Se é certo que a violência inerente à vida noturna não é um fenómeno recente, é igualmente verídico que, desde a terceira e última fase de desconfinamento, que coincidiu com a reabertura dos espaços de diversão noturna, os episódios têm-se intensificado. Afinal de contas, até que ponto o confinamento terá influenciado o comportamento dos jovens? As redes sociais instigam reações violentas? Estamos a experienciar uma onda de criminalidade como nunca existiu ou somos apenas confrontados com mais informação? Fomos à procura de respostas.

Terceira fase de desconfinamento arranca esta sexta-feira. O que muda?
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"Os níveis de criminalidade estão mais baixos quando comparados a 2018 e 2019", esclarece o intendente da Polícia de Segurança Pública (PSP) Nuno Carocha à MAGG. No entanto, Isabel Sá da Bandeira, porta-voz do grupo de moradores de Lisboa "Aqui Mora Gente", garante que "os moradores estão desesperados". Mas já lá vamos.

Depois de relatos consecutivos de esfaqueamentos e agressões, que já chegaram efetivamente a culminar na morte de um jovem, a MAGG tentou perceber o que motiva este tipo de comportamentos, protagonizados, segundo o porta-voz da PSP, essencialmente por jovens.

"Normalmente, este tipo de criminalidade associada à diversão é praticado por pessoas mais jovens. Sejam crimes de oportunidade ou crimes por mero exibicionismo", esclarece o Intendente da PSP.

Nádia Neiva, psicóloga na Clínica da Mente, avança que as redes sociais e a busca constante por protagonismo são formas de instigar reações violentas. "Se é a passagem desta informação que vai instigar a violência? Provavelmente. Porquê? Por um certo protagonismo", completa.

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"As redes sociais podem, de facto, levar a um certo sentimento de heroísmo por parte das pessoas que praticam este tipo de criminalidade", avança o porta-voz da PSP, que acrescenta que "o trabalho que há a fazer é o de apelar aos jovens para que não partilhem este tipo de conteúdos", para "não lhes dar palco".

Psicóloga admite que "tudo está a acontecer em exagero"

Embora não deixe que a culpa recaia exclusivamente no confinamento, a psicóloga Nádia Neiva admite à MAGG que este pode ser um fator "preditor e promotor". "As pessoas vão sair, sentem-se mais livres neste momento e conseguem, de alguma forma, voltar a viver a sua vida. Há coisas que se vão concertando. Neste momento, tudo está a acontecer em exagero", continua a especialista.

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"Esta necessidade e busca incessante pelo prazer também vai, eventualmente, serenar. E serenando, provavelmente, os consumos diminuem um bocadinho e a alteração de consciência também. Portanto, vamos tender a que isto [os incidentes violentos] também diminua. O mais importante é perceber que há uma consequência perante uma ação. Tem de haver uma punição para este tipo de situações", completa. "A própria polícia, às vezes, parece um bocadinho subjugada à ação."

Nádia Neiva
Nádia Neiva é psicóloga na Clínica da Mente, que conta com estabelecimentos em Braga, Porto, Coimbra e Lisboa.

"O governo nunca quis falar"

José Gouveia, presidente da Associação Nacional de Discotecas (ADN), destaca a falta de policiamento e a alegada inércia por parte dos orgãos soberanos de Lisboa como uma das principais lacunas a colmatar.

À MAGG, explica que houve uma tentativa, por parte da Associação Nacional de Discotecas, de discutir os moldes em que a atividade noturna poderia regressar, de forma a garantir a segurança dos cidadãos. No entanto, sem sucesso ou respostas concretas.

"A nível do poder local, tive oportunidade de falar sobre isto com o secretário de Estado do Comércio, com a Câmara Municipal de Lisboa, através do Miguel Gaspar e até através do próprio Fernando Medina. O governo nunca quis falar. O poder local nunca quis falar. Nada foi feito. Zero", avança.

José Gouveia explica que incidentes violentos sempre existiram, mesmo antes da situação pandémica. No entanto, conta que há 20 anos que apresenta a mesma solução. "É fácil resolver esta situação. Das docas ao Cais do Sodré são cinco minutos de carro. Um carro patrulha a fazer este circuito de um lado para o outro, toda a noite, é o elemento suficiente para que estas coisas [incidentes violentos] não aconteçam", explica.

José Gouveia alega, ainda, que é necessária uma reorganização de prioridades, no que à gestão e distribuição do contingente diz respeito. "A não ser que haja, como no Bairro Alto, uma demonstração de força para encerrar os estabelecimentos por conta do horário, em que havia polícias para isso tudo, não se verifica [policiamento]", diz.

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"Foi uma pouca vergonha aquilo a que assistimos. Para a segurança das pessoas, nunca há contingente. É impressionante. Há um contingente imenso para operações STOP, constantemente parado à porta das discotecas e nas zonas de acesso. E não há polícia para cumprir aquele que é o principal papel das autoridades, que é defender os cidadãos", remata.

"Os níveis de criminalidade estão mais baixos"

O porta-voz da PSP explica que a situação atual se tratam de "segmentos de um todo" e que a polícia não pode, no regresso à normalidade da vida social, descartar a segurança rodoviária. "Isto não pode ser visto como 'ou garantimos uma segurança ou garantimos a outra'. Não podemos permitir que se criem condições para que o número de mortes e de feridos em acidentes rodoviários aumente", avança.

No entanto, garante que a PSP mantém o foco, esforço e empenho na garantia da segurança de rua. "São segmentos que só fazem sentido todos juntos".

À MAGG, o Intendente da PSP Nuno Carocha conta que, desde o início do desconfinamento, por parte da PSP, "tem sido feito um esforço para acompanhar as dinâmicas sociais e, claro, evitar a prática de crimes". No entanto, deixa claro que "não há, nem nunca vai haver, um polícia em cada rua, 24 horas por dia".

Nuno Carocha explica que os dados estatísticos revelam que os índices de criminalidade violenta não são superiores aos de anos anteriores. Antes pelo contrário.

"Os indicadores que temos até agora apontam para o sucesso dessa nossa intervenção, porque a criminalidade grave e violenta está mais baixa quando comparada à períodos idênticos de 2018 e 2019", acrescenta o porta-voz da PSP. "Mantêm uma tendência decrescente, mas, ainda assim, por parte da PSP, não pretendemos minimizar de forma alguma os episódios que têm acontecido, que nos deixam preocupados e para os quais temos tido uma reação."

O porta-voz da PSP descarta a alegada falta de punição como um fator promotor de situações violentas. E explica porquê, com recurso a dados concretos. "Desde o início do processo de desconfinamento, só em Lisboa, nas zonas do Cais do Sodré, Bairro Alto e Santos, já ultrapassámos as sete dezenas de detenções de cidadãos suspeitos da prática de roubos e de ofensas à integridade física", revela o porta-voz da PSP.

Nuno Carocha explica que, quando confirmados os crimes, os indivíduos são presentes à autoridade judiciária e submetidos a diferentes medidas de coação, enquanto aguardam julgamento. Garante ainda que tem havido e vai continuar a haver uma grande disponibilidade e atenção, por parte da PSP, para acompanhar os cidadãos nas suas dinâmicas sociais. Neste caso, com o principal intuito de prevenir crimes e, ainda, responsabilizar quem está por detrás destes.

"Só os próximos meses é que nos vão dizer se estes episódios, que nos têm vindo a preocupar, se tratam de situações individuais ou se há aqui alguma tendência – que, no caso de se verificar, vai merecer a nossa atenção e a adequação do policiamento para a contrariar de forma objetiva e assertiva", garante o porta-voz da PSP.

Isabel Sá da Bandeira, porta-voz do grupo de moradores de Lisboa "Aqui Mora Gente", mostra-se expectante pelo trabalho futuro do atual presidente da Câmara da Lisboa, Carlos Moedas, mas revela que a situação se tem revelado "insuportável". "Isto não pode continuar assim", diz.

"Os moradores estão desesperados"

Isabel Sá da Bandeira mora em Lisboa há cerca de 16 anos e reside, atualmente, junto ao Cais do Sodré. À MAGG, conta que o barulho noturno é "ensurdecedor" e que há cada vez mais lixos nas ruas. "É uma lixeira completa. As calçadas estão pretas", reforça.

A porta-voz do grupo "Aqui Mora Gente" revela que as queixas constantes de barulho e violência já se registam há vários anos, mas que, desde o início do desconfinamento, a situação piorou. Isabel Sá da Bandeira destaca "a cultura de beber na rua" e o "turismo low-cost" promovido pela venda de álcool como fatores promotores para o descontrolo na vida noturna.

"São milhares de pessoas na rua. Dava para encher campos de futebol atrás de campos de futebol", conta. "Os moradores estão desesperados", remata. "Recebo queixas todos os dias de pessoas que não conheço e nunca ouvi na rua. Mandam mensagens a dizer 'eu não consigo mais viver assim'", avança, acrescentando que a grande maioria aborda a questão do barulho, do lixo e da insegurança.

"Os moradores não querem sair à rua, fecham-se em casa. Com medo e para terem tranquilidade", explica Isabel Sá da Bandeira, sendo que deixa a ressalva de que tem notado "mais polícia na rua".Posto isto, assume que uma possível alteração no horário dos bares poderia ajudar a controlar tanto o barulho como a criminalidade nas ruas de Lisboa. "Os bares deviam fechar à meia-noite. Tem de haver uma restrição de horários".

Isabel Sá da Bandeira revela que o atual presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, já está a par das queixas e da situação dos moradores e que "tem fé de que as coisas venham a mudar".

Até lá, o Intendente da PSP deixa um apelo. "Há uma extrema necessidade de as vítimas denunciarem os crimes, o mais próximo possível da ocorrência. Assim como todas as testemunhas. O ideal é comunicar de imediato a situação à PSP", avança. "Quanto menor for o lapso de tempo entre a prática do crime e a chamada para a PSP, maior será a possibilidade de sucesso: neste caso, para responsabilizar quem pratica os crimes e tirar essas pessoas da rua, para tornar a noite mais segura”, completa.

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