No dia em que Greta Thunberg chegou a Lisboa, a 3 de dezembro, a associação de moradores de Fray Hernando de Talavera de la Reina (Toledo) publicou uma imagem nas redes sociais: "Enviado para todas as redes sociais de Greta Thamberg" — assim mesmo, com o apelido mal escrito.

"Querida Greta Thunberg [aqui já acertaram no apelido]. Conscientes da importância de sensibilizar o mundo sobre a situação ambiental, esta associação de vizinhos junta-se à tua luta para te apoiar da seguinte forma: pusemos à tua disposição um burro".

Era óbvio que esta história tinha todos os ingredientes para se tornar viral — propor à jovem de 16 anos que se deslocasse de burro entre Lisboa e Madrid era a estratégia de marketing perfeita para enfurecer os ativistas, dar azo à imaginação dos trolls e fazer rir aqueles que não têm uma opinião concreta sobre o assunto.

Antes de avançarmos para o quão perigosa se tornou esta palhaçada, vamos só dar mais algum contexto: como em tudo na vida, nós, seres humanos, continuamos a insistir em querer ver o mundo a preto e branco. Portanto, quando o assunto é Greta Thunberg, só há duas formas de ver o assunto — ou odiamo-la porque é uma adolescente que só quer aparecer e não fez nada de concreto pelo ambiente, ou adoramo-la porque é uma jovem ativista que está a mudar mentalidades.

Não há meio termo. E nesta ausência de meio termo, nas redes sociais parecem persistir mais avidamente os que odeiam a miúda do que aqueles que pelo menos respeitam o que ela anda aqui a fazer. Portanto, uma carta destas é a receita perfeita para a viralidade — e, claro, para um rol interminável de piadas.

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Analisemos a carta. Elaborada a computador, com o tipo de letra Comic Sans, um boneco que parece tirado do ClipArt e uma moldura a envolver a fotografia do burro, poderia muito bem ter sido feita por uma criança do 4.º ano nos finais dos anos 90. Seria apenas uma brincadeira? Não acredito. Mas se quisermos ir por aí, remata-se já o assunto — o facto de estarmos prestes a ficar sem água, a assistir a fenómenos meteorológicos devastadores e a caminho de uma extinção em massa parece-me ser tudo menos assunto de piada. E eu até sou uma pessoa com um amplo sentido de humor.

Não, isto não foi uma piada. Foi uma tentativa de obter notoriedade — mesmo que seja a notoriedade vazia e efémera que as redes sociais nos proporcionam —, gozando com uma adolescente de 16 anos que está a fazer o que pode para alertar o mundo para a situação que estamos a viver.

Oferecer um burro para este trajeto é só irrisório. Não me venham dizer que é o meio menos poluente, obviamente que Greta não está sozinha nesta viagem com uma única mochila às costas. Seria logisticamente impossível de o fazer. Além disso, estamos mesmo a ponderar mandar uma miúda fazer 257 quilómetros sozinha montada em cima de um burro? Que se lixe se for apanhada por alguém a meio do caminho, roubada ou até violada. Hey, assim sim é que ela era amiga do ambiente.

Nota: Greta é vegan. E se tiverem dois dedos de testa, saberão que os vegans não se limitam a não comer carne ou peixe, eles também abominam todas as práticas de exploração dos animais, nomeadamente se isso implicar fazer deles o nosso meio de transporte.

Queremos ver Greta a rastejar na lama para lhe dar alguma credibilidade. Ela tem de andar nua (as roupas são inimigas do ambiente), comer relva (mas não muita, para não dar cabo do planeta) e deslocar-se a pé, porque só assim pode abrir a boca para falar.

Não. Não temos de passar a viver como na pré-história para salvar o planeta, isso nem sequer era possível na era em que vivemos. Não precisamos de andar de burro, podemos optar por deixar o carro em casa mais vezes e apanhar o autocarro. Podemos trocar os bilhetes da Ryanair a 9,99€ por um bilhete de comboio a 15,99€. Podemos optar por marcas de roupa sustentáveis, e quiçá reduzir um bocadinho o consumo de carne, nem que seja a duas ou três refeições. Por mais pequeno que seja o gesto, se for feito por todos, já estamos a ajudar.

Deixem os burros em paz e deixem-se de tretas. O assunto é demasiado sério para isso, e precisamos de agir todos para salvar a nossa geração — a nossa, a dos nossos filhos, a dos nossos netos — da condenação. Quando não houver Baixa de Lisboa por causa da subida do nível das águas, quando tivermos mais animais extintos do que vivos, e quando implorarmos por mais uma gota de água só para sobreviver, se calhar vamos perceber que o burro não tinha assim tanta piada. Que paremos de gozar e que façamos alguma coisa. Caramba, já separaram sequer o lixo hoje?

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Esta semana, a jornalista Ana Luísa Bernardino passou pela Capital do Natal para perceber se podíamos falar mesmo em "fraude". Foi essa a acusação de muitos visitantes que passaram por lá no fim de semana de abertura e descobriram um evento bem diferente do que tinham idealizado.

Já Marta Cerqueira esteve à conversa com Raquel Comprido, que criou uma plataforma de voluntariado que liga as instituições a quem quer ajudar. Quantas vezes já ouviu alguém dizer — ou repetiu esta mesma ideia — que queria muito fazer voluntariado mas não sabe como? Agora já sabe.

Já Rafaela Simões foi à caça dos bolos-rei e bolos-rainha de supermercado para atirar a redação da MAGG numa prova cega. Qual o melhor? É ver o ranking. Depois disso atire-se para o artigo que nos diz como recriar 5 looks de Cristina Ferreira em lojas de fast fashion, veja quais são as 100 melhores séries da última década e descubra 8 sugestões para este fim de semana que não têm nada que ver com o Natal.

Até para a semana.

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