Quem percorre a Marginal no sentido de Cascais consegue vê-lo ao longe. Em São João do Estoril, bem coladinho ao mar, o forte de Santo António da Barra foi em tempos a "casa" de férias de António Oliveira Salazar. Foi aqui também que, em 1968, o Presidente do Conselho caiu da cadeira de lona e bateu violentamente com a cabeça no chão de pedra.

Aos 79 anos, Salazar nunca recuperou da queda. Morreu dois anos depois, mas o seu regime aguentou mais quatro. Precisamente 44 anos depois da Revolução dos Cravos, e depois de quase três abandonado, o forte de Santo António da Barra vai reabrir ao público por um dia. Entre as 14 e as 19 horas vai haver um percurso expositivo para redescobrir a história do espaço.

Mas já falaremos melhor sobre isto. Antes de falarmos mais sobre a queda de Salazar, do vandalismo, de um incêndio e das discussões sobre o estado de degradação do forte, importa perceber como começou esta história.

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Giovanni, precisamos de melhorar a nossa linha defensiva

Foi durante a época da Dinastia Filipina que tudo começou. Filipe I estava preocupado com o sistema defensivo da costa, uma vez que temia que possíveis inimigos desembarcassem na linha entre São Julião da Barra e Cascais. Nessa altura, o rei pediu ao engenheiro militar e arquiteto Giovanni Vicenzo Casale que elaborasse uma planta de Cascais e da costa até São Julião da Barra.

Em 1590, começaram as obras de construção do forte de Santo António da Barra. O projeto ficou a cargo de Casale, que também tinha tratado da ampliação da Torre de Belém e do Forte de São Lourenço do Bugio. A primeira ideia para este local era modesta: um pequeno forte em taipa, revestido em madeira e alvenaria. Apesar de Filipe I ter concordado, acabaram por optar por um projeto mais ambicioso.

Ficou pronto pouco mais de um ano depois. A 16 de fevereiro de 1591, Giovanni Vicenzo Casale escreveu ao rei dizendo-lhe que o forte estava "ja de manera que se puede meter gente y artilleria."

Descuido, calos ou uma cadeira defeituosa. Ainda se discute como morreu Salazar

Modernizado ao longo dos anos, o forte de Santo António da Barra acabou por perder a sua importância estratégica. No final do século XIX foi ali colocado o posto da Guarda Fiscal, mais tarde passou a ser utilizado como campo de férias do Instituto Feminino de Educação e Trabalho de Odivelas.

Em meados do século XX transformou-se num dos locais favoritos de António Oliveira Salazar nos meses de calor.

Tudo mudaria a 3 de agosto de 1968. Sentado numa cadeira de lona, Salazar lia as páginas do Diário de Notícias quando de repente se desequilibrou da cadeira e caiu. Décadas depois, ainda se discute exatamente o que é que aconteceu. Há quem diga que foi descuidado e se inclinou de forma apressada, outros garantem que ia tratar dos calos. Outros ainda dizem que foi a perna da cadeira que cedeu.

Aos 79 anos, aquela queda ditaria o seu fim. Mas, naquele momento, ninguém percebeu a gravidade do que acabava de acontecer. Perante um incidente doméstico sem aparente importância, foi o próprio Salazar que recusou que chamassem um médico. Nesse dia sentiu uma forte dor de cabeça, nos seguintes teve problemas de visão e de movimentos.

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A imprensa não soube nada do que se estava a passar até que, a 7 de setembro, a Emissora Nacional anunciou que Salazar tinha sido operado a um hematoma intracraniano. Sem divulgar a data, foi dito que o Presidente do Conselho tinha caído da cadeira na sua residência de verão. E tinha sido mesmo assim, de facto. O mesmo já não se pode dizer das notícias tranquilizadoras que garantiam que o pós-operatório estava a correr otimamente. Nove dias depois, Salazar sofreu um acidente vascular.

Mas o seu fim não foi assim tão rápido. Apesar de não estar em condições para governar, os ministros realizavam conselhos falsos na sua presença, deixando o ditador acreditar que ainda decidia alguma coisa. Os jornais também continuavam a chamar-lhe Presidente Salazar.

Em julho de 1970, porém, o seu estado de saúde piorou. De dia para dia surgia um problema novo, desde infeções renais até pneumonias. Na manhã de 27 de julho, acabou por morrer.

O forte de Santo António da Barra depois da morte de Salazar

Classificado como Imóvel de Interesse Público em setembro de 1977, foi a casa do Instituto de Odivelas até ao final do ano letivo de 2014/2015. A ideia era abrir ali um centro de investigação ligado ao mar, mas isso nunca aconteceu.

Na verdade, não aconteceu nada. Em 2016 o "Correio da Manhã"  divulgou o estado de degradação do espaço, em dezembro de 2017 foi a vez do Expresso fazer uma grande reportagem sobre o assunto. Azulejos partidos, graffitis por toda a parte, lixo, garrafas, vidros partidos.

O fotógrafo Gonçalo Gouveia, autor da página GG Photography, passou por lá a 10 de julho de 2016. O estado de degradação era evidente, mas pioraria bastante nos meses seguintes, com actos de vandalismos sucessivos.

Antes da visita de Gonçalo Gouveia ao local, houve um incêndio num dos compartimentos do forte que a rápida intervenção dos operacionais dos bombeiros dos Estoris e de Cascais impediu que o fogo alastrasse.

Uma nova vida para o forte

Em 2015, após o encerramento do Instituto de Odivelas, a Câmara Municipal de Cascais e o Governo assinaram um protocolo que tinha como objetivo transferir a competência de exploração para o município. Só que o processo não teve qualquer avanço. No início de março deste ano, CDS-PP e Bloco de Esquerda juntaram-se para pedir a recuperação do forte e que a câmara de Cascais tomasse as rédeas do assunto.

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A 13 de março, o município e o Ministério da Defesa Nacional assinaram um protocolo para que a autarquia pudesse finalmente dar nova vida ao forte, garantindo a limpeza e dinamização do mesmo. O novo acordo tem a duração de um ano.

E assim foi. De acordo com a Câmara de Cascais foram retiradas "toneladas de terra, ervas e lixo", "limpos os graffiti e recuperados os painéis de azulejo", além de "recuperados percursos e paredes." Esta quarta-feira, 25 de abril, o forte de Santo António da Barra abre ao público para um percurso que conta a história do edifício. Acontece entre as 14 e as 19 horas. "Uma abertura única, para já", salienta o município.

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