O palco principal da edição de 2020 da Web Summit, exclusivamente digital em plena pandemia, recebeu Van Jones. O nome pode parecer-lhe estranho, mas a sua presença enquanto comentador da CNN tornou-se viral um pouco por toda a internet após a confirmação de que Joe Biden seria o próximo presidente dos EUA. Na altura, Van Jones chorou em direto porque, a partir daquele momento, "podia dizer-se que o caráter de uma pessoa" importava, que "dizer a verdade" importava e que ser boa pessoa, de igual forma, importava.

"A partir de hoje, vai ser tudo mais fácil para mais pessoas. Se é um muçulmano neste país, já não vai ter de se preocupar com a ideia de o seu presidente não o querer aqui. Se é um imigrante, já não vai ter de se preocupar com um presidente a tirar-lhe o bebé dos braços e separá-lo de si enquanto fica retido. Isto [a derrota de Donald Trump] é uma reivindicação para todas as pessoas que sentiram que não podiam respirar neste país, e não me refiro só a George Floyd [o homem negro que morreu às mãos de um polícia branco, que o asfixiou com um joelho no pescoço]", explicou Van Jones, visivelmente emocionado, à CNN.

Além de comentador, Van Jones é também presidente executivo da Reform Alliance, uma organização especializada em justiça criminal e que tem como objetivo efetuar uma reforma profunda no sistema prisional dos EUA, com a revisão do sistema de liberdade condicional que poderia libertar pelo menos um milhão de pessoas ao longo dos próximos cinco anos.

Foi nessa condição que falou diretamente de sua casa para milhares de pessoas que assistiam esta quarta-feira, 2 de dezembro, a Web Summit. "Há muitas pessoas neste país que estão apenas a uma multa de trânsito de distância de irem parar à prisão. Porque o nosso sistema judicial penaliza aqueles que não têm forma de se manterem à deriva", explica.

O mediatismo da organização da qual faz parte, e que conta com o apoio de celebridades e figuras públicas como Jay-Z ou Meek Mill, decorre de uma "preocupação acentuada de quem está cada vez mais cansado de ver a justiça penal tratar pessoas afro-americanas ou desfavorecidas da maneira que tratam", continua.

A afirmação é corroborada por Bob Pilon, presidente e um dos diretores da organização: "Neste país, estamos a condenar pessoas a penas pesadas de prisão só porque são pobres."

E embora ambos considerem uma vitória o facto de terem conseguido tirar cerca de "dez mil pessoas das prisões" durante a crise sanitária provocada pelo surto do novo coronavírus no país, "ainda há muito para fazer". Mas ainda que a Casa Branca passe a ser dos Democratas já a partir de janeiro, com a cerimónia de confirmação de Joe Biden, o senado americano pertence a uma maioria republicana e conservadora liderada por Mitch McConnell. Sobre se isso poderá ou não ser um problema a longo prazo para a adoção de medidas reformistas no setor prisional, Van Jones desvaloriza.

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"Mesmo que o senado esteja nas mãos de Mitch McConnell, as coisas podem ser feitas porque mesmo dentro dessa fatia, os conservadores sabem que o que está a acontecer ataca os seus valores éticos e morais. Os dois lados da barricada [referindo-se aos Democratas e aos Republicanos] percebem isto e todos eles acreditam na liberdade. Não há nada mais anti-liberdade do que aquilo que está acontecer neste momento nas nossas prisões", defende Jones.

Quanto à violência policial, Van Jones refugia-se nos números que as sondagens lhe têm fornecido e que mostram que "a maioria dos americanos concorda que deve ser feita uma reforma na polícia". "As sondagens mostram-nos isso, mas também que a maioria das pessoas querem que os polícias que fazem coisas erradas sejam responsabilizados. Mas para que isso aconteça, esses agentes têm de ser disciplinas, despedidos, processados e condenados. Até agora, anda disso tem vindo a acontecer", lamenta.

E conclui: "Não é assim tão estranha a ideia de que agentes da polícia têm de respeitar a lei. Eles têm de ser responsabilizados, mas tem sido muito difícil despedir ou sancionar agentes porque há uma grande proteção que os beneficia. Isso tem de mudar."

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