Quando chegou a altura de pensar de que forma poderia Bruno Nogueira encerrar a digressão de "Depois do Medo", cujos espetáculos percorreram o País entre 2018 e 2020, nunca nenhum humorista tinha pisado, a solo, o palco do Altice Arena, em Lisboa.

O momento materializou-se a 14 de fevereiro para uma sala esgotada, numa altura em que estava por dias a chegada da COVID-19 ao País. E ainda que o comediante só se possa responsabilizar por um dos episódios, é através do seu jeito (também) autodepreciativo de fazer humor que admite o mau presságio. "Já era um aviso de que isto ia correr mal", lê-se na página de apresentação do espetáculo.

Essa seria a última vez que Bruno Nogueira subiria a um palco em 2020, já que, em março do mesmo ano, Portugal confinaria pela primeira vez — levando o espetáculo a ser disponibilizado online para aluguer. De 14 a 16 de janeiro, no entanto, e como se de uma nova vida se tratasse, vai estar nos cinemas.

O "MacGyver da comédia" com "lata". Bruno Nogueira segundo quem trabalhou com ele
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Quando questionado sobre se esse marco, o de ter sido o primeiro humorista a apresentar-se a solo no Altice, eleva uma suposta fasquia de um humorista que, como qualquer outro, tem como único objetivo fazer rir, Bruno Nogueira diz não se circunscrever a uma só meta.

"Claro que o objetivo principal é sempre fazer rir. Mas paralelamente a essa pista, há outras que, para mim, são desafiantes", diz o humorista à MAGG, numa conversa a propósito da estreia do seu espetáculo nos cinemas. Embora fale do Altice Arena como "uma sala desafiante pela quantidade" de pessoas que leva — e que, naquele dia, levou 14 mil espectadores —, há outras que lhe são queridas.

"Fazer stand-up no Teatro Nacional, onde nunca tinha havido [esse tipo de espetáculos], foi uma conquista muito mais interessante. Tem que ver com as pequenas metas que vais criando para te desafiares. Era giro [o conceito] de fazer stand-up num sítio onde os textos são, habitualmente, mais teatrais", diz.

Pela dimensão do Altice Arena, Bruno Nogueira admite que a ideia nunca lhe pareceu exequível. "Fomos fazer uma visita técnica e achei aquilo tão gigante que pensei que não era [possível]". Por não ser, à partida, tão intimista? Talvez.

"Até o cinema mundial nos ensina que é preciso algum tempo para sermos capazes de amadurecer uma ideia e perceber se vale a pena levá-la para a frente"

"A verdade é que, de repente, aquilo se torna numa massa só de sombras. Mas ganha-se outras coisas, como uma energia que nunca tinha sentido em palco. É impossível equiparar [essa experiência] a outra coisa. Não acreditava que fosse possível, e apostei com a minha produtora que lhe pagaria uma viagem a Nova Iorque se aquilo enchesse."

A ideia de transportar o formato para o cinema, diz-nos, serve "como continuação da vida desde espetáculo" que, apesar da última data, nunca conheceu um fim — chegando, até, a novos públicos também no digital.

Do luxo de estar parado ao novo programa para a SIC

No perfil que a MAGG fez sobre Bruno Nogueira, e para o qual contou com os testemunhos de Francisco Penim, ex-diretor da SIC Radical, José Fragoso, diretor de programas da RTP, e Luís Marques, antigo diretor-geral da SIC, todos concordaram que o humorista era, talvez, dos poucos artistas que se podia dar ao luxo de ficar parado durante algum tempo a pensar em ideias que pudessem, mais tarde, materializar-se em formatos vários.

Questionado sobre se, apesar disso, a ideia de parar forçosamente devido a uma pandemia foi desconcertante, artisticamente falando, Nogueira admite que não. Ou, pelo menos, "não tanto quanto esperaria".

Entre Bruno Nogueira e uma ideia existe tempo.
O humorista prepara-se para ver o seu último espetáculo, da digressão "Depois do Medo", a estrear-se nos cinemas créditos: Ana Rita Gonçalves/MAGG

"De certo modo, consegui enganar-me e fazer de conta porque houve alguma normalidade no início. O 'Como É Que O Bicho Mexe' [o formato de diretos do Instagram durante o primeiro confinamento] nasce com o objetivo de ser uma espécie de ginásio criativo, mas sofro sempre mais por sentir que já devia estar a fazer alguma coisa, do que por estar há algum tempo sem fazer. É um luxo poder ficar parado durante tanto tempo a pensar numa coisa que, depois, acredito ser capaz de representar da melhor forma aquela que é a minha maneira de pensar num determinado momento", refere.

É nesse sentido que admite ter "algumas dúvidas sobre pessoas que conseguem estar sempre a fazer muita coisa". No fundo, a "começar uma depois de terem acabado outra".

"Até o cinema mundial nos ensina que é preciso algum tempo para sermos capazes de amadurecer uma ideia e perceber se vale a pena levá-la para a frente ou não. Gosto desses períodos de maturação e, pelo caminho, houve muitas ideias que deixei cair porque percebi, ao fim de um mês, que aquilo não passava de uma paixão do momento."

Na altura em que conversamos com Bruno Nogueira, já o "Princípio, Meio e Fim", o formato de humor que idealizou, em conjunto com Nuno Markl, Filipe Melo e Salvador Martinha, para a SIC, saiu do ar há seis meses. E ainda que esteja previsto um novo programa seu, também para a SIC, em 2022, garante-nos que não há qualquer contradição no discurso. É que este novo formato, explica-nos, teve ainda mais tempo de maturação.

"O período de preparação [deste novo programa] é, aparentemente, mais curto, mas é algo que, da minha parte e da do Daniel [Oliveira], já estava em cima da mesa desde que entrei para a SIC [em outubro de 2020]", conta.

"Foi um período onde estávamos muito mais assustados do que estamos agora e, portanto, o contraste estava no máximo. Estávamos todos a viver com uma intensidade quase apocalítica. Nesse aspeto, [o "Bicho"] é irrepetível"

"Não surgiu do nada. Houve um período em que falámos sobre isso e fiquei de pensar na ideia durante algum tempo. Na realidade, teve, até, um período de maturação muito maior do que o 'Príncipio, Meio e Fim' porque surgiu nas primeiras conversas com o Daniel em que tentámos perceber que futuro é que eu e a SIC tínhamos juntos", diz. O futuro parece sustentável, embora remeta quaisquer declarações sobre o novo formato — que foi apresentado como sendo um formato inédito em Portugal — para mais tarde. "Não estou a fazer género, não posso mesmo dizer nada."

Tentámos.

O "Príncipio, Meio e Fim" como um "belíssimo acordo de cavalheiros"

Sobre se houve vontade de continuar a explorar o "Princípio, Meio e Fim" ou se o formato se esgotou nos seis episódios originais, Bruno Nogueira prefere olhar para a questão de outra forma. "A capacidade de uma televisão generalista suportar um projeto daqueles esgotou-se ali. É um belíssimo acordo de cavalheiros, na medida em que o formato foi uma coisa que não é comum de acontecer na televisão generalista e que, portanto, só o facto de ter acontecido, é inacreditável."

bruno nogueira
Sobre "Como É Que o Bicho Mexe", tema a que tenta sempre esquivar-se, descreve-o como "um formato irrepetível" créditos: Ana Rita Gonçalves/MAGG

E ainda que, enquanto artista, já não lhe compita fazer a gestão das reações do público, o feedback foi inesperado. "Nunca estivemos à espera que tivesse outro caminho que não aquele que teve. Na verdade, o programa fez mais caminho do que aquele que estávamos à espera", admite.

Quanto ao "Como É Que o Bicho Mexe", Bruno Nogueira admite-se esquivo ao tema. É um assunto, confessa-nos, do qual tenta sempre fugir por acreditar que, depois de ter acontecido, "há muito pouco para falar". "O que posso dizer é que surgiu numa altura em que estava a precisar. Porque estava a lidar com o caos. A minha mulher estava a gravar fora e ficou retida noutro país. Naquela fase, estava ainda a aprender a viver desta maneira e, ao final da noite, precisava de descontrair, beber e falar com adultos."

O que gerou nas outras pessoas, admite, foi algo com o qual nunca contou. "Foi zero planeado e foi tudo construído à frente das pessoas", refere.

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Se deixou alguma coisa para trás para que o ritmo (inicialmente, diário) se mantivesse? "Quando a minha mulher volta e, de repente, a família está outra vez junta, naturalmente que deixei. Mas ganhei outras muito bonitas das quais me vou recordar durante muito tempo. Foi um período onde estávamos muito mais assustados do que estamos agora e, portanto, o contraste estava no máximo. Estávamos todos a viver com uma intensidade quase apocalítica. Nesse aspeto é irrepetível, espero eu".

Esperamos nós, também.

Os bilhetes para as sessões de "Depois do Medo" nos cinemas já estão à venda.

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