Numa prova que antecedeu um desfile de moda da Victoria's Secret, em 2018, estavam a ser tiradas as medidas de roupa interior da modelo Bella Hadid. A assistir sentado num sofá estava Ed Razek, 72 anos, então executivo da L Brands, empresa mãe que detém a marca de lingerie mais conhecida do mundo.

"Esquece as cuecas", terá dito, numa declaração confirmada por três pessoas que assistiram ao momento e uma quarta que apenas ouviu relatos da situação. As mesmas testemunhas dão conta daquilo que se seguiu: Razek terá questionado se o canal de televisão que iria transmitir o desfile deixaria Hadid percorrer a passerelle com aquelas "maminhas perfeitas" (tradução livre de "perfect titties").

Os comportamentos questionáveis deste executivo não acabam aqui. No mesmo momento, terá colocado a mão na virilha de outra modelo, relataram três testemunhas.

Uma funcionária terá contado o o sucedido aos recursos humanos, listando num documento — a que o "The New York Times" teve acesso — muitos outros comportamentos impróprios de Razek,  incluindo "comentários humilhantes" e "toques desnecessários".

Esta mulher não foi a primeira a fazer uma reclamação contra o homem: numa sessão fotográfica de junho de 2015, a empresa terá organizado um buffet de almoço para os funcionários e no momento em que Casey Crowe Taylor, funcionária no departamento de relações públicas, ia servir-se pela segunda vez, o homem ter-se-á colocado diante dela para a repreender, chamando a atenção para o seu peso — dizendo-lhe ainda que deveria pôr de lado o pão e a massa.

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Taylor tinha 1,78 e cerca de 64 quilos. Na sequência deste momento, terá fugido para a casa de banho para chorar. Fez a tal reclamação aos recursos humanos, mas nada aconteceu. Poucas semanas depois, decidiu afastar-se da empresa e depediu-se.

Estas são só algumas das histórias relatadas numa extensa investigação realizada pelo americano "New York Times" e publicada este sábado, 1 de fevereiro. O jornal terá entrevistado mais de 30 pessoas ligadas à empresa, desde executivos e ex-executivos, modelos, funcionários, analisando ainda documentos, incluindo judiciais, o que permitiu concluir que a empresa adota uma cultura misógina, de bullying, body shaming e assédio sexual, promovendo a cultura do medo e do silêncio.

Ed Razek está no centro da polémica, com múltiplas acusações de comportamentos impróprios, desde toques físicos desnecessários, comentários sexualizados. Pedia a modelos beijos, que se sentassem no seu colo, assistia e tecia comentários nas provas de roupa.

Além deste comportamento, fala ainda sobre a forma como a L Brands reagia de forma contrária ao expectável face às acusações: ao invés de agir contra o agressor, diminuía e castigava as mulheres que apresentavam as queixas.

Leslie Wexner, 82 anos, fundador e diretor executiva da empresa, foi acusado disso mesmo: de acordo com o jornal, o homem humilhava as mulheres e não agia face às acusações contra Razek, ignorando várias reclamações feitas ao departamento de Recursos Humanos. "Em várias ocasiões, o próprio Wexner foi visto a diminuir mulheres", conclui a investigação.

Várias mulheres relataram ter sofrido repercussões na sequência das queixas. A modelo Andi Muse foi uma delas: depois de ter reclamado, deixou de ser contratada para o desfile anual da Victoria Secret, depois de ter recusado os avanços de Razek.

"O que foi mais alarmante para mim, como alguém que foi educada como uma mulher independente, foi o quão esse comportamento estava enraizado", disse Crowe Taylor, que disse ter assistido a vários comportamentos impróprios do executivo.

Acrescentou: “Esse abuso foi apenas tido e aceite como normal. Era quase como uma lavagem cerebral. E quem tentou fazer algo a respeito disso não foi apenas ignorado. Foi punido."

Em 2019, diferentes relatos vieram sugerir que Wexner mantinha relações com o traficante de sexo Jeffrey Epstein, que supostamente se apresentava como recrutador da Victoria's Secret, dizendo às jovens que poderia ajudá-las a conseguirem contratos como modelos da marca. 

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Como resultado da investigação do "New York Times", a L Brands fez declarações, afirmando que a empresa "fez progressos significativos" nas práticas de conformidade do local de trabalho. "Lamentamos qualquer caso em que não tenhamos atingido esse objetivo e estamos totalmente comprometidos com a melhoria contínua e a total responsabilidade", disse, citada pelo jornal americano, sem contestar nenhum dos relatórios citados.

Já Razek negou as acusações. “As acusações contidas neste relatório são categoricamente falsas, mal interpretadas ou descontextualizadas. Tive a sorte de trabalhar com inúmeros modelos de classe mundial e profissionais talentosos e tenho muito orgulho do respeito mútuo que temos um pelo outro.

Razek saiu da L Brands em agosto, pouco depois de, em 2019, o desfile da Victoria's Secret ter sido cancelado, depois de duas décadas de transmissão. Já Wexner, reporta o jornal, está a "explorar planos para se reformar" e vender a empresa de lingerie.

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