Chegámos àquela altura do ano em que o telejornal parece durar dez minutos e a publicidade os restantes 60 ou 70. Não vale a pena fazer zapping, desaparecer da sala para lavar a loiça ou fazer uma pequena sesta — os anúncios televisivos estão no auge da sua presença televisiva, pagaram para estar ali e querem ser vistos. Faz parte do Natal, tal como o velhote de barbas ou a subida disparatada do preço dos vinhos.

Adiante. Agora que já sei de cor todos os anúncios a perfumes, julgava que esta época não tinha mais nada para me oferecer. Estava enganada: num serão de anúncios — perdão, notícias — na noite passada, fui surpreendida com um novo que me fez questionar se vale tudo quando o objetivo é vender.

Contexto: uma pesquisa breve na internet diz-nos que o anúncio chama-se "Uma Receita para a Vida", não é assim tão novo — surgiu em meados de agosto — e pertence à marca alemã de eletrodomésticos Teka. Os dois protagonistas são um pai que sofre de Alzheimer e um filho que faz tudo o que está ao seu alcance para tentar reavivar a sua memória. Sempre sem sucesso, um dia encontra o livro de receitas da mãe e decide cozinhar-lhe um dos seus pratos. No final de refeição, o pai diz-lhe: "Filho, diz à tua mãe que estava mesmo bom".

É emotivo? É. Está bem realizado e encenado? Sem dúvida. Mas está ali para vender eletrodomésticos, e é isso que me revolta. Desculpem, mas a publicidade tem que ter limites.

Para alguém que já viu o olhar vazio de uma pessoa que sofre de Alzheimer, que sofreu com o facto de não ser reconhecida e assistiu ao lado mais negro da doença, isto é ultrajante. Não me tentem vender eletrodomésticos usando o Alzheimer, caramba. Segundo dados do ano passado, a taxa de prevalência de demência é de 19,9 casos por 100 mil habitantes. Isto significa que, em Portugal, é muito provável que conheça pelo menos uma pessoa que tenha um familiar nesta situação.

O Alzheimer é uma doença horrível. Começa lenta e vagarosamente a apagar as memórias mais recentes, até destruir tudo o que alguma vez existiu na mente daquela pessoa. Sem as nossas memórias, sem as nossas recordações, sentimentos, redes sociais (as verdadeiras), não somos nada. A nossa existência resume-se a nada. E enquanto nos apercebemos de que caminhamos para aí, ou temos pequenos rasgos de lucidez, o sofrimento é atroz.

E é atroz todos os dias para quem lida com um familiar nesta condição. Para os filhos, sobrinhos e netos que deixam de ser reconhecidos, da mesma forma também que deixam de reconhecer a pessoa que têm na sua frente — a aparência física até pode ser a mesma, o que está por dentro é completamente diferente.

Vem a agressividade, vem a debilitação física cada vez mais acentuada, a dor é quase letal. Mas continuamos, seguimos e enfrentamos a doença, mesmo sabendo que no final vamos partir sem nada. Há muito que a pessoa que conhecíamos já não está ali. Resta-nos guardar o seu corpo.

Não há nada de fofinho num anúncio que pega numa doença para vender fogões. Para todas as pessoas com demência no mundo — 47,5 milhões, já agora —, e para os incontáveis familiares e amigos que sofrem todos os dias com a doença, exige-se respeito. Não usem doenças para vender nada, caramba. Se vamos por esse caminho, não tarda achamos que é normal usar o cancro infantil em anúncios de brinquedos ou enfartes para vender telemóveis. Tenham juízo.

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Com bastante sensatez mas muito pouca fome nos últimos dias, Marta Cerqueira experimentou 17 restaurantes vegans para nos dar o Top 10 dos melhores espaços em Lisboa. O primeiro lugar foi para um espaço no Saldanha onde nenhum dos pratos principais custa mais do que 11,95€. Ora aqui está uma excelente sugestão.

Em contagem decrescente para o Natal, fomos perceber o que aconteceria se a noite de 24 de dezembro durasse um mês. Spoiler: iria ingerir qualquer coisa como três mil calorias e ficar propenso a um rol interminável de doenças. Ainda bem que esta noite só dura... uma noite.

Caso esteja a pensar no lado emocional da questão, também abordámos esse campo. Mas talvez não seja má ideia dar uma olhadela ao texto da psicóloga Sara Ferreira, que esta semana explica como lidar com a pressão familiar nesta época. A ler.

E ainda não acabámos: já fomos conhecer o restaurante que este domingo chega ao "Pesadelo na Cozinha", contamos-lhe o que a imprensa anda a dizer sobre "Cats" (não é bom) e acabamos de vez com a ideia de que as tempestades mais fortes têm nomes femininos. Marcelo Rebelo de Sousa disse que "são mais perigosas aquelas que têm nome feminino", mas um especialista do IPMA diz que não há qualquer relação na nomenclatura.

Até para a semana. E não se esqueça, subscreva a nossa nova newsletter.

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