Pedro Lima faria 50 anos em abril passado. O ator morreu a 20 de junho de 2020, uma morte que chocou Portugal. Um ano e três meses depois da partida trágica do companheiro de duas décadas, Anna Westerlund concede a primeira entrevista.

A ceramista escolheu não fazer qualquer tipo de tabu sobre a causa da morte de Pedro Lima, enfatizando que foi fruto de uma "depressão galopante".

"Há pessoas geneticamente mais suscetíveis à doença e é verdade que o Pedro tinha gavetas com monstros lá dentro, como todos temos. O que eu acho que aconteceu é que se criou a tempestade perfeita: o isolamento que a covid trouxe, apesar de o Pedro estar a ser acompanhado há algum tempo por um psicólogo", explica Anna Westerlund.

Desportista e amante da vida ao ar livre, Pedro Lima era um "homem de ação" e a viúva reflete sobre a forma como o isolamento acabou por agravar a saúde mental do companheiro. "Criou-se a tempestade perfeita para que o Pedro, que teria uma depressão já mais prolongada mas não tao visível nem para ele, entrasse numa depressão galopante. Sinto isso, que foi uma depressão que entrou de forma violenta", explica Anna Westerlund.

A ceramista compara a gravidade do estado da saúde mental do ator com "um cancro avassalador" e explica as razões que a levam a não ter medo da palavra "suicídio". "Eu digo que o Pedro morreu de suicídio porque o suicídio é uma consequência de uma doença mental".

A mulher que, ao longo de quase 20 anos, esteve ao lado de Pedro Lima, revela que, poucos dias antes da morte do ator, tiveram uma conversa em que o tema do suicídio foi abordado. "Eu e o Pedro falámos disso dias antes e eu perguntei-lhe se lhe passava na cabeça. Ele respondeu-me olhos nos olhos que não e eu acreditei porque o Pedro não era um mentiroso. Mas a verdade é que o amor não salva tudo".

"No caso do Pedro, a medicação acho que piorou o cenário"

Tanto Anna Westerlund como o enteado, João Francisco Lima, têm falado publicamente e nas redes sociais sobre a importância de mais e melhores cuidados de saúde mental. "Nós sentimos que não queremos falar baixinho sobre este tema", afirma, salientando que "há uma ocultação enorme dos casos de suicídio em Portugal por tabu e vergonha". "É preciso fazer esse caminho", acrescenta.

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Tal como os quatro filhos que teve com Pedro Lima (Emma, de 17 anos, Mia de 14, Max de 11 e Clara, de 5), Anna Westerlund está a fazer terapia. Uma ajuda fundamental para, tal como confessou a Manuel Luís Goucha, não haver espaço para "zanga". "Há uma compreensão racional sobre o que aconteceu. Não querendo entrar em polémicas, a depressão trata-se de várias formas, uma delas com medicação, e a medicação não serve a toda a gente, no sentido em que o tratamento não funciona com toda a gente. No caso do Pedro, a medicação acho que piorou o cenário", diz.

Com Manuel Luís Goucha visivelmente emocionado, a ceramista diz que esta entrevista a deve ao companheiro e a todos os que morreram da mesma forma. "O Pedro merece esta conversa. Acho que o Pedro merece falarmos sem vergonha e quem diz o Pedro diz todos os Pedros, todas as pessoas que partiram desta forma. Não só pelos que partem mas também pelos que cá ficam", salienta.

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