E porque um impostor nunca vem só, depois do sucesso do documentário "Impostor do Tinder", surge uma nova série pautada pela vigarice. Desta vez, é caso para dizer: os crimes por burla nos Estados Unidos custaram-lhe uma pena de prisão, mas a história mediática valeu-lhe 320 mil dólares (o equivalente a 266 mil euros) pagos pela Netflix.

Anna Sorokin, a mulher de 30 anos que se fez passar por uma milionária russa e durante meses fintou ricos e bancos, foi condenada, mas já está em liberdade — e conseguiu mesmo que a plataforma de streaming saldasse todas as suas dívidas. Ainda que indiretamente.

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Leu bem. Trata-se de uma criminosa, acusada e condenada a uma pena de prisão de quatro a 12 anos por fraude, depois de manipular a elite dos Estados Unidos. E, ainda assim, a ficção norte-americana prontificou-se a pagar milhares de euros pela sua história: um valor que chegou e sobrou para Sorokin pagar as dívidas em que estava submersa.

Sendo que, do valor total pago pela Netflix, 199 mil dólares (165 mil euros) já foram entregues aos bancos e 24 mil dólares (19 mil euros) foram usados para pagar multas ao Estado e às autoridades fiscais do país.

Em abril de 2019, a falsa milionária foi presa, cumpriu menos de um ano de prisão, mas já está em liberdade desde fevereiro de 2021 e a sua história chega à plataforma de streaming já esta sexta-feira, 11 de fevereiro, numa produção idealizada e escrita por  Shonda Rhimes, criadora de séries como "Anatomia de Grey"  ,"Como Defender Um Assassino" ou "Bridgerton". E com a atriz Julia Garner no papel principal, enquanto Anna Delvey (nome sob o qual Sorokin se apresentava).

"Inventing Anna" segue a história de uma jornalista com a carreira em risco, que decide investigar o caso de Anna Delvey (nome adaptado), uma suposta herdeira russa que não só manipulou e roubou os corações da alta sociedade nova-iorquina, como conseguiu deitar a mão a grande parte do seu dinheiro.

Será Anna a maior vigarista de Nova Iorque ou simplesmente o novo rosto do sonho americano? A resposta está prestes a chegar à Netflix, numa história que é 'a mais pura verdade', à exceção de todas as partes que foram completamente inventadas", brinca a plataforma de streaming, face ao caráter fraudulento da mulher que inspira a história.

Mas, afinal, quem é a verdadeira Anna Sorokin?

Na altura em que cometeu os crimes, Anna Sorokin tinha 26 anos e usava a identidade de Anna Delvey, herdeira de uma fortuna milionária. Durante vários meses, esteve presente em todas as festas da elite de Nova Iorque e a sua história é tudo menos convencional. As boas roupas que usava, os hotéis de luxo onde ficava e as viagens caras que fazia puseram-na no centro das atenções de algumas das figuras públicas norte-americanas. A vida era extravagante, é certo, mas de real pouco ou nada tinha.

O apelido, a nacionalidade e os milhões na conta bancária? Nunca existiram. Anna Delvey era, na verdade, Anna Sorokin. Uma mulher natural da Rússia, que, durante meses, viveu sem um único dólar na conta mas que, mesmo assim, conseguiu ir ao bolso de grande parte da elite de Nova Iorque.

Durante vários meses, Anna Delvey viveu num hotel de luxo na zona de Soho, em Manhattan, e pagava cerca de 400 dólares (o equivalente a 342€) por noite. Mas, afinal, se os milhões na conta não existiam, como é que cobria as despesas diárias? Não deixa de ser um plano meticuloso: o estilo de vida que mantinha era financiado pelos vários empréstimos que contraiu, cheques em branco ou amigos que se ofereciam para pagar as despesas da falsa milionária.

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Grande parte da informação que se conhece sobre Sorokin vem de Neffatari Davis, uma mulher de 25 anos que trabalhava como rececionista do hotel em que a burlona ficou hospedada, e que concedeu o seu testemunho à revista "The Cut".

O trabalho de Neffatari Davis consistia em sugerir roteiros, restaurantes ou programas para os hóspedes que procurassem conhecer Nova Iorque. E foi assim que ela e Anna se conheceram e que a relação com a vigarista se revelou vantajosa. Pelo menos, em termos monetários. Já que cada vez que sugeria um ponto turístico, um novo restaurante ou até uma discoteca divertida, a socialite retribuía com uma nota de 100 dólares (87 euros). 

"Os funcionários chegavam ao ponto de lutar entre si para ganharem o privilégio de poder levar as malas dela até ao quarto. Ou qualquer outra coisa que implicasse servi-la. Isso significava que, ao final do dia, ganhavas mais 100 dólares em dinheiro", revela. "Desde gorjetas em viagens de Uber ou em refeições fora do hotel, ela dava dinheiro a toda a gente. Nunca me deixava pagar nada e parecia quase como que um jogo para ver se conseguia gastar mais dinheiro do que aquele que tinha".

E a verdade sobre o esquema fraudulento da suposta Anna Delvey só veio à tona já depois da sua detenção, em 2019. As despesas em hotéis ou restaurantes de luxo eram a ponta do icebergue de tudo o que tinha feito.

Em novembro de 2016, pediu um empréstimo de mais de 22 milhões de dólares (18 milhões de euros) e justificou-o com documentos assinados que confirmavam ser herdeira de uma fortuna de mais de 60 milhões de euros, depositada numa offshore na Suíça. No mês seguinte fez o mesmo, mas com outro banco.

Só que este exigiu um depósito de mais de 100 mil dólares (o equivalente a 85 000€) para assegurar que o processo decorria com a naturalidade esperada. A linha de crédito que tinha sido aprovada no primeiro banco foi usada para garantir o segundo empréstimo. Mas quando um representante tentou averiguar a existência da suposta fortuna, Anna desistiu. E as dívidas acumularam-se.

Já depois de ter sido detida, em maio de 2019, é que o estado de Nova Iorque ordenou que as contas de Sorokin fossem congeladas para que esta não pudesse pagar as dívidas que contraiu através de dinheiro burlado. As contas bancárias, no entanto, foram descongeladas em 2021 para que Sorokin pudesse usar o pagamento da Netflix para restituir o dinheiro aos bancos e às vítimas que tinha burlado.

"Quero o Impostor do Tinder a deslizar para a direita na [conta de] Anna Sorokin"

"Inventing Anna", a produção que salvou a conta bancária da vigarista, chega ao catálogo nacional da Netflix esta sexta-feira, 11, mas já estreou nos Estados Unidos. E os internautas do Twitter já fazem circular as suas opiniões. Sem spoilers, claro.

"Quero o Impostor do Tinder a deslizar para a direita na [conta de] Anna Sorokin", escreveu uma utilizadora, no sentido em que gostava de ver como funcionaria a relação entre estes dois vigaristas da Netflix. "Shimon Hayut e Anna Sorokin são um 'match' divino", lê-se na mesma rede social.

"Há mais alguém obcecado pelas fraudes do século XXI? Já consumi toda a informação disponível sobre Elizabeth Holmes, Billy McFarland, Anna Sorokin... preciso de mais", partilhou outra internauta.

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