Mais do que "casamento encomendado", Payal (nome falso) prefere o termo "casamento arranjado" na medida em que, segundo a tradição indiana, os potenciais parceiros são apresentados um ao outro por sugestão da família. O objetivo é o de reforçar os valores como o da união e evitar possíveis choques culturais entre pretendentes e respetivas famílias.

"Na nossa cultura, um casamento não acontece apenas entre duas pessoas, mas sim entre elas e as suas duas famílias que têm uma preocupação muito grande com essa harmonia", explica Payal, uma mulher portuguesa vinda de Gujarate, um dos estados da Índia, pertencente à comunidade gujarati — uma das mais predominantes em Portugal.

Indian Matchmaking
Netflix

Embora a tradição ainda hoje seja cumprida dentro da comunidade indiana, o tema ganhou maior destaque no início de julho com a estreia do novo reality show da Netflix chamado "Indian Matchmaking". Ao longo de oito episódios, a produção acompanha Sima Taparia, uma casamenteira que tenta encontrar o par perfeito para os seus clientes, nos EUA e na Índia, abordando a tradição indiana e a forma como esta é aplicada em pleno século XXI.

A definição do termo "casamento arranjado"

O termo "casamento arranjado", no entanto, pode remeter para uma realidade muito diferente daquela que, geralmente, é tida como habitual. Ainda que seja verdade que há casos em que há uma obrigatoriedade do casamento e uma restrição conservadora da vontade da mulher, Payal diz que isso acontece "nas zonas mais rurais da Índia, onde este tipo de costumes são praticados há várias gerações e onde não se conhece outra realidade que não aquela."

Nas grandes cidade e nas zonas mais cosmopolitas, no entanto, dentro e fora da Índia, a história é outra — e os casamentos são, regra geral, consensuais entre ambas as partes. Mas há uma grande preocupação entre as famílias para que qualquer que seja o pretendente do homem ou da mulher, este tenha a capacidade de se integrar na família ao estar familiarizado com a cultura e os seus costumes.

Para Payal, estas preocupações são válidas e perfeitamente legítimas, já que têm como base a densidade populacional da Índia com mais de 1.3 mil milhões de habitantes. "Quando se compara alguém do sul dos Estados Unidos com alguém do norte, facilmente percebemos que os habitantes talvez tenham participações religiosas diferentes, com costumes diferentes e com maior ou menor conservadorismo entre si. Acontece o mesmo na Índia onde as diferenças são igualmente grandes."

E continua: "Há mais de mil dialetos, muitas religiões com deuses diferentes e a própria comida é diferente. No fundo, é quase como se fôssemos de países diferentes onde até as formas de vestir são diversas."

A explicação é pertinente para entender o receio que a família de Payal, uma mulher hindu e gujarati, sentiu quando foi apresentada à pessoa que ela tinha escolhido para casar. É que ainda que o seu marido tivesse nascido na Índia e fosse hindu, também era verdade que vinha de uma comunidade muito diferente da dela.

"O receio inicial dos meus pais, portanto, esteve assente na dúvida de não saberem se teríamos bases estruturais que nos permitisse ter um casamento sólido, que é tudo o que a maioria dos pais quer garantir para os seus filhos. A língua que os meus sogros falam em casa é hindi. Na minha casa, falo gujarati. São línguas com particularidades muito específicas e só o facto de não sermos de zonas iguais da Índia, com culturas e hábitos muito diferentes, foi um grande fator de estranheza."

E ainda que esse tempo de aceitação tenha sido relativamente curto, uma vez que a família de Payal é, segundo a própria, muito liberal e com uma relação assente na comunicação aberta, reconhece que do lado do marido a situação foi ligeiramente diferente. "Ainda que não tenha sido um casamento arranjado, as preocupações que os meus sogros tinham eram exatamente as mesmas dos meus pais. Será que o filho deles iria ter um casamento estável e sólido? São questões que eu também terei sobre os meus filhos", conta.

Apesar da reserva e de alguma relutância inicial, Payal refere que bastou que todos se conhecessem para "perceberem que se cultivavam os mesmos valores de união e de família". "Se calhar não sou tão tradicional como esperariam ou gostariam que fosse, mas perceberam que aquela barreira inicial que interpuseram não fazia sentido e deram-nos a sua bênção para casar."

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"O meu marido foi paciente e insistente até porque era comigo que queria ficar. Quando me conheceram, e perceberam que se cultivavam os mesmo valores na minha educação e família, deram a sua bênção. Mas claro que houve uma barreira inicial porque aquele não era o cenário ideal que eles tinham concebido. Preferiam alguém que tivesse sido recomendado por eles, como num casamento arranjado", esclarece. Entre o primeiro contacto e a oficialização do matrimónio passaram seis meses.

Por isso não tem dúvidas de que se tivesse escolhido casar com alguém de outra nacionalidade, as dificuldades teriam sido muito maiores devido ao choque cultural. O mesmo é válido para o seu marido.

"Se ele tivesse levado alguém lá a casa que não fosse indiana, provavelmente não teria sido bem aceite". Mas defende que não se trata de uma questão de racismo ou xenofobia, mas sim de "escolher alguém que já estivesse inteiramente integrado na nossa cultura e que, por isso, tivesse um conhecimento total" dos costumes e das tradições da família.

A mesma ideia é defendida por Sara (nome falso), que nasceu em Portugal e se identifica como muçulmana Shia Imami Ismaili, uma comunidade com um líder vivo, Aga Khan, e que, com descendência direta de Maomé e uma liderança ativa, promove o pluralismo e conduz os seus seguidores a "praticarem a sua fé, adaptando-a a uma sociedade e realidade contemporânea".

"Isto significa que se o Islão disser que devemos rezar cinco vezes ao dia, nós por hábito só rezamos três porque trabalhamos e parar para rezar, especialmente no Ocidente, é difícil. Isso ajuda-nos a praticar a nossa fé num país não muçulmano", revela por telefone à MAGG. Mas, diz Sara, isto não significa que, em termos culturais, os seus pais não preferissem que a sua filha se casasse com alguém da comunidade para preservar a "defesa dos valores de união e família, bem como a prática da religião".

Aga Khan, o líder espiritual da comunidade Shia Imami Ismaili que, através da sua liderança, conduz os seus seguidores a praticarem a sua fé adequando-a ao mundo contemporâneo

"Apesar de as pessoas mais velhas da nossa comunidade, vindas de outras gerações, continuem a querer que nos juntemos com pessoas da nossa comunidade, somos mais progressistas e estamos muito mais abertos a conhecer pessoas de outras religiões." Prova disso foi o casamento de Sara com um cristão batista, também português.

"Apesar de ele ser português, com hábitos a que estou acostumada e que eu também tenho, existem coisas na personalidade dele que eu percebo porque também ele percebe a minha cultura, as roupas, as músicas e tem algumas ligações à cultura indiana porque a mãe dele faz parte da comunidade", conta. Embora sejam de comunidades e de religiões diferentes, os valores prezados pela família estavam lá. E isso permitiu o casamento sem que, pelo meio, houvesse conflito.

Mas, claro, não se tratou de uma aceitação imediata. "Os meus pais vivem fora, mas casámos três anos depois de sermos apresentados às respetivas famílias. O facto de ele ser cristão não serviu para um afastamento, porque depressa se percebeu que o facto de ter um Deus único e de prezar a união em família eram valores partilhados."

"Na Ásia, existe uma obsessão louca pela pele branca"

Embora nem Sara nem Payal tenham tido casamentos cujos parceiros foram recomendados ou sugeridos pela família, ambas reconhecem que há uma vontade, e um aconselhamento — palavras que preferem a "pressão" — , dentro da própria comunidade, para que um matrimónio se materialize. Nesse aspeto, consideram, ainda que não se orgulhem disso, que aquilo que se vê em "Indian Matchmaking" não é exagerado.

Essa vontade e esse aconselhamento, diz Payal, está assente na ideia de que tanto o homem como a mulher têm de corresponder a uma série de atributos para serem considerados os candidatos ideais numa relação.

"Quando me casei, a família do meu marido tinha uma ideia daquilo que uma mulher e um homem deveriam ser. Além do nível elevado de educação, qualquer candidato tinha de vir de boas famílias e corresponder a certos atributos físicos — como ser alto, magro, ter uma boa estrutura de corpo e pele clara." Mas a questão racial, adianta, não é um problema só da comunidade indiana — mas sim do mundo inteiro.

"Na Ásia, existe uma obsessão louca pela pele branca e isso tem muito que ver com os média, com Hollywood e com o fascínio pelo que ainda hoje são considerados os padrões máximos da beleza", refere.

E continua: "Essa ideia está embutida no nosso ADN porque, desde muito cedo, somos formatados para achar que, para sermos bonitos, temos de ser tal como essas figuras que são promovidas como o arquétipo da perfeição. Na Índia, tal como no mundo inteiro, há muito esse preconceito de que a beleza máxima é a beleza ocidental e das peles brancas. Mesmo que o tom de pele de pessoas vindas do sul da Índia seja tão ou mais escuro do que o das pessoas de África."

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Mas Payal não tem dúvidas de que a pressão para que o potencial em casamento não seja "diminuído" está mais do lado da mulher.

"Muitas vezes estas têm de ter perspetivas de carreira, estudos e ainda desempenhar todo o tipo de tarefas domésticas para serem consideradas boas candidatas. Os homens também têm alguma pressão, mas infelizmente a sociedade continua a atribuir mais peso de importância às mulheres no que toca ao desempenho destas tarefas." E mesmo que seja um problema mundial, Payal diz que na cultura indiana "as coisas ainda precisam de ser um bocadinho modernizadas".

Essa mudança, diz, também é feita por si. "A minha geração é a primeira a nascer em Portugal e somos nós que estamos a mudar. Tive oportunidade de estudar, de trabalhar, de ter expectativas de carreira e em casa, as lides são divididas a 50% com o meu marido. Quando olho para a realidade de algumas das outras comunidades, onde há essa desigualdade, não gosto. Mas estou no meio de duas gerações — a dos meus pais e a dos meus filhos — e preciso de ser eu a fazer a mudança para que ela aconteça e se reflita neles à medida que vão crescendo."

Os casamentos "arranjados" (e modernos)

Ainda que nas zonas rurais e nas comunidades mais conservadoras haja uma obrigatoriedade de os noivos casarem com quem os pais escolhem para ser o parceiro dos filhos, tanto Sara como Payal defendem que esta ideia não deve ser generalizada nem tida como regra.

O que acontece nas grandes cidades e nos vários países onde a comunidade indiana se foi instalando é, nas palavras de Sara, "um aconselhamento". E não olha com maus olhos para essa ideia. "Se acontecesse não ter namorado e não estar interessada em alguém em especial, porque não ouvir os conselhos dos meus pais? Porque não perceber quais seriam as sugestões deles?", pergunta.

Quando questionamos sobre como se materializariam essas sugestões, Sara dá exemplos de uma conversa hipotética que poderia surgir neste contexto: "[Este rapaz] estuda, trabalha, tem boa conduta. O que é que achas?", imagina os pais a perguntarem-lhe.

Depois disso, explica, seria um caso de marcar um encontro e tentar perceber se haveria química entre ambos. "É uma prática que, culturalmente falando, não me faz confusão", adianta.

E mesmo que o seu casamento não tenha sido "arranjado" — no que toca ao uso tradicional do termo —, admite que foi um "arranjinho" na medida em que o encontro com o seu marido foi sugerido por um amigo em comum que achava que ambos se iriam dar bem. "Começou tudo a partir daí e ele não tinha ligação nenhuma com a comunidade indiana. E o meu caso é talvez um exemplo de como as coisas são feitas em algumas comunidades hoje em dia."

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Mas há também o uso do chamado Bio Data que, no fundo, não é mais do que um pedaço de informação — em formato digital ou em papel — que serve para fazer uma breve apresentação do perfil da pessoa a outras. Esta, tal como ela, também procuram um relacionamento sério que possa materializar-se em matrimónio. Por isso, o conteúdo do Bio Data, que é mencionado no reality show "Indian Matchmaking" e é analisado pela casamenteira, não é muito diferente daquilo que se vê nas biografias de serviços como o Tinder, por exemplo.

Hoje, explica Payal, os casamentos ditos "arranjados" são mais modernos em que as pessoas antes de apresentadas uma à outra "são pré-aprovadas pela família, pela comunidade e que, no caso de ambos se darem bem, é mais fácil oficializar o matrimónio porque os pais já aprovaram a relação."

E no caso de os filhos não aprovarem os candidatos que lhes são apresentados? "É possível recusar porque não há uma obrigatoriedade de matrimónio com aquela pessoa", explica Payal que dá o exemplo de uma das suas tias.

"A minha tia casou com uma pessoa sugerida pela família que achavam que iria funcionar. E funcionou, mas antes disso já tinha sido apresentada a duas pessoas a quem disse que não. Isto nos anos 80. Está feliz desde então."

A sua prima também casou da mesma forma, mas em 2010. "Foi apresentada ao marido por alguém da família depois de dizer que não a algumas pessoas e, depois de um encontro, viram que tinham muita coisa em comum e acabaram a namorar. Meses depois, estavam casados e felizes", conclui, reforçando a consensualidade desta prática em pleno século XXI e inserida nos costume da sua cultura.

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