Foram ali colocadas pela Mocidade Portuguesa as mesas vermelhas em que apoiamos as mãos. Estamos sentados numa sala de estudo e de convívio que até há pouquíssimos meses era bastante maior. Colocaram-se paredes, que deram origem a novos quartos, uns quantos reservados, exclusivamente, para quem possa adoecer com o novo coronavírus — ou para quem seja suspeito de estar infetado.

Estamos na Residência Filipe Folque, espaço que outrora havia pertencido à juventude do Estado de Salazar, tendo depois passado para o Estado pós-25 de Abril, seguindo, depois, para as mãos da Universidade de Lisboa (UL).  É uma das 16 e uma das mais e fica nas Avenidas Novas, bem no coração da cidade. É Rita Casquilho, diretora dos Serviços de Acção Social, quem recebe a MAGG, juntamente com Dona Francisca, a responsável por aquele espaço que, todos os anos, acolhe centenas de alunos — de ano transitado, acabados de chegar ou até vindos de outros países. Com a distância devida, são elas que nos explicam tudo sobre o modo de funcionamento deste espaço que, como tantos outros, sofreu alterações com a chegada da COVID-19.

Antes de mudanças a nível de espaço, Rita Casquilho salienta um dos pontos que considera mais importantes: a responsabilidade do próprio aluno.

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Os quartos de duas camas na residência Filipe Folque

"Como qualquer cidadão, o aluno tem de interiorizar que tem de pensar nele e nos outros. É um trabalho diário. As responsáveis das residências têm indicação de que qualquer aluno que saia do quarto sem máscara tem de ser chamado à atenção. As residências não têm permanência de um responsável 24 horas. O aluno é adulto e tem de ter consciência e é nisso também que apostamos.”

As vagas estão praticamente todas preenchidas, sendo que a prioridade vai sempre para os alunos bolseiros. Neste caso, alunas. “Ia tornar-se numa residência mista, mas por causa da COVID tivemos de adiar esse plano”, explica Rita Casquilho.

Há pouco movimento nos corredores dos seis andares em que a residência se ergue, ainda que, dos 69 alunos, já quase todos tenham chegado. Faz sentido. Por dois motivos: por um lado, muitos dos jovens estão em horário de aulas, por outro é consequência dos tempos pandémicos que se vivem. É que, apesar de haver salas de estudo disponíveis (mas com lotações diminuídas) é nos seus quartos que eles se atiram aos livros. "Em termos de saúde é bom, mas de resto é péssimo, porque não podem conviver. Mas, pronto, agora tem de ser assim."

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Logo à entrada, vemos os avisos que, em parte, também justificam aquela calma: além da regra que diz que todos os alunos têm de circular de máscara pelos corredores e espaços comuns, o reitor avisa que, este ano, não são permitidas visitas vindas de fora da residência.

No ano em que se bateu o novo recorde de entradas no Ensino Superior, com 51 mil alunos a ingressarem, a capacidade das residências foi reduzida. Mas não está tudo perdido. Tendo em conta esta diminuição, o Estado assinou recentemente um acordo que vai permitir que os jovens possam instalar-se em hotéis, pousadas da juventude e unidades de alojamento local. “Cerca de mais 4.500 novas camas serão disponibilizadas em todo o país para os estudantes do ensino superior, através de pousadas da juventude, alojamentos locais e hotéis, representando um aumento de 16% face ao total de camas disponibilizadas no ano letivo anterior”, anunciou Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior a 21 de setembro.

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Rita Casquilho e Dona Francisca na residência Filipe Folque

Na Filipe Folque, onde antes cabiam 76, cabem agora 67. Nos quartos onde antes cabiam três, agora cabem só dois. Nos quartos em que cabiam dois, ainda quase sempre cabem dois, consoante os metros quadrados. É que as distâncias de segurança não se aplicam só ao convívio de pé ou sentado e, assim, também as camas devem respeitar a medida dos dois metros. Neste caso, é o que acontece. Há ainda os nove quartos de reserva, quase todos no segundo piso, que servem para alojar potenciais suspeitos ou portadores do vírus. Neles, há medicamentos e luvas. Se for o caso, coloca-se um frigorífico e um micro-ondas para que nada falte. "Soluciona se forem meia dúvida de casos. Mas se forem 100...", diz. As nove camas que foram

76 camas, sendo que 9 disponíveis para a contingência Covid -19, assim ficam disponíveis 67 camas. Até agora, não se contabilizou um único caso em nenhuma das residências da Universidade de Lisboa. “Esperemos que continue assim.”

O prédio desta residência assemelha-se à década da sua construção, em meados do século XX, como tantos outros desta zona de Lisboa. Os tetos são altos, os corredores são estreitos e há portas que não acabam. Se não tivéssemos Rita Casquilho e Dona Francisca connosco, o mais certo seria perdermo-nos por entre aqueles seis andares.

Por cada piso, há uma cozinha e três a quatro casas de banho. O gel desinfetante está em todo o lado, as portas estão todas abertas — excepto as dos quartos, claro — para que se evitem os toques sucessivos nas maçanetas, havendo ainda muitas janelas escancaradas para que o ar possa circular. Logo à entrada, tapetes de desinfecção para os pés. Um serve para limpar as solas, o outro serve para secá-las.

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O tapete de desinfecção na Filipe Folque

Dona Francisca tem sotaque açoriano, mas é alentejana. "É o alentejano misturado com o francês", diz-nos. Tal como Rita Casquilho, fala-nos sobre o impacto positivo que uma vivência de residência tem nos estudantes que por ali passam. “Chegam sem saber fritar um ovo”. Saem, adultos, a saber fazer muito mais do que isso.

Lotação limitada na cozinha e proibição de convívio à hora das refeições

Natividade Pais é o equivalente a Dona Francisca, mas agora no residência Alfredo de Sousa, no campus da Universidade Nova, em Campolide, onde trabalha há 38 anos. Muitos tratam-na por mãe. “Entram aqui crianças e saem homens feitos”, diz-nos também, referindo as amizades, namoros e casamentos que naqueles sítio viu nascerem. As visitas de fora aqui também estão interditas. “Mesmo as mercadorias são deixadas na recepção", explica-nos Iva Matos, a diretora dos Serviços de Apoio ao Aluno, e João Albuquerque Carreiras, do Gabinete de Cultura, Comunicação e Imagem, ambos dos Serviços de Acção Social da Universidade Nova.

Neste campus, onde ficam as a Faculdade de Direito e a NOVA Information Management School - NOVA IMS, a residência é mais moderna, não tivesse sido construída muitas décadas depois. Uma placa no rés-do-chão diz-nos que a inauguração aconteceu em 1997. Mas as regras aplicadas são em tudo semelhantes: dispensadores de álcool gel por todo o lado, redução na lotação, espaço arejado, máscara obrigatória. A prioridade de alojamento é para quem mais precisa: bolseiros, sobretudo de primeiro ano.

Há avisos em todas as paredes: “As refeições devem ser realizadas no tempo adequado, não sendo permitido fazer convívio na zona de refeições”; “O uso de máscara é obrigatório em todos os espaços comuns, sendo apenas permitido retirar a máscara, só e mesmo só, durante a refeição."; “Lotação máxima da cozinha: duas pessoas.”

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Iva Matos, diretora dos Serviços de Apoio ao Aluno, dos Serviços de Acção Social, da Universidade Nova

Logo à entrada, fazem-se arranjos numa antiga sala de estudo. Iva Matos explica-nos mais à frente que será a sala COVID. A escolha do local não foi ao acaso. Foi uma questão de estratégia. É que quanto mais perto da saída, melhor, pois assim garante-se que os contactos com as restantes superfícies são mínimas. “Assim, se houver algum caso, não fica a zona toda interdita”, explica.

Também na residência deste campus diminuiu-se a capacidade para alojar alunos. Nos tempos pré-COVID, no total, havia 180 camas, tendo sido, agora, retiradas 58, ficando 122 disponíveis. Na residência da Nova do Lumiar, havia 70 camas, foram retiradas 21, sobrando 49. E na Fraústo da Silva, na Caparica, havia 210 camas, tendo sido retiradas 64. Sobraram 146. Ao todo, as residências desta universidade alojavam 460 alunos, recebendo agora 317. São, no total, menos 143 espaços para dormir.

Além de dois apartamentos, que tinham capacidade para duas pessoas (onde agora, em cada, só cabe um), nesta residência de Campolide os alunos ocupam, sobretudo, um dos 56 módulos. Entra-se por uma porta, tem-se acesso a um pequeno hall, onde fica uma casa de banho, havendo depois outras duas portas: uma que dá acesso a um quarto que sempre fora para um e outra que deixa entrar no quarto que era duplo e que passou a singular. Nestes, os colchões foram retirados, mesmo para que se perceba que ali só pode estar uma pessoa. Nos individuais não se mexeu, nos apartamentos T1 e T2 também não. Não foi necessário.

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A entrada da residência de estudantes no campus da Universidade Nova.

Tal como na Filipe Folque, todos os quartos têm uma secretária por cama. É a nossa primeira vez numa residência universitária e recordamos todos os filmes que já vimos e que têm lugar neste sítio. “É mesmo igual”, pensamos, com uma inusitada vontade de regressar aos tempos de estudante para pertencermos à comunidade que vive na universidade.

Com limpeza reforçada, como na Universidade de Lisboa, há em Campolide uma lavandaria e cozinha por andar, com os tais avisos para que os utilizadores não demorem muito tempo, com os armários selados com fita amarela e branca, o que significa que não podem ali armazenar nada. Só mesmo no frigorifico. Pede-se a todos os alunos que prefiram usar as escadas ao elevador. E nas salas de estudo, que continuam a funcionar, retiraram-se também algumas mesas para que também aqui a lotação ficasse mais reduzida. Nas que sobraram, há avisos que indicam os lugares que podem, e não podem, ser ocupados.

E assim como na Universidade de Lisboa, as portas comunitárias ficam abertas para evitar os contactos, muitas de cadeira encostada para garantir que as correntes de ar não levam a melhor. No chão, temos setas a indicar o sentido de circulação. Já esteve um miúdo em isolamento, com o sangue frio de quem estuda Medicina. Mas foi só por suspeita, o caso não se veio a confirmar. Deixavam-lhe a comida num tabuleiro à porta do quarto para que a fome não apertasse.

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Uma cama retirada de um quarto duplo da residência da Nova

De resto, não houve casos e ainda bem. Iva e João dizem-nos isto com algum alívio e convictos de que os zero covid possam ser um sintoma das boas políticas ali implementadas, aquelas a que os alunos têm estado a aderir. Mas também com a preocupação de quem não sabe o futuro. Também é assim com Rita Casquilho e Dona Francisca. Nunca ninguém soube o que é que vai acontecer. Muito menos agora.

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