No fim de semana começamos a ver stories a mostrar filas para a Primark daquelas que nos põem tipo carneirinhos a contornar fitas, como no aeroporto na hora do check in. Começam a subir-se uns calores, não só de pensar que as poucas horas de liberdade seriam passadas entre ares condicionados de um centro comercial, mas também porque quem é que quer alimentar uma cadeia capaz de ter filas gigantes à procura de T-shirts de 2€, quando duas portas ao lado da nossa casa, há quem lute para manter aberta a loja que já vestiu todo o bairro?

Foi com a missão de fugir aos shoppings que saímos de casa em busca de presentes de Natal. E para dificultar ainda mais a prova, decidimos escolher apenas uma rua de Lisboa. Mas vá, somos espertos, e optámos pela Avenida de Roma que, além de extensa, tem, porta sim porta sim, uma loja de rua, daquelas de onde não saímos com um logo conhecido no saco, mas a certeza de um atendimento personalizado.

E ainda que esta seja uma rua com história nisto do comércio tradicional, começamos por entrar num dos estabelecimentos mais recentes do bairro. A Fora do Saco é uma loja a granel, que veio dar a esta zona tão tradicional de Lisboa o hábito de voltar a comprar apenas a quantidade de que realmente precisa.

Lúcia Guedes Vaz aventurou-se na abertura deste negócio em setembro e, ainda que o tivesse feito a medo — não só pela pandemia, mas pela inexperiência na área — não podia estar mais satisfeita. "Só não tenho é tempo para descansar", refere, entre o lamento e o orgulho de ver a loja a crescer todos os dias.

Além de farinhas, leguminosas e chás a granel, Lúcia dedica uma parte da loja a produtos que evitam o desperdício. E é lá que encontramos as mais originais sugestões para presentes de Natal. É que apesar dos poucos metros quadrados do espaço, as surpresas são muitas e até uma linha de produtos de higiene em versão sólida para homem encontramos. Champôs, bálsamos e aftershaves, além de sabonetes artesanais e escovas de dentes de bambu. Tudo pode ser comprado individualmente, ou Lúcia pode compor um cabaz, totalmente personalizado, seja com produtos de higiene ou mesmo com produtos alimentares vendidos a granel.

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Lúcia tem ainda à venda um kit para que tenha sempre cogumelos frescos em casa. Na vitrine onde mostra o resultado dos seus dotes de pastelaria, estão já expostos os cogumelos que vão fazer parte do  menu de almoço, mas quem quiser, pode comprar um conjunto da Nam que transforma borra de café em cogumelos. Parece, mas estes não são dos mágicos.

E já que falamos em café, não podíamos sair sem beber aquele que já é conhecido por muitos como "o melhor café da Avenida de Roma". "Pelo menos é o que me dizem", admite Lúcia, que tem clientes a vir a pé da Praça de Londres para beber um Buondi orgânico.

A pensar no Natal, Lúcia já tem à porta um menu para encomendas. Conte com ela para um pudim Abade de Priscos, troncos de Natal e Pudins de ovos. Mas também para pratos de bacalhau, que só cozido é muito aborrecido. Aqui pode encomendar uma ceia feita de bacalhau, mas em forma de empadão, torta ou à Fiorentina, com todo o queijo a que temos direito.

Uma rua feita de tradição, mas onde não faltam novidades

Não foi preciso andar muito para voltar a encontrar uma loja daquelas que apetece entrar. Fátima Veiga Ferro recebe-nos na Living Wine e é pouco o espaço livre, tendo em conta todas as encomendas especiais que chegam nesta altura do ano.

Vinhos, licores, chocolates, panetones, utensílios de cozinha, queijos e charcutaria. Esta loja tem tudo para fazer um brilharete, seja com  queijo especial que leva para a consoada, como com o vinho que escolhe para oferecer o pai ou o cabaz de produtos portugueses que serve de troca de prendas da empresa.

Fátima está otimista para o Natal, ainda que os fins de semana a acabar às 13 horas e o limite de três pessoas por loja lhe afetem severamente o negócio. "Tenho pessoas a desistir quando, ao sábado de manhã, a fila se acumula lá fora", refere. A empresária tem ainda bem presente os três meses que estiveram encerrados, mesmo ali a bater na Páscoa, outra das épocas fortes na loja. "Tive que deitar fora 7 mil euros em perecíveis. Ainda levei chocolates para casa, mas ninguém era capaz de dar vazão àquelas quantidades", lembra.

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Agora, com as contas a começar a equilibrarem-se, conta com muitas encomendas de cabazes de Natal, mais até do que nos outros anos. "As empresas, à falta de jantares e festas de Natal, optam por oferecer cabazes aos trabalhadores", refere, para bem do seu negócio.

Com a loja aberta há dez anos, Fátima conhece a maioria dos clientes e garante que mais de 60% vivem na zona. Como resposta a esta simpatia e apoio, foram pioneiros nisto das entregas em casa. "Sabemos que temos muitos clientes idosos e não queremos que deixem de poder comprar os nossos produtos só porque não têm como os levar para casa. Não seja por isso, nós fazemos esse trabalho".

Fátima conhece os clientes, mas também os vizinhos. Aconselha-nos a atravessar a rua para uma visita a um dos espaços mais míticos da Avenida. O Cafélia podia até não ter um nome tão explícito, mas o cheirinho para quem passa não deixa dúvidas: aqui vende-se bom café.

Mas não só: chás, bombons a granel, frutos secos, bolachas em caixas amorosas, bules e tudo o que precisa para fazer o melhor café em casa. Nestes poucos metros quadrados não falta nada e, na dúvida, Paulo Jorge, que está há 40 anos neste balcão, dá uma ajuda.

"Há clientes que, mal entram, nem precisam de pedir. Eu já sei que café cada um toma", garante à MAGG, enquanto vai enchendo os saquinhos para as encomendas que já tem agendadas para o Natal.

Este é mais um negócio que, apesar da crise, não se queixa do apoio de quem já lhes era habitual. "Os clientes habituais não nos falharam este ano, mesmo quando tínhamos a porta fechada e só vendíamos por pedido.

Além de café, os bombons a granel são o produto mais procurado nesta casa com 68 anos. Paulo serve cada cliente como se fosse único e, por isso, não se imaginaria a trabalhar numa loja de centro comercial. "Deus me livre. Não, eu gosto é de estar ao balcão e poder conversar com cada pessoa".

Apercebemo-nos disso quando olhamos para o relógio e percebemos que há pouco tempo para tanta Avenida de Roma. Saímos a custo e seguimos caminho até um dos pontos mais originais desta rua.

Bem discretamente, abriu em frente aos correios um quiosque que, à primeira vista, poderia parecer mais um daqueles paralelepípedos metalizados a vender tabaco, revistas e os jornais do dia. Mas não, aqui está uma galeria de arte.

Nova Banca Galeria. A arte tomou conta de um quiosque da Avenida de Roma
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A Nova Banca Galeria tem pinturas, desenhos, ilustrações, colagens, de todos os tamanhos e com preços dos 3€ aos 300€.

"Queremos fazer da arte algo acessível", explica Manuel Mendonça, um brasileiro que deixou o país e a publicidade para se dedicar, juntamente com a namorada, a designer Marina Borba, a vender os trabalhos que descobre de artistas que admira.

Manuel levou com muitos olhares de estranheza e ainda hoje são muitos os que passam, olham, e acabam por não comprar. "É um conceito novo, é normal. Mas não me importo nada. Eu adoro este contacto próximo com o público e fico horas explicando tudo ao pormenor a quem estiver interessado".

Já se apercebeu que a galeria é um dos pontos de paragem para quem faz compras de Natal na Avenida de Roma e é por isso que faz questão de ter ideias de presentes para todos os gostos e carteiras. Os postais começam nos 3€ e a maioria das molduras rondam os 40€, sempre com a hipótese de comprar já a peça emoldurada.

Com um negócio a dar os primeiros passos, cada venda é uma vitória. "Tivemos esta semana o nosso melhor dia. Vendemos onze peças! Fui para casa aos pulos", admite.

"Obrigada por comprar no comércio tradicional"

A nossa última paragem é pensada para os presentes para a mãe, a irmã, a namorada ou a filha. Na Stage Boutique o foco está no público feminino e Ana Faria já conhece o gosto a quase todas as clientes — e sabe dar os melhores conselhos aos homens da família que chegam sempre um pouco desorientados.

Apesar de ter sido um ano com menos lucro, Ana não deixou nunca de contar com os seus clientes fiéis.

"Então vai à sua ginástica?", interrompe Ana, quando vê entrar a vizinha que todos os dias lá passa para dar bom dia. "É este contacto que eu gosto e é destas pessoas que sinto o maior apoio. São muitas as que me dizem que fazem questão de vir cá este ano para não deixar a loja morrer".

Vestidos, écharpes, casacos e acessórios, aqui fica bem servido com presentes para todos os preços. Os colares custam desde 20,90€, por exemplo, e as galochas mais divertidas da Avenida de Roma custam 49.90€.

Ana fala com entusiasmo do negócio que gere há seis anos e só interrompe a conversa para mais uma visita. "Vem buscar a sua encomenda, não é?". Os poucos clientes na loja que já por si é pequena, movem-se em tetris para respeitar as distâncias. Por saber desse constrangimento, Ana é rápida no gatilho e já vem com o saco na mão. "Obrigada por comprar no comércio tradicional", diz. Não me lembro de alguma menina da caixa dois me ter agradecido por aquele casaco que comprei na Zara.

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