Passo grande parte do meu tempo investido em livros de banda desenhada, séries, filmes e jogos com universos estranhos. E nestas histórias de ficção, que cada vez têm mais verdade sobre quem somos, é quase sempre tudo mais duro, injusto e cruel. A liberdade, a haver, é limitada. A vontade de fazer, ser e existir está controlada por um estado ditatorial e sair à rua para quê, quando tudo lá fora é tão negro?

É comum que, nestas histórias, a humanidade se veja mergulhada numa recessão e apatia generalizadas, sob medo constante de uma qualquer ameaça exterior. Ao contrário dos desenhos animados infantis, quase tudo acaba mal e é por isso que nos atraem: porque são realidades alternativas, a anos-luz da nossa.

Mas agora vemo-nos, novamente, no centro de uma história quase distópica em que sair de casa para estar com os amigos e com a família só é possível imaginando o encontro do outro lado do vidro da janela. O mesmo que separa a vida doméstica da vida urbana — que não tem ninguém, que parou.

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Para muitos os que estão em isolamento ou distanciamento social devido à pandemia, o entretenimento tem sido um dos refúgios. Até porque, felizmente, o meio não está limitado às séries, aos livros, aos filmes e aos jogos com histórias duras e desfechos apocalíticos. No meio do caos, há sempre alguma esperança. E o novo capítulo de Animal Crossing, para a Nintendo Switch, reforça isso mesmo.

O jogo, aliás, foi criado especificamente para dar aquele conforto bom quando tudo lá fora parece não estar a resultar. O arranque de uma saga que conta já com cinco jogos deu-se em meados de 2001. Katsuya Eguchi, designer e criador do franchise, quis recriar, através da ficção, a sensação de estar sozinho no mundo quando, com apenas 21 anos, foi obrigado a mudar-se de Chiba para Quioto, duas cidades japonesas separadas por mais de 450 quilómetros de distância.

Para trás, deixou a família e os amigos e começou uma vida nova. E é isso mesmo que acontece em Animal Crossing que, em termos práticos, pode ser descrito como uma espécie de simulador da vida real — um pouco como Os Sims, mas sem ter de lidar com potenciais birras chatas dos bonecos quando são ignorados ou contrariados.

O jogo, lançado a 20 de março na Nintendo Switch, tem como objetivo transformar uma pequena e adorável ilha deserta numa comunidade cheia de vida e com várias coisas a acontecer. Apesar disso, não há um final definitivo. Não há níveis, mauzões que temos de derrotar e também não se morre.

E apesar da estética, à primeira vista, infantil, o jogo é maioritariamente jogado por millennials e adultos (embora também haja crianças a jogar e seja indicado para elas, claro) e já se tornou num dos títulos mais populares. Muito devido ao formato. É escapismo puro numa altura em que quase toda a população do mundo está confinada em casa.

Não há cenários apocalíticos ou uma qualquer missão para salvar o mundo, mas dá para passear pelas ruas, mexer nas folhas das árvores e socializar com outras "pessoas". Tudo o que, na vida real, não podemos fazer. E nunca nada é demasiado urgente em Animal Crossing, o que permite que os jogadores invistam o tempo que acharem necessário a cada sessão de jogo que pode ir de uma simples meia hora a mais de duas.

E há sempre coisas novas para fazer: construir edifícios, melhorar as infraestruturas da ilha, colecionar materiais para criar aquele guarda-roupa incrível que queremos pôr em casa ou viajar para ilhas distantes à procura de novas personagens que se possam juntar a nós na aventura.

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Quando a conjuntura atual se torna demasiado pesada e as notícias não param de chegar com novos desenvolvimentos, basta ligar a consola, abrir o jogo e passar as próximas horas a passear na praia, a cortar relva, a construir pontes ou plantar flores.

E para quê arrumar o quarto e aspirar a casa da vida real se não é expectável receber visitas? As lides domésticas também podem passar da realidade para o virtual, já que é na sua casa do Animal Crossing que pode fazer festas e organizar jantares. Com amigos que conheça ou com outros que for formando através do jogo que também tem uma componente online.

Lentamente e de forma gradual, e especificamente nesta altura de pandemia, o Animal Crossing pode tornar-se num substituto saudável da vida real que, pelo menos por enquanto, está limitada ao acordar, comer, trabalhar, dormir, acordar, comer, trabalhar e dormir. 

Em tempos de pouco ou nenhum controlo sobre o que nos espera no futuro, é reconfortante saber que, pelo menos na ilha colorida e fantástica de Animal Crossing, tudo está garantido. E aqui, tal como nos desenhos animados, nunca, quase nunca nada acaba mal.

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