movimento caiu para metade. João conta-nos que antigamente vendia cerca de 30 frangos assados, mas que depois da passagem do "pesadelo", as vendas fazem jus ao nome do programa: " Na semana passada vendi dois. Na sexta-feira vendi quatro".

E há uma razão para isso: o preconceito. "As pessoas estão a levar para outro caminho, a pensar que fui eu que chamei, que a comida é ruim, havia muita sujeira e então ele veio para remodelar e ficar mais limpo. Não era o meu caso", diz.

Depois da remodelação do espaço, as pessoas deixaram de voltar, e o movimento passou a ser maioritariamente de clientes já próximos de João. Aquilo que deveria ter sido uma mudança para melhor, quer na comida — como nas pizzas feitas por Wesley, que segundo Ljubomir não sabia nada de cozinha —, quer no que diz respeito à decoração, neste caso aconteceram para pior.

"Hoje a luz está acesa. A sala está escura. Antigamente não usava luz e agora tenho que usar de manhã até à noite", confessa com desilusão. Na opinião de João, o teto não deveria ter sido pintado de azul. Se tivessem mantido em branco, isso ajudaria a clarear a sala e a não ter necessidade de usar luz artificial durante o dia — algo que não só não está a favor do planeta, como da conta da eletricidade.

Já há quase quatro anos que o proprietário recebe os mesmos clientes, com algumas pessoas novas de vez em quando, mas a passagem do chef Ljubomir veio mudar o rumo do restaurante. Quando perguntámos a João qual o futuro que achava que o Caipirinha teria se o chef não tivesse passado por lá, a resposta é clara: tinha-se mantido. "Como [o movimento] caiu pela metade há um mês, agora está difícil. Se não melhorar, tenho que fechar. Senão, não consigo pagar."

João admite que aprendeu com Ljubomir, mas esta quebra não está a ajudar a pagar as contas. Apesar disso, mantém a esperança e acredita que depois de o programa passar no domingo, 19 de janeiro, as coisas possam melhorar e, quem sabe, até superar o movimento antes da invasão do "pesadelo".

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