Em 1909, era lançada em Portugal uma revista chamada "O Vegetariano". Não, não nos enganámos na data, é mesmo 1909. Esse órgão promovia a alimentação vegetariana e partilhava informações nutricionais e receitas para toda a família. Repetimos, isto em 1909.

O vegetarianismo não é de agora, não é uma moda, nem é uma esquisitice. E é por isso que Sandra Gomes Silva, mais de um século depois do lançamento dessa revista, se lança num blogue com o mesmo nome, na esperança de atualizar a informação e de a espalhar pelo mundo.

Na sua página, assim como no Instagram, encontra receitas, é certo, mas não é esse o foco. Licenciada em Nutrição e a frequentar agora uma pós-graduação no Brasil em alimentação vegetariana, Sandra vai ao fundo das questões. Em vez de ensinar a fazer leite vegetal, faz uma comparação nutricional das diferentes opões de mercado. Em vez mandar tomar suplementos — ainda que não os descarte —, faz listas de alimentos ricos em proteína e ferro. Em vez de mandar comprar tofu e seitan, divide o prato ideal em três elementos simples e com nomes que todos percebem: leguminosas, cereais e hortícolas.

Aos 28 anos, compilou toda a informação em livro. Informação essa que adquiriu ao ler muito e ao estudar fora do País. É que quando tirou o curso de nutrição, vegetarianismo não era matéria que fizesse parte do currículo.

Veggie. Há uma nova revista de receitas vegetarianas
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Continua a ser a única vegetariana entre amigos e família, mas não se importa nada com isso. Não impõe regras mas também não querem que a chateiem com comentários que comecem com "coitadinha".

N' "O Vegetariano" Sandra quebra mitos, dá respostas e ensina a fazer a transição para uma alimentação de base vegetal. À MAGG fala sobre B12, sobre crianças vegetarianas e sobre a energia que sente quem decide pôr a carne de lado.

Se quisesse convencer um carnívoro a provar um prato vegetariano, o que é que escolhia?
Hum… tenho que pensar. Bom, acho que seria um prato parecido com aqueles onde tradicionalmente há carne ou peixe. Pode ser um Alho Francês à Brás, uma feijoada, uma lasanha. São pratos que não têm carne, mas as pessoas nem sentem a falta. Não ia lá com bifes de tofu ou algo do género.

Até porque não é só de tofu que se faz a alimentação de base vegetal.
De todo. A base da alimentação vegetariana são alimentos super simples, que se encontram em qualquer supermercado. Podemos usar feijão e grão, ainda que o tofu e o seitan tenham aparecido depois e são alternativas válidas e que ajudam a variar.

O crescimento do interesse por este tipo de alimentação era inevitável?
Sim, e tenho a certeza que vai continuar a crescer em Portugal e em todo o mundo. Não só porque há mais oferta, o que facilita esta escolha, mas também por questões de saúde, éticas e ambientais.

Qual foi a sua?
Toda a minha motivação inicial foi ética: decidi deixar de comer carne porque não queria causar morte e sofrimento aos animais. Quando fui para a faculdade, saí de casa dos meus pais, em Barcelos, para ir viver para o Porto. Eu, que nunca fui muito fã de carne, decidi cortar assim que tive uma aula de Anatomia Prática, na qual temos os cadáveres todos à nossa frente. Olhei para aquilo e percebi que aquilo de que somos feitos é muito semelhante àquilo que comemos. Quando me deparei com aquele cenário, pensei: "Se eu não comeria este cadáver, também não comeria o de um animal". Sabia que não precisava de comer um animal para me alimentar e ser saudável. Nessa altura ainda comia peixe, porque não fazia ideia de como me alimentar não comendo carne. Mais tarde fui aumentando o número de refeições vegetarianas e, na altura, nem sequer fazia ideia do que se passa na indústria dos laticínios e ovos. Em 2014 deixei de comer peixe e em 2016 deixei os ovos e os laticínios.

O curso de nutrição ajudou?
Nem por isso. Na altura não se falava disso durante o curso e mesmo quando acabei a licenciatura, não me sentia preparada para atender vegetarianos. Tive que estudar muito, ler muito, investigar muito. Mesmo agora, quando há formações para nutricionistas ou profissionais de saúde, sou eu que dou.

Por ser nutricionista, sente que a sua decisão foi mais facilmente aceite?
Eu sou a única vegetariana da minha família e amigos. E, se no início, achavam que era só uma fase, rapidamente perceberam que não. As pessoas percebem porque eu explico as minhas motivações: não quero causar morte e sofrimentos aos animais e as pessoas dizem ok.

Ainda assim, sente que está sempre a remar contra a maré?
Ainda existem muitos mitos. As pessoas assumem que a alimentação vegetariana é muito cara, ou muito difícil, que é baseada em alimentos processados, ou que vêm do outro lado do mundo. Isso não é de todo verdade. Ah, e acreditam também que assim que te tornas vegetariano, cinco minutos depois vais ficar doente.

Mas mesmo no seu dia a dia, ainda sente dificuldades em ser vegetariana?
Eu deixei de comer carne há dez anos, peixe há cerca de seis e há quatro que não consumo nada de origem animal. E sou de Barcelos, onde só existe um restaurante vegetariano. Mas consigo desenrascar-me em qualquer restaurante, porque a base da nossa cozinha é vegetal. Em qualquer lado consegues pedir uns legumes, um arroz de feijão, umas batatas. Ainda assim, comer fora de casa ainda é um desafio, não só pela falta de opções, mas porque temos que lidar com os olhares e as opiniões das outras pessoas.

Que comentários já ouviu?
Já ouvi de tudo. As pessoas até reconhecem o teu ponto de vista, mas não querem sequer pensar nisso. E é nessas alturas que lançam os chavões: "Nós precisamos de comer carne", "Nós sempre comemos carne", "Eu nunca na vida vou deixar de comer carne". Há pessoas que quase que ficam ofendidas por sermos vegetarianos.

O que falta para que mais pessoas reduzam o consumo de carne? Informação? Vontade?
Os dois. Há cada vez mais informação, e cada vez mais informação em português, que era algo que faltava. Desde 2015 que já temos os manuais editados pela Direção Geral de Saúde, com dados muito úteis. E agora com as redes sociais, com o meu livro, as pessoas que querem mesmo informar-se vão poder fazê-lo. E talvez aí percebam que não é uma transição a ser feita da noite para o dia. E, já agora, que percebam que o vegetarianismo não é difícil, não é mau para a saúde, nem é só saladas.

Dia Mundial do Vegetarianismo. Como é ser vegetariano em viagem?
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Foi a vontade de informar que te levou a escrever este livro?
Sim, e é por isso que não é um livro de receitas. Tem algumas, é certo, mas não é isso que pretendo passar. Há muita oferta do género em Portugal e são bons livros para tirar umas ideias, mas continuas sem saber o que comer no dia a dia. Este livro serve como base para que cada pessoa saiba exatamente do que precisa. Depois sim, pode aventurar-se pelos livros de receitas.

Quem tem vontade de se tornar vegetariano deve começar por onde?
A primeira coisa que tem que fazer é olhar para a sua alimentação atual e perceber se o consumo de origem animal é muito elevado. Se assim for, o melhor é começar por reduzir gradualmente e começar a introduzir refeições vegetarianas. Aderir às segundas-feiras sem carne, optar por jantar sempre vegetariano e manter os almoços não vegetarianos. Mas se a base já for mais vegetal, aí a mudança pode ser mais rápida.

Consultar um nutricionista é fundamental nesse processo. Aliás, até deve começar antes da mudança, uma vez que mesmo quem come carne tem muitas vezes carências nutricionais.

E que diferença as pessoas vão sentir ao tornarem-se vegetarianas?
Relatam habitualmente sensação de bem-estar e mais energia ao longo do dia. A digestão é mais facilitada, e não há mais aquela sensação de peso no estômago depois da refeição. Tudo isso faz com que durmam melhor também.

E agora vou avançar com os chavões de quem não acredita que é possível ser-se vegetariano. Preparada?
Venham eles.

1. Um vegan tem sempre que tomar suplementação.
Não é verdade, mas normalmente suplementamos com vitamina B12. Assim como a vitamina D, não a conseguimos retirar da alimentação. A vitamina D conseguimos produzir através da exposição ao sol, mas a B12 não existe na alimentação de origem vegetal. Vem de alimentos fortificados como os cereais de pequeno-almoço ou a levedura nutricional e, caso se opte por esta versão, não será preciso suplementar. Na prática, a suplementação é mais prática e mais segura do que tentar garantir que todos os dias vou consumir aqueles alimentos fortificados. Mas a resposta é não, não é obrigatória a suplementação.

2. Se a alimentação vegetariana fosse saudável não havia necessidade de consumir alimentos fortificados ou suplementação.
A vitamina B12 não é produzida por animais, ela é produzida por bactérias ou fungos. A carne tem B12 porque as rações que servem de alimento aos animais são fortificadas por vitamina B12 ou porque as bactérias que estão no intestino desses animais produzem vitamina B12.

Antigamente, quando os solos eram mais ricos e não havia uma higienização tão cuidada, obtínhamos B12 através do que consumíamos da terra. Agora, é mais difícil ter a dose necessária, sendo vegetarianos ou não. Mesmo quem come carne peixe todos os dias pode ter falta de vitamina B12, já vi isso a acontecer várias vezes. Por isso, não é uma desculpa.

Na Índia, por exemplo, onde há muito vegetarianos, nenhum deles tem que tomar suplementação. Porquê? Porque não existem os cuidados de higiene que existem no mundo ocidental e, por isso, o que lhe vem dos solos é mais rico nessa vitamina.

Sandra Gomes Silva
O livro foi lançado pela Oficina do Livro e custa 18,90€.

3. Ser vegetariano é caro.
De todo. Pode ser caso se use produtos processados, exóticos ou superalimentos. Mas não precisas de usar nada disso. A alimentação vegetariana facilmente é mais barata do que a omnívora. Basta comparar o preço da carne com a das leguminosas, ou mesmo com o tofu. Há produtos mais caros sim, como é o caso das bebidas vegetais, mas mesmo esses valores estão a baixar. Ainda assim, fazendo as contas ao final do mês, a alimentação vegetariana pode ser bem mais barata do que a tradicional.

4. Vou engordar ao tornar-me vegetariano.
Não, conseguimos fazer tudo: emagrecer, engordar ou manter o peso. Há pessoas que até perdem peso ao tornarem-se vegetarianos porque retiram a carne da alimentação e não compensam em termos calóricos, aumentando a dose de comida a cada refeição. Mas se essa dose for adequada, o peso mantém-se, e se for superior o peso aumenta. É possível atingir o objetivo seja ele qual for.

5. A comida vegetariana é mais saudável.
Depende. A alimentação vegetariana pode ser saudável ou não, tal como a alimentação mais tradicional. Eu posso ser vegetariano e comer só batatas fritas e bolachas Oreo. Mas a maioria faz uma alimentação mais saudável, porque tem uma origem vegetal. Ou seja, preferem legumes, frutas, sementes, leguminosas, cereais integrais.

6. É impossível substituir a carne.
Em termos de sabor? Agora, com as novas invenções, nem isso se pode dizer. Em termos nutricionais, também não há nada que a carne ofereça que não se possa encontrar noutros alimentos.

7. Uma criança não pode vegetariana.
Há mais de 40 anos, altura em que esse tema começou a ser estudado, que sabemos que isso não é verdade. No entanto, prevalece o mito de que, por ser uma altura crítica de crescimento, pode haver uma carência nutricional. Mas uma criança pode ser vegetariana e até vegan. Eu atendo muito bebés vegan e eles crescem e desenvolvem-se normalmente.

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