A noite deste sábado, 19 de dezembro, ficou marcada pela "Noite de Cristina", na TVI, programa cuja temática principal era o Natal. Apesar de ser um formato "fora da caixa", a ideia base assentava na realização de um baby shower para receber Jesus, com Maria Cerqueira Gomes a vestir a pele de Maria.

Grande parte do programa passou-se num presépio montado em pleno estúdio, com direito a fardos de palha, ovelhas e até à vaca Leonor. Mas apesar de a intenção ser conseguir um cenário o mais realista possível, a presença do animal de grande porte não correu na perfeição. Num momento da "Noite de Cristina", a vaca ficou agitada e acabou por se soltar do tratador, irrompendo pelo estúdio, sem que ninguém a conseguisse controlar num primeiro momento.

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O momento, transmitido em direto pela TVI, foi amplamente partilhado nas redes sociais — e muito criticado. Desde a própria presença do animal num estúdio de televisão ao facto de uma criança ter sido colocada em perigo, a onda de críticas abalou a internet.

O sucedido não se tornou viral apenas no Twitter. No Instagram, o apresentador João Manzarra, conhecido por defender, entre outras causas, os direitos dos animais, pronunciou-se sobre o acontecimento. "Este cavalo é meu vizinho. Este cavalo tem a sua vida. Este cavalo não tem de ir a estúdio. Essa é a minha vida", disse numa publicação, sem se pronunciar diretamente sobre o sucedido no programa de Cristina Ferreira.

O tema passou da televisão para a esfera pública, e tanto a Sociedade Protectora dos Animais (SPA), como o partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), têm posições vincadas quanto aos acontecimentos do programa especial da TVI.

Em declarações à MAGG, a SPA "condena veementemente a utilização de quaisquer animais com fins expositivos e de entretenimento", considerando tratar-se de uma situação, como muitas outras na quadra natalícia, em que "é frequente observarmos o uso de animais de pasto como se de objetos se tratassem", afirma a organização. Além disso, classifica como "absolutamente irresponsável a sujeição de uma criança a este enquadramento, pelos riscos que envolve, e que é infelizmente tão comum de observar em vários eventos".

Referindo-se em particular à "Noite de Cristina", e em geral ao uso de animais para fins de entretenimento, a Sociedade Protectora dos Animais acrescenta que "qualquer animal é um ser provido de consciência, e deve ser respeitado, protegido e acolhido como tal".

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Inês Real, líder parlamentar do PAN, também salienta que "é despropositado levar um animal daquele porte para estúdio". "Estamos a falar de animais que, do ponto de vista do seu comportamento, facilmente se podem assustar num contexto estranho e que lhes provoca stresse", diz Inês Real à MAGG, acrescentando que a situação representa uma série de riscos "para as pessoas que estavam no local, mas por outro, também para a própria integridade física do animal, que se podia ter magoado a tentar fugir".

"Nesse sentido, aquilo a que gostaríamos de facto apelar, sabendo que por vezes a época natalícia se presta a que se queira reproduzir, de alguma forma, aquilo que possa ter sido o presépio, é que é importante que as pessoas percebam que independentemente da finalidade com que os animais são detidos, devem ser tratados com respeito, dignidade e que o seu lugar não é de facto nestes contextos", refere a deputada.

Esta posição é clara para o partido PAN, que já no programa eleitoral do ano passado aponta, no que diz respeito a animais detidos, que "aos mesmos deve ser assegurada uma existência digna e livre de maus-tratos, que respeite as suas características naturais e comportamentais".

Aquilo que aconteceu "Noite de Cristina" não é, aliás, a primeira vez em que os animais estão em torno de uma polémica ligada ao Natal. A deputada do PAN dá o exemplo da situação que aconteceu no ano passado na Capital do Natal, em Oeiras, em que duas renas estiveram soltas em exposição. Acabaram por ser retiradas do recinto após várias fotografias dos animais deitados numa alcatifa molhada e enlameada, dentro de uma cerca de madeira, terem sido partilhadas nas redes sociais.

Quanto à situação deste sábado, Inês Real destaca: "É efetivamente importante perceber que há momentos e situações adequadas como, por exemplo, uma peça feita em exterior, em que o bem estar do animal estivesse plenamente salvaguardado".

A líder parlamentar do PAN também não ficou indiferente ao perigo criado para a criança que se encontrava em estúdio. "Tendo em conta o risco que havia para a criança, que podia ter ficado ferida, não deixa de ser curioso fazer o paralelismo com aquilo que acontece nas touradas. Nós vamos ter agora uma proibição para que crianças e jovens não possam participar em espetáculos tauromáquicos e de facto, a consternação e preocupação que ocorreu logo naquele contexto, é precisamente a mesma", refere Inês Real, fazendo o paralelismo com a proposta apresentada em novembro para proibir a presença e participação de menores nos espetáculos tauromáquicos.

Inês Real descreve o episódio deste sábado como algo "que correu bastante mal" e deixa o alerta para "pessoas com influência, como Cristina Ferreira", que o importante é que haja "uma mensagem mais pedagógica para as famílias em relação à forma como devemos tratar os animais e em que ambiente é que devem estar". No entanto, a deputada é a primeira admitir que, noutras ocasiões, a apresentadora e diretora de Entretenimento e Ficção da TVI já procurou sensibilizar para estas matérias.

A deputada salienta ainda acreditar que nada do que aconteceu foi deliberado, mas defende que "houve uma falta de perceção de que este episódio podia ter corrido muito mal". "Os órgãos de comunicação social, em particular a televisão que entra casa adentro de muitas pessoas, tem aqui um papel muito importante para sensibilizar para o respeito pelos direitos dos animais e pelo seu bem-estar. É importante que deixem de ter este tipo de iniciativas, que acabam por ser infelizes, porque nem beneficiam o programa, nem salvaguardam o respeito pelo direito dos animais", salienta Inês Real.

"Não é culpa do animal em si, é só um desleixo de quem o põe em estúdio"

Rúben Miguéis, engenheiro zootécnico da Vetfarm, clínica veterinária de animais de produção, conta à MAGG que viu atentamente os vídeos do incidente com a vaca Leonor na TVI e não consegue perceber o fator que terá provocado o comportamento agitado no bovino. No entanto, aponta uma série de razões lógicas.

"Deverá tratar-se de um animal de exposição habituado a feiras, a pessoas. Mas a questão é que estamos a falar de luzes, de palmas e tudo mais a que o animal pode não estar habituado, mesmo sendo um animal de exposição", diz o especialista. Estes animais mansos são acostumados a estar em cabresto, a estar com pessoas e sempre acompanhados do tratador.

"Este animal, pelo que vi, é um animal manso também. Alguma coisa lhe aconteceu que despertou uma reação", refere o engenheiro zootécnico.

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"Quantas vezes já tivemos, por exemplo, cavalos tranquilos em estúdio. Mas houve uma situação de um cavalo que deu um coice em direto", lembra. Rúben Miguéis refere que, por vezes, o animal pode não querer fazer mal, mas tem uma reação de alegria que, devido ao grande porte, pode ter implicações sérias para um ser humano. "Acho que, antes disso [levar um animal para estúdio], há um risco que tem de ser calculado", refere o engenheiro zootécnico.

Quais seriam então as soluções para controlar um animal de grande porte num ambiente de televisivo? Além de ser essencial que ao lado deste esteja apenas o tratador, a pessoa que o conhece, deveria também ser evitado que um apresentador ou uma criança lhe faça "festinhas, porque não sabem qual é que é a reação", e que seja criada uma "fuga do animal" para, "se acontecer algum problema, seja fácil este sair", sugere Rúben.

Em suma, seja na "Noite de Cristina" ou em qualquer outro programa, Rúben destaca que "é um risco". "Não é culpa do animal em si, é só um desleixo de quem o põe em estúdio e não tem as devidas medidas de segurança necessárias", conclui o especialista da Vetfarm.

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