É entre passas de um cigarro aceso a meio de uma conversa, obrigada a acontecer à distância devido à pandemia, que Soraia Chaves deambula entre a serenidade e a dúvida constante. Habituada ao trabalho de cena, quer no teatro, no cinema ou na televisão, admite que o papel de entrevistada não lhe sai com a mesma naturalidade. A culpa, diz à MAGG, é não só da timidez, mas também devido às questões que a própria se vai obrigando a responder numa tarefa que, ao contrário da representação, nem sempre tem desfecho."Como estou constantemente a questionar-me, por vezes é difícil responder a um jornalista porque eu própria não sei bem", explica.

Mas é cheia de certezas, até porque é na representação e a interpretar personagens que mais tem de o ser, que a encontramos em "A Generala". Falamos da nova série da OPTO SIC que se estreia já esta terça-feira, 24 de novembro, na mesma altura em que o novo serviço de streaming do canal de Paço Arcos é disponibilizado a todos os utilizadores.

Nesta história, baseada em acontecimentos reais, o foco está em Maria Luísa (em jovem interpretada por Carolina Carvalho e em adulta por Soraia Chaves), uma mulher que nunca teve permissão para o ser.

Na década de 50 e até à adolescência, cresceu no seio de uma família conservadora no Funchal, na ilha da Madeira, sob alçada de uma mãe austera, exigente e tomada pelo luto do filho, Otávio, que morreu aos seis anos. O fantasma do irmão, no entanto, assombra a vida daquela família e, especialmente, a infância de Maria Luísa que reconhece nos pais — mas, principalmente, na mãe — um ressentimento castrador que a culpabiliza por estar viva. Maria Luísa viveu duas vezes. Numa primeira vida cheia de mágoa e dor, e numa segunda assumindo uma identidade e um género que não lhe pertenciam, mas através dos quais tentou tomar para si aquilo que, até então, estava ao alcance dos homens. Assumiu a identidade do irmão e tornar-se militar do exército português.

Em entrevista à MAGG, Soraia Chaves diz que este foi um dos trabalhos mais difíceis e intensos que teve de fazer, especialmente porque a obrigou a sair da sua zona de conforto e daquela que é a sua "essência natural" , para se tentar pôr "emocionalmente e psicologicamente na pele de alguém que desde a nascença não tem esse conforto e essa liberdade".

Para isso, conta, inspirou-se nos testemunhos de pessoas que lutaram — ou ainda estão a lutar — pelo respeito dos outros durante as suas transformações, mas também nos filmes com atores clássicos de Hollywood que serviram para que Soraia Chaves lhes estudasse os gestos e os maneirismos. O objetivo era apenas um: mesmo sendo mulher, ser capaz de integrar o corpo de um homem de forma exímia para que, em cena, nada daquilo parecesse um "boneco".

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Mas a atriz falou ainda de como, não tendo a mesma experiência de Maria Luísa, por ter vivido no no seio de uma família que sempre olhou com naturalidade para o sexo, se sentiu ostracizada logo no arranque da carreira com o filme "O Crime do Padro Amaro", em 2005.

"Senti uma vontade da imprensa, essa sim, de agarrar em mim e na minha imagem e transformá-la num objeto para vender revistas ou produtos. Senti essa objetificação e contra isso fui lutando, nunca recusando a minha feminidade nem aquilo que sou, mas recusando certos papéis ou recusando-me a ser tratada ou vista dessa forma porque era uma forma muito redutora de olhar para mim", explica.

Esta série foca-se numa mulher que é penalizada por sê-lo e que depois é obrigada a assumir a identidade de um homem. Por tudo isto, podemos considerá-lo um dos seus trabalhos com maior responsabilidade?
Foi um trabalho extremamente importante e extremamente difícil para mim, porque me levou a uma pesquisa muito profunda e séria sobre o tema. Nessa pesquisa, vi vários documentários, facilmente ao alcance de todos devido à facilidade de acesso das plataformas de streaming, sobre pessoas reais que passaram por lutas semelhantes ou que ainda estão a viver essa luta da conquista pela liberdade e de poder viver a sua identidade livremente. Tive oportunidade de ouvir esses testemunhos e perceber que, muitas das vezes, a probabilidade de sucesso ou insucesso da vida em sociedade destas pessoas é ditada na infância pela aceitação ou não por parte da família. É um fator muito importante. Quando são aceites, apoiadas e recebem amor, as estatísticas provam que estas pessoas têm maiores possibilidades de se tornarem pessoas felizes e integradas. Se acontece o contrário, como o que vemos em "A Generala", então...

A história é outra.
É. O início de vida [da personagem Maria Luísa em "A Generala", oprimida pela mãe desde  muito nova] acaba por justificar o trajeto a que vamos assistindo. Numa entrevista que deu à SIC, a Anabela [Moreira, que dá vida à mãe de Maria Luísa na série] disse uma coisa que achei muito interessante: que esta série mostra como é que uma mãe consegue adoecer uma filha. Pego nas palavras dela. De certa forma, foi isso que aconteceu.

Soraia Chaves.
créditos: Armanda Claro/SIC

Estamos a falar de uma mulher que, embora oprimida pela mãe, se vê obrigada a tomar a identidade de um homem para se movimentar nos meios que, até então, lhe eram negados enquanto mulher. Quem a oprime mais? A mãe ou uma sociedade patriarcal?
Pode ter várias leituras e todos os objetivos de ficção são livres e sujeitos à interpretação de cada um. Para mim, que vi as coisas de uma forma muito particular, não lhe doía apenas não poder fazer as mesmas coisas que os homens faziam ou não ter as mesmas oportunidades — que não tem, e isso está bem vincado no guião — e isso é obviamente aquilo que todos nós sabemos. Durante todos estes séculos, e continua a acontecer, o homem tem uma posição privilegiada na sociedade em vários aspetos. Em algumas sociedades, as coisas têm vindo a evoluir. Noutras, está exatamente igual e as mulheres continuam a não conseguir estudar, são mutiladas, são forçadas a casamentos ainda em criança. Há coisas absolutamente atrozes que ainda perpetuam esse posicionamento do homem enquanto ser superior face à mulher. Isso está marcado na série, mas aqui também se mistura outra coisa, ou seja, a não conformidade física. Maria Luísa nunca se sentiu mulher, nunca se sentiu confortável com o seu corpo, portanto estamos a falar da combinação de duas coisas muito importantes.

Além da pesquisa, partiu de exemplos concretos da ficção que lhe servissem de inspiração ou de memórias ou até limitações que lhe foram sendo impostas enquanto mulher?
[Depois de uma pausa longa] Foi, sem dúvida, um dos trabalhos mais intensos que já fiz enquanto atriz porque tive que sair do meu local de conforto e daquela que é a minha essência natural, que é a feminidade, e com a qual me sinto absolutamente confortável, para me tentar pôr emocionalmente e psicologicamente na pele de alguém que desde a nascença não tem esse conforto e essa liberdade... Foi muito difícil. Os documentários e os testemunhos ajudaram-me. Em termos de composição e de assumir aquela forma física, parti de vários filmes. Um deles foi "A Virgem Prometida" com uma atriz absolutamente brilhante que, no caso dessa história, vive numas montanhas da Albania, região onde as mulheres não podem, de facto, fazer nada. Para se libertar, assume a identidade de um homem, cortando o cabelo e vestindo-se como eles para poder fazer aquilo que não lhe era permitido por ser mulher.

Em 2018 disse que “o corpo feminino é só natureza” e que “quem vive isso com naturalidade não tem de estar necessariamente a fazer uma provocação”. Não terá tido a mesma experiência de Maria Luísa da série, mas de certo que terá sentido alguma dessa ostracização ao longo da sua vida e carreira.
Claro, desde o início. Logo no arranque, aliás, devido ao meu primeiro papel enquanto atriz em "O Crime do Padre Amaro". Chocou-me muito a reação do público e dos jornalistas pela forma como olharam para uma atriz que expõe o seu corpo com naturalidade, com conforto, e assumidamente sensual, como se o sexo fosse algo proibido que não se pudesse mostrar, que não se faz, que não existe e que é preciso esconder. Senti muito preconceito. Ainda não me considerava atriz porque aquele foi o meu primeiro papel e não tinha estudos. Senti-me muito atacada e julgada enquanto mulher. Tive a sorte de viver no seio de uma família que sempre me apoiou e que sempre viu isso [o sexo] com muita naturalidade e, por isso, não conhecia esse preconceito contra as mulheres. Na altura era muito jovem e não consegui compreender esse preconceito, esse estigma, esse olhar de julgamento e essa dificuldade em aceitar a beleza e a naturalidade da exposição do corpo feminino.

Como foi lidar com essa exposição mediática?
Tenho uma história fantástica sobre isso e da qual nunca me vou esquecer. Quando foi a estreia do filme, os meus pais estavam lá assim como os meus agentes da altura. Lembro-me que a sala ficou um pouco em choque após o filme terminar. Uma das pessoas que ficou um bocadinho chocada foi a minha antiga representante que, depois do filme terminar, abordou os meus pais e perguntou ao meu pai se ele não sentia incomodado com as cenas de nudez e sexo que surgiam ao longo do filme. O meu pai riu-se disse-lhe: "Não, o que me incomodou mesmo e o que me chocou foi ver um homem bater-lhe". Porque numa das cenas do filme, o meu namorado abusivo bate-me e viola-me. A resposta do meu pai foi tão genuína e tão certa para mim porque a sexualidade quando é consentida, é uma coisa natural e bonita. O que não é bonito é ver um homem bater numa mulher e isso sim é chocante. De alguma forma estranha, as mortes e a violência são menos chocantes do que imagens de sexo.

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Após a estreia do filme, foi mais difícil lidar com o público ou com a imprensa ?
Continua a ser interessante que, passados 15 anos, o assunto continue a suscitar interessante. O público, parece-me, gostou dessa liberdade. Creio que houve muitas mulheres a ver, e o feedback que fui recebendo vai ao encontro disso, que na altura admiraram essa naturalidade. Mas houve também muito machismo. Senti uma vontade da imprensa, essa sim, de agarrar em mim e na minha imagem e transformá-la num objeto para vender revistas ou produtos. Senti essa objetificação e contra isso fui lutando, nunca recusando a minha feminidade nem aquilo que sou, mas recusando certos papéis ou recusando-me a ser tratada ou vista dessa forma porque era uma forma muito redutora de olhar para mim.

Há uma banalização da violência.
No cinema, sempre houve. Passou a ser entretenimento. Uma das coisas mais interessantes da história da Maria Luísa é que quando ela vai a tribunal para ser julgada por pequenas burlas, o verdadeiro julgamento que aconteceu foi em praça pública e através dos media. E não devido às burlas que ela cometeu, mas sim pelo facto de ser uma mulher vestida de homem. Foi humilhada e isso diz muito sobre a sociedade em que vivemos. É exatamente por isso que acho tão interessante e importante contarmos esta história.

O que é que é mais trágico na vida de Maria Luísa, não haver uma emancipação e ter de viver na pele de um homem ou ser descoberta e voltar a ser relegada para o género que foi ensinada a odiar?
O mais trágico da vida desta mulher é que ela teve de lutar muito pela sua independência e dignidade para, no fundo, conseguir ser quem é. Para conseguir a dignidade dos outros, teve de se disfarçar e adotar uma outra identidade porque nessa altura era ainda mais complicado para uma mulher vestir-se como homem porque se sentia um homem. Ainda hoje é muito complicado e há inúmeros casos de quem vive marginalizado e não consegue o respeito dos outros. O mais trágico é que estas pessoas sejam privadas da sua liberdade e do seu direito à dignidade. No caso da Maria Luísa, o mais trágico de tudo é que depois de construir a sua identidade sozinha como um homem, é denunciada, julgada e humilhada publicamente. Depois dessa humilhação, refugia-se, não conseguindo lidar com a vergonha, contribuindo profundamente para o seu fim.

Enquanto atriz, quais foram as maiores dificuldades ao dar corpo a esta personagem?
A primeira dificuldade foi pensar como é que iria tirar todos os meus gestos femininos e transformá-los em masculinos. Há um lado psicológico e emocional que é importante construir, mas neste caso em particular havia uma coisa muito concreta que passava por uma construção física — como a forma de andar, de falar, de me movimentar e de estar. Foi um desafio gigantesco e quando aceitei achei que nunca seria capaz.

Mas foi.
Com muito trabalho é-se capaz. Com muitos ensaios. Mas também fazendo um trabalho sozinha em que, basicamente, vivia 24 horas por dia a pensar nisto. Decidi cortar o cabelo porque achei que seria muito importante e porque sentia que a minha atitude iria mudar a partir daí. Ajudou imenso. A partir do momento em que corto o cabelo, parecia outra pessoa e fazia pequenas coisas como, durante todo o processo de ensaios, no estúdio ou em casa, vestir-me sempre de homem. Isso dava-me uma postura diferente e trabalhei nesse sentido. Vi também muitos filmes, não só sobre mulheres que se transformam em homens, mas com homens para lhes estudar os gestos e os maneirismos, inspirando-me em alguns atores clássicos. Foi um trabalho físico, mas também muito visual e difícil porque trouxe muita insegurança. Porque antes de se começar a gravar era importante que estivesse integrada naquele corpo para que não fosse um boneco ou uma coisa muito superficial.

Depois das gravações, consegue dissociar-se das personagens que faz ou ficam traços?
Neste caso, como foi tão intenso e estive 24 horas por dia com esta personagem, quando terminou precisei mesmo de fazer um exercício de desligar. Entreguei 100% ali, mas depois afastei-me dela. Mas há outras personagens que creio que, até hoje, permanecem comigo. Uma delas é a Natália Correia [da série "3 Mulheres"] e é muito interessante porque não sou eu a notar, mas sim pessoas próximas de mim. Já aconteceu estar a jantar com alguém ou a conversar com amigos e alguém dizer-me: "Bem, agora saiu-te a Natália".

Soraia Chaves.
créditos: Armanda Claro/SIC

Ficou algo de Maria Luísa na Soraia Chaves?
Tive de desligar. Mas porque me considero uma pessoa justa e humana no que toca ao olhar que tenho dos outros, creio que até fazer este papel não tinha bem noção daquilo que as pessoas que passam por isto vivem. Não tinha noção do sofrimento. Mergulhar nesse mundo e pensar sobre isso alterou a minha mentalidade. E uma das coisas que mais me tocou, para lá do lado trágico que toca, espero, qualquer pessoa sensível e humana, foi ver algumas das entrevistas de pessoas que conseguiram fazer essa transformação e que hoje são felizes. Essa naturalidade é bela porque é isenta de construções. São elas, sem estarem a roubar nenhuma identidade. Essa paz e esse conforto não devem ser negados a ninguém. Uma das coisas que mais me fascina e entusiasma na minha profissão é aprender, crescer e evoluir olhando para a humanidade de uma forma diferente. E cada mergulho numa vida nova acrescenta-me.

Costumo dizer que ser jornalista é uma pequena batota saudável na medida em que nos dá oportunidade de conhecer algumas das pessoas que nos fomos habituando a ver e a admirar. Essa batotice, para os atores, está em mergulhar em vidas múltiplas e crescer com elas?
Não diria que é uma batotice, mas que é uma componente natural, e positiva, das nossas profissões que nos permite assumirmos a pele do outro. É uma forma de abertura e de entendimento de outras vidas. A batotice nos atores, a haver, assume-se nesta parte de dar entrevistas ou de ir a eventos para promover o nosso trabalho, em que assumimos uma persona. Mas ao mesmo tempo não é, porque essa construção também faz parte da minha vida. Mesmo que seja difícil.

Em que sentido?
É-me muito difícil dar entrevistas, por exemplo, porque sou uma pessoa muito tímida e questiono-me imenso por não ter certezas de nada. Como estou constantemente a questionar-me, por vezes vezes é difícil responder a um jornalista porque eu própria... [depois de uma pausa] não sei bem.

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