O Reino Unido quer proibir os britânicos de viajar para fora do país até 30 de junho. A medida, que poderá renovar a restrição já imposta de viajar sem justificação até 17 de maio, foi apresentada num projeto de lei que será discutido e votado no parlamento britânico esta quinta-feira, 25 de março. A confirmar-se a medida, significa que, por mais um ano, o turismo em Portugal, especialmente no Algarve, vai sofrer no primeiro mês de verão com aquele que é o principal fluxo de turistas.

"É obviamente uma má notícia na medida em que o principal mercado emissor condiciona as viagens prolongando esse impedimento mais um mês e meio. Sendo o Algarve, no fundo, o destino preferencial dos britânicos em Portugal, é natural que esta não seja uma boa notícia e tenha um impacto significativo naquilo que seria a retoma de ligações aéreas e da procura externa", afirma à MAGG o presidente do Turismo do Algarve, João Fernandes.

O presidente reconhece que tem existido sempre um esforço por reforçar a promoção no mercado interno e até no mercado alargado, como Espanha e, em especial, a região da Galiza, "que tem uma afinidade muito parecida com aquela que os nossos compatriotas do norte têm com o Algarve, é o seu destino de férias com família no verão", no entanto, têm uma expressão reduzida no turismo da região.

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Por isso, as notícias vindas do Reino Unido, bem como da Alemanha, vêm abalar as perspetivas para este verão. "Estamos a falar de um período em que a Alemanha, que é o segundo mercado externo, está isolada pelo início de uma terceira vaga. Não são obviamente boas notícias", refere o presidente do Turismo do Algarve. Os alemães estão a enfrentar a entrada de uma "nova pandemia" no país devido ao aumento de casos com as novas variantes da COVID-19, situação que já levou a chanceler Angela Merkel a prolongar as restrições até meio de abril, bem como a encerrar todos os serviços não essenciais durante a Páscoa.

Contudo, João Fernandes mantém-se otimista e não dá o verão como perdido. "Apesar de todos estes revés, há também boas notícias. O plano de vacinação na Europa vai acelerar no segundo trimestre, o plano de vacinação no Reino Unido está até mais avançado, há cada vez mais um consenso no seio europeu para o passaporte verde ou certificado verde digital e para que ele seja reconhecido também por outros países fora do espaço comunitário, nomeadamente, no Reino Unido. Por isso, não damos obviamente o verão por perdido, muito pelo contrário", afirma.

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Até porque, lembra o presidente do Turismo do Algarve, no ano passado o mercado espanhol teve as fronteiras fechadas até 1 de julho e este ano o cenário é mais animador. "É expectável que no pós-Páscoa voltemos a ter as fronteiras abertas com o nosso país vizinho, portanto há aqui sinais de esperança", embora não deixe de reconhecer que a notícia do Reino Unido, a consumar-se, "é um duro revés" e que "mais um mês e meio sem poder receber britânicos é um retardamento da procura externa".

Até ao momento, o presidente do Turismo do Algarve não tem dados oficiais sobre quantos hotéis e restaurantes já fecharam definitivamente por causa da pandemia, mas deixa algumas previsões sobre o futuro do turismo na região.

"As nossas expetativas é de que a partir do verão, tão breve quanto possível, se possa retomar alguma normalidade, e sobretudo no último trimestre, já assistamos a uma recuperação mais consistente do que um período normal. Mas tudo isto, como é sabido, está muito dependente de fatores externos e alguns deles nós ainda não conhecemos. Se há coisa que a pandemia nos tem demonstrado é que há sempre surpresas e nem sempre são boas", conclui João Fernandes.

Também o presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas, já se pronunciou sobre a medida do Reino Unido, embora reconheça que as previsões para esta época do ano já não eram animadoras. "Sem o problema sanitário resolvido, não é possível restabelecer os fluxos turísticos oriundos de outros países, designadamente o Reino Unido, que, como sabemos, é o nosso maior fornecedor de turistas", afirmou Elidérico Viegas numa entrevista à rádio Observador.

"As nossas previsões para este verão mantêm-se inalteradas, ou seja, contamos sobretudo com a procura do mercado interno e eventualmente com alguma procura externa, mas muito residual", diz o presidente da AHETA, acrescentando que acredita que este ano será semelhante ao ano passado, que foi "o pior ano de sempre" em termos de turismo.

Como é que os hotéis encaram a possível restrição do Reino Unido?

Voo, dormida e comida são os requisitos essenciais para qualquer viagem, e os três mais afetados pela medida que o Reino Unido quer impor. É nas maiores cadeias hoteleiras do Algarve que muitos britânicos fazem habitualmente as suas férias e os responsáveis pelas unidades algarvias já começam a prever o cenário que aí vem.

Thomas Schoen, diretor geral do Pine Cliffs Resort, diz à MAGG que as recentes notícias "são preocupantes do ponto de vista hoteleiro", uma vez que é do Reino Unido que vêm os principais hóspedes da cadeia. "O mercado nacional é forte, mas não o suficiente para cobrir a oferta hoteleira existente. Além de que, tipicamente, as férias dos portugueses concentram-se essencialmente no mês de agosto. É essencial que possamos contar o quanto antes com a procura de mercados estrangeiros tão importantes como o Reino Unido", afirma.

No ano passado, o Pine Cliffs Resort viveu um cenário semelhante quando Portugal foi excluído do corredor aéreo do Reino Unido, mas Thomas Schoen lembra que mal as fronteiras abriram em agosto as reservas aumentaram na ordem dos 56%. "Precisamos do turista britânico rapidamente, de poder voltar a contar com ele, que tipicamente adora Portugal, e que se sente mais seguro cá, sobretudo na privacidade de um resort como o nosso", refere.

A urgência deve-se não só ao facto de o verão começar condicionado pela restrição que o governo britânico está a planear, como também por um setor já por si só fragilizado. "As penalizações poderão afastar os turistas de viajarem mais cedo, como previsto, e terão um impacto significativo nos resultados deste ano relativos à indústria do turismo, que até à data se mantêm altamente preocupantes", continua o diretor geral do Pine Cliffs Resort.

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Também Jorge Lopes, Head of Resorts & Luxury Sales Southern Europe – Minor Hotels — que detém as unidades Tivoli Hotels & Resorts, cinco delas no Algarve onde o fluxo de turistas britânico corresponde a cerca de 40% das dormidas — traça perspetivas pouco animadoras. "Prevemos que esta nova medida tenha um impacto negativo com o cancelamento de algumas reservas, especialmente para os meses de maio, junho e julho, até que exista uma nova comunicação mais concreta por parte do Governo do Reino Unido", refere.

Tal como no Pine Cliffs Resort, também nos hotéis Tivoli no Algarve o mercado nacional e espanhol tem uma forte expressão, por isso, caso os turistas britânicos não possam deslocar-se para Portugal, Jorge Lopes tem esperanças neste mercado que já no ano passado contribuiu para parte das reservas no verão. "Acreditamos que este ano não será exceção, com indícios de crescimento face aos anos anteriores nas reservas que já temos em carteira para os meses de verão, motivado pelas restrições de viagens para outros países e pela segurança da proximidade de casa", conclui.

No entanto, apesar de os britânicos poderem ficar sem viajar até ao fim de junho, as limitações podem até trazer alguns benefícios a nível nacional. "Podem relevar-se uma oportunidade para o mercado imobiliário em Portugal. Sem indicações sobre o impacto da lei no que diz respeito à residência em Portugal, cabe ao setor imobiliário atrair o investidor britânico a comprar casa no nosso País, mesmo que seja como segunda residência", diz Daniel Correia, diretor geral de Real Estate do grupo United Investments Portugal (dona do Pine Cliffs Resort), à MAGG.

Assim, do ponto de vista imobiliário, esta pode ser uma oportunidade para atrair turistas para Portugal. "Desta forma, os britânicos que adoram o resort poderiam continuar a usufruir do espaço", remata Daniel Correia.

"Muitas pessoas reservam primeiro o Maria's e depois é que reservam o hotel"

Miguel Campina é proprietário do Maria's Restaurant  &Beach, em Almancil, no Algarve, que tem estado de portas fechadas, mas já com data de abertura marcada em linha com o plano de desconfinamento. O dia 5 de abril é o mais esperado pelos estabelecimentos de restauração com esplanadas — que poderão receber no máximo quatro pessoas por mesa —, bem como pelos clientes que já começam a encher a lista de reservas do Maria's.

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"Nós temos uma afluência de reservas incrível, mas tudo residentes. Tudo pessoas com casas fixas, isto é, as nossas reservas não vêm dos hotéis. Aliás, muitas pessoas reservam primeiro o Maria's e depois é que reservam o hotel", afirma Miguel Campina, que começou a receber reservas mesmo com o restaurante fechado.

"O impacto não vai ser muito forte, pelo menos nesta zona do concelho de Loulé, porque nós temos muitos residentes estrangeiros", continua o proprietário do Maria's, acrescentando que os estrangeiros, incluindo britânicos, preferiram ficar em Portugal a fazer o confinamento. "Só houve uma exceção. Desde que foi descoberta a vacina, assim que puderam, muitos voltaram ao país de origem, nomeadamente o Reino Unido, para receber a vacina um pouco mais cedo do que a União Europeia".

Deste modo, a possível restrição de viagens para os turistas vindos do Reino Unido não assusta Miguel Campina, que reconhece que os britânicos representam 70% do mercado na área da restauração durante oito a nove meses.

"O Algarve criou resistências e trabalho o ano todo. É por isso que tem havido uma grande procura imobiliária e de negócios no Algarve, porque tem produto para os 12 meses", afirma Miguel Campina — ideia que vai ao encontro da perspetiva do diretor geral de Real Estate do grupo UIP sobre a oportunidade de negócio no setor imobiliário com as restrições britânicas.

Neste momento, e com a medida que o Reino Unido está a preparar, Miguel Campina refere não é possível programar ou fazer planos futuros, até porque enquanto hoje as perspetivas são de restrição mas, de um momento para o outro, as companhias aéreas podem voltar a operar e a restauração passa de uma "situação deprimente para uma situação expoente em termos de trabalho no Algarve".

Miguel Campina é proprietário do Maria's e ainda de outros dois restaurantes — Bamboo e Alambique, em Almancil — e o único dos três restaurantes que esteve a funcionar durante o confinamento foi o Bamboo, que por ter comida asiática foi possível adaptar ao take away. Já nos restantes, como o Maria's mais focado na comida tradicional portuguesa e peixe fresco, não foi possível reinventar os conceitos. "São coisas que não posso levar a casa das pessoas", reconhece o responsável.

A nova medida, que será debatida esta quinta-feira no Reino Unido, surge na sequência da preocupação do governo britânico com as novas variantes do SARS-CoV-2 e quer evitar uma terceira vaga no país. Para que a medida seja cumprida, será imposta uma multa de 5000 libras (quase 6000€) para quem se dirigir a um aeroporto ou porto marítimo para sair do Reino Unido, de acordo com o jornal "The Telegraph". Há apenas algumas exceções previstas, como é o caso de viagens para as Ilhas do Canal, Ilha de Man e República da Irlanda.

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