"Golpe de Sol" chega esta quinta-feira, 13 de agosto, às salas de cinema portugueses. O mais recente filme de Vicente Alves do Ó, protagonizado por Oceana Basílio, Ricardo Pereira, Nuno Pardal e Ricardo Barbosa conta a história de quatro amigos que se juntam para um fim de semana de descanso, interrompido pela chamada de David, um amor antigo, comum aos protagonistas.

A história gira em torno de passados por resolver, tensões acumuladas, resoluções e frustrações. O isolamento das personagens é, não obstante o filme sido rodado ainda em 2017, uma estranha analogia com o confinamento que todos vivemos recentemente, com a ameaça premente de um conhecido invisível.

Numa conversa franca e despojada, o realizador de 48 anos, cuja carreira se estende ao longo de duas décadas, reflete sobre o estado atual do cinema e da televisão portuguesas.

Golpe de Sol é um filme parcialmente biográfico. Esse facto causa-lhe maior ansiedade no momento da estreia?
(risos) Já faço filmes biográficos há algum tempo. Não me causa porque esta questão de ser autobiográfico tem muito a ver comigo, com o meu grupo de amigos, com uma geração. Acima de tudo, quero falar de uma geração que chega aos 40 anos, começa a fazer balanços de vida e a pensar no que alcançou, e no que percebe que, se calhar, não vai acontecer. Esse, se calhar, é o lado mais biográfico.

Quando falamos em biografia, em vida, queremos acima de tudo que aquilo sobre que falamos se torne universal e chegue aos espectadores. Se houver gente que saia da sala e diga ‘isto parece a minha história’, então é sinal que eu consegui fazer a transição do pessoal para o universal. Os nervos estão lá, é verdade, mas acima de tudo, tenho muita vontade que as pessoas encontrem uma identificação com o que se passa na história.

O facto de estarmos a sair de um período de quarentena e de este ser, de alguma forma, um filme de reflexão, vai ter um impacto especial nos espectadores? Estamos, de alguma forma, em época de balanços.
Uma senhora perguntou-me se eu tinha feito o filme há pouco tempo, por causa da covid-19 (risos)! Não pensei nisso, obviamente, mas acho que, de repente, todos ficámos com 40 ou 50 anos durante o confinamento e é verdade que o filme pode parecer, de alguma forma, um espelho. É um filme também sobre confinamento, sobre quatro pessoas que estão à espera de alguma coisa que vem perturbar o seu dia a dia, na forma de um homem. Podia ser uma metáfora para o vírus como a covid-19.

Porque o David nunca aparece… pelo menos no trailer do filme.
É um mistério! Ele está presente no filme de uma forma muito especial. Sente-se a personalidade dele e o fim é uma surpresa.

Quase como um vírus.
Um vírus, uma metáfora, uma coisa que vem perturbar esta vida em que agora andamos, muito fofinha. Esta vida que pomos no Instagram, em que está tudo ótimo, a comida é ótima, toda a gente parece o chef Avillez. Eu lembro-me que houve uma altura em que estava na moda falar-se mal da publicidade e da moda: a publicidade porque nos enganava e nos dava a ideia de que só estaríamos satisfeitos se conseguíssemos aqueles produtos e a moda porque nos transmitia a ideia de que só poderíamos ser escolhidos se fossemos bonitos.

Com as redes sociais, esta ideia generalizou-se. Toda a gente sonha ser isso, o que é assustador. O filme, de alguma forma, vem mexer com essa ideia. Porque, acho que nós, mais do que sermos aquilo que aparentamos, somos todos uma casa desarrumada. E não tem mal a vida ser assim. É melhor que seja, porque é sinal que está a ser vivida. Estas pessoas do "Golpe de Sol", desde que o David se foi embora para o estrangeiro, reencontraram uma paz, um caminho, foram vivendo mas claramente tudo o que fizeram foi sob um segredo que nunca foi tratado. Como em tudo na vida, quando não resolvemos uma coisa, mais dia menos dia ela vai rebentar-nos na cara (risos).

"As pessoas têm tendência a colocar o cinema português todo dentro de um saco"

Golpe de Sol é dos primeiros filmes portugueses a estrear-se após a reabertura das salas de cinema. Não ponderou, em conjunto com a distribuidora, lançar o filme via streaming?
Essa possibilidade esteve em cima da mesa durante algum tempo. Houve ali uma altura em que entrámos em pânico, ‘o que é que vamos fazer agora?’. Ele vai acabar por ir para essas plataformas mais tarde. Num momento tão complicado, fomos todos de alguma forma convocados, mais que não seja a dizer que, se um dia não tivermos mais cinema do mundo, podemos contar com o cinema português. E não deixa de ser irónico que, nesta altura, estejam a estrear todas as semanas filmes portugueses. É sinal de vitalidade, que ele existe e que as pessoas têm de estar mais atentas. Temos - e estou sempre a bater na mesma tecla - de parar de dizer ‘cinema português’ e dizer apenas ‘cinema’.

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As pessoas têm tendência a colocar o cinema português todo dentro de um saco, como se ele fosse todo igual. Não é. É feito por múltiplas cabeças, com ideias de cinema muito diferentes. Este ano já estrearam coisas que não têm nada a ver umas com as outras. Golpe de Sol não tem nada a ver com o filme que o [João] Botelho vai estrear em setembro ["O Ano da Morte de Ricardo Reis"], como filme do Sérgio Graciano, que estreou a semana passada ["O Sol que Desce da Terra"]. As pessoas têm de começar a olhar para os filmes portugueses pelo que eles são individualmente, pelos realizadores e procurá-los, descobri-los. Acho que as pessoas ainda não se predispuseram a fazer isso.

Mas quando o filme é realmente apelativo, as pessoas vão ver. E temos provas disso nos últimos anos, como foi o caso de algumas comédias românticas ou "A Herdade".
"A Herdade" é um filme que esteve no Festival de Veneza e que teve uma excelente promoção e muita gente foi ver por causa disso. Não será pelas 3 horas de drama latifundiário. Não acredito. O ano passado tivemos o exemplo emocionalmente apelativo do "Variações" e "A Herdade", foram os mais vistos do ano. Por exemplo, eu não acredito que as pessoas vão ao cinema ver os atores que aparecem na televisão. Temos muitas experiências que falharam. Por exemplo, o "Linhas de Sangue", que tinha 50 e tal vedetas do mundo da televisão, não correu bem. O "Quero-te Tanto" [de Vicente Alves do Ó, protagonizado por Benedita Pereira e Pedro Teixeira] também não correu bem… ou seja, não é forçosamente isso.

Às vezes, tem mais que ver com a forma como se comunicam os filmes, as datas… No princípio deste ano vi trailers de filmes norte-americanos que vão estrear no Natal! Eles começam a fazer promoção de filmes com um ano de antecedência. Nós aqui começamos com dois meses, o que não é mau. As pessoas hoje em dia são sujeitas a tanto estímulo, a tanta informação nas redes sociais… o que é que retêm? Acho que é preciso promover as coisas.

O que acho é que as pessoas têm mesmo pouco interesse, têm uma relação emocional muito frágil com o cinema feito em Portugal. Não se revêm. Na altura da Troika, quando eu fiz o "Florbela", o governo de Passos Coelho reviu a lei do cinema e congelaram os apoios. Foi o chamado ano zero [2012]. Eu lembro-me que, tirando 3 ou 4 jornais, que têm pessoas que se relacionam com cineastas e produtores, a opinião pública não veio exigir nada! Não se mexeu, nada. Foi um horror.

Se calhar há, por parte da opinião pública, a ideia de que quem faz cinema vem de um lugar de privilégio.
Hoje em dia já não é verdade, mas há um grupo elitista e que perpetua esse elitismo. Isso existe. E é muito elitista entre si! Eu vou fazendo os meus filmes mas não farei parte daquilo que será chamada a classe A. É a estratosfera, os filhos dos mestres do Conservatório. Eu não fiz um percurso tradicional, não sou considerado a esse nível. Estou ali na classe B, embora me esteja a borrifar para isso.

São meia-dúzia de gatos pingados, porque o País é tão pequeno…
É, mas como há pouco dinheiro, esse tipo de filosofia funciona a favor deles. É uma forma de dizerem que eles merecem muito mais o apoio do que os outros. É criar uma hierarquia, o que é maravilhoso, porque eles são todos extremamente comunistas, são todos camaradas uns dos outros mas depois, no que toca ao apoio financeiro público, cria-se uma hierarquia na qual eles são mais importantes do que os outros. É triste, muito triste.

Para si, que anda aqui há algum tempo, a fazer filmes de sucesso e produtos para a televisão, deve ser uma luta.
É uma luta constante. Eu escrevi um guião de cinema. O produtor que agarrou aquilo disse-me: ‘eu tenho um projeto novo, eles estão a precisar de guiões. Isto podia ser um filme, vai ser realizado por um grande realizador de cinema mas vai ser um telefilme da SIC’. Olhei para ele, fiquei muito triste mas disse ‘ok, porque eu quero entrar’. Dou-lhe um exemplo claro que, noutro país, seria um escândalo: O João Maia fez um filme como o "Variações". Teve 320 mil espectadores. A seguir vai ao concurso do ICA [Instituto do Cinema e Audiovisual] para fazer a segunda obra, uma adaptação do Almada Negreiros. Ele perdeu! Perdeu e ficou muito mal classificado. E ganharam pessoas que nunca fizeram espectadores mas como estiveram no festival blá blá blá, passaram à frente dele com uma grande pinta!

"Vou ficar à espera para ver se a Netflix pega em algum daqueles projetos"

Já que fala sobre o ICA, tenho de lhe pedir a sua opinião sobre os resultados do Concurso de Escrita e Desenvolvimento de Argumento Netflix | ICA.
Eu vi e concorri! E fiquei muito surpreendido de não ver lá o meu nome (risos)! Houve uma pessoa que estava a concurso, que conheci por acaso num aniversário e eu disse-lhe: ‘vai acontecer isto assim e assim nos resultados’. Ele olhou para mim e disse ‘ah, mas tu ganhas!’. E eu disse ‘eu não vou ganhar, vão ganhar este tipo de projetos’. E foi exatamente o que aconteceu. O júri teve uma atitude à ICA e não à Netflix. Se fossem 5 pessoas da Netflix que trabalham com ficção internacional a escolherem os projetos, os documentários nem apareciam ali. E, depois, há ali um nome que me dá credibilidade para uma série. Mesmo assim, não conheço a experiência. Há um que escreve novela, nada contra! Eu também fiz um telefilme e, depois, acusavam-me de ser argumentista e não realizador. Eu sei o que apresentei, sei o que outras pessoas apresentaram…

O que é que apresentou, já agora?
Apresentei uma coisa de fantasia o que, à partida, deve ter sido logo olhada de lado, porque os portugueses não são fãs de fantasia. Quando ligamos a Netflix ou a HBO, basta pensar na "Guerra dos Tronos" [riso irónico]. O outro era um policial ao contrário. Não vou dizer o que era porque vou transformá-lo num romance, já decidi. Isto tudo para dizer - e não quero ser injusto com os meus colegas - eu pensei, e acho que todos pensámos - internacional. Criar ficção para o mundo. Não tenho a certeza se o que ali está é para isso. Vou ficar à espera para ver se a Netflix pega em algum daqueles projetos.

Acho que vamos todos.
Também lhe digo que, quando percebi que tinham aparecido 1200 projetos a concurso, duvido muito… isso não existe. Tendo em conta todas as regras que eram necessárias cumprir, não acredito que todos os projetos estivessem completos. Eu conheço um projeto que nem foi escrito no sistema tradicional de escrita de argumento, que é um sistema universal que toda a gente usa. Noutro sítio qualquer, isto voltava logo para trás. Eu também não sei até que ponto aquilo estava tudo certinho. Tenho muitas dúvidas. Estou muito curioso para ver o que vai acontecer.

Acha que a sua série "Solteira e Boa Rapariga" [exibida em 2019 na RTP1] não dispunha bem na Netflix?
E acho que a "Solteira e Boa Rapariga" dispunha bem na Netflix e em mais sítios. Fomos abordados para serem comprados os direitos para fazer um remake, para fora, num país grande. Isto foi antes do confinamento, depois não houve mais novidade nenhuma. Acho que tem mais a ver com direitos da RTP.

A série teve ótimos resultados na RTP.
E com uma dificuldade acrescida, semelhante à que estamos a ter com "Golpe de Sol": foi exibida durante o mês de agosto, quando as audiências de televisão por norma, são muito baixinhas. Nós tivemos dias em que ultrapassámos a novela que estava a dar na TVI. Ficámos a pensar 'bem, se tivesse sido noutra altura, tinha sido ainda melhor'.

"A classe artística demitiu-se da sua rebeldia porque vive aprisionada pelo erário público"

Se séries como "Solteira e Boa Rapariga" resultam tão e se há vontade por parte da RTP em apostar neste formatos, porque é que não há uma maior aposta em séries como esta? Bem-disposta, com humor, comédias românticas em formato série.
A nível de humor na televisão, temos o grupo do Eduardo Madeira e da Ana Bola, de programas como o "Donos Disto Tudo". Tirando esse grupo não me lembro de mais gente a fazer comédia. Quando a "Solteira" recebeu luz verde, foi uma tentativa de fazer comédia por alguém que, normalmente, não faz televisão. Ir buscar a Lúcia Moniz também não foi uma escolha óbvia. Aquilo é um clássico norte-americano, não há segredos nenhuns naquilo que eu fiz.

Eu acho que as televisões têm muito medo de experimentar e, quando experimentam na comédia, há-de reparar que, das duas uma: ou é uma comédia ‘cueca’, escatológica, ou é a comédia do pobrezinho, dos núcleos das novelas. E isto é um bocado salazarista, ‘pobres mas felizes’. Faz-me muita confusão porque a tagline da novela é ‘a vida como ela é. Eu ponho-me a ver aquilo e, na vida que eu conheço, as pessoas pobres é que estão chateadas com a vida. As ricas estão ótimas! Na ficção nacional, os pobres estão sempre felizes da vida e os ricos estão sempre chateados. Elas estão sempre com trombas à mesa, com bavaroises, com mousses de chocolate, só têm tempo para um café.

Estão sempre a trabalhar, sempre à pancada com as ações das empresas, e cheio de raptos e crimes… E eu só penso que os meus amigos ricos estão ótimos! Basta olhar para o Instagram deles para perceber que o Verão deles está ótimo! Ou é a comédia do pobrezinho ou é a comédia escatológica. A "Solteira" foge um bocadinho ao registo português. Houve gente que gostou muito, houve gente que desconfiou, como se houvesse uma agenda por detrás de uma sitcom (risos)! Via reações muito giras nas páginas de Facebook da RTP, de mulheres mais velhas, que diziam ‘não gosto nada desta série, todos os dias um homem diferente’. Eu achava delicioso.

Era sinal de que viam.
Claro que viam! Eu era miúdo quando o Império dos Sentidos passou na televisão. Foi um escândalo mas o País inteiro viu.

Também não evoluímos muito depois disso.
Pois não, e isso é que é assustador. Tenho medo destes movimentos populistas. Eu acho que há uma grande maioria silenciosa que foi abandonada à sua sorte, para quem a classe artística às vezes olha com desprezo, para quem a classe política olha claramente com desprezo e que, agora, está a começar a manifestar-se. É a classe que se agarra às igrejas evangélicas, a estas pessoas que, aparentemente, falam pela frustração delas. Estes movimentos populistas põem em voz alta as frustrações das pessoas que se sentem invisíveis. Numa sociedade que está constantemente a promover o consumo, a riqueza, elas percebem ‘elas têm isto e eu não tenho nada?'.

De que forma é que classe artística poderia ajudar a mitigar o apelo quase encantatório da extrema-direita?
A classe artística demitiu-se da sua rebeldia porque vive aprisionada pelo erário público. Olhe para o cinema português e indique-me um filme político. Indique-me um filme que, ao invés de mostrar, por exemplo, a miséria das Fontainhas, ataque o poder na sua fonte? Não há nenhum. No teatro, na literatura, na música, não há. Acabou tudo. Acho que a classe artística está muito dominada por uma espécie de polvo público que tomou conta dos teatros, dos dinheiros, dos apoios, das GDA [Gestão dos Direitos dos Artistas], dos ICA. Eu acho que era muito giro aparecer no ICA um filme que retratasse todo o processo da Operação Marquês. Não vai aparecer, esqueça. Enquanto o sistema de financiamento das artes foi draconiano, as pessoas vão ter medo de fazer esse trabalho.

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