Não está fácil, malta. Houve um qualquer dia em que pensei: "pá, já me habituei a isto da quarentena, até estou a gostar". lol, está bem ó abelha. Uma coisa que aprendi no meio desta jornada secular que é a do isolamento é que aqui não há etapas mentais fixas, porque estamos todos a bordo da montanha russa de estados de espírito mais radical na história da humanidade. Isto é como montar um dragão e tentar não cair. E reparem: os dragões não existem e, existindo, era impossível não tombarmos do seu dorso abaixo. Portanto, nos estranhos tempos que correm, num momento estamos a sorrir "bom diaaaaa" e no outro estamos em posição fetal na cama a chorar "não aguento mais, devolvam-me a minha vida".

No Instagram, no Facebook, e nas demais plataformas de partilha, a ideia que vos chega é outra, bem sei. Mas não se enganem. Nos bastidores daquele video do fitness, está uma marmanja a enfardar um pacote de batatas fritas. Nos bastidores daquela cara maquilhada, daquele top giríssimo, estão umas calças de pijama cheias de borboto. Nos bastidores daquela manta de crochê, está mais um episódio de um qualquer reality show manhoso. E nos bastidores daquela selfie de pele impecável, está um filtro mentiroso, mas, pronto, esse não engana ninguém e até os mais fracos de espírito topam.

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Enfim, com a quarentena exacerbaram-se as modas da produtividade e do selfcare. Mas, como em qualquer tendência, cabe-nos a nós decidir se vamos ou não com o resto da carneirada. Venham antes comigo, irmãos e irmãs. Na maravilhosa seita da amargura, há vantagens que nunca mais acabam. É um espaço de conexão profundo com o nosso verdadeiro eu, sem filtros, auto-censura e restrições: dizemos o que nos vai na real gana, comemos bolachas quando queremos, ficamos de pijama o tempo que nos apetecer e não nos obrigamos a ser ultra produtivos, que coisa irritante. 

Mas não se enganem. A mente continua a funcionar, portanto o fluxo de pensamentos prossegue ao seu ritmo verdadeiro. A seita da amargura é essencialmente sobre isso, sobre a verdade, sobre conclusões, perguntas e pensamentos soltos.

Comigo tem rolado assim.

1. A tripolaridade existe. Age sorrateiramente, com uma intensidade proporcional à dos dias fechados em casa. Tem três estados que tomam conta do indivíduo no mesmo dia. Divide-se em: "pronta para a aventura", "ligeiramente instável" e "hello darkness my old friend".

2. No "hello darkness my old friend" a comunicação varia entre o grito, o choro e a ausência de palavras, enquanto se encara o vazio.

3. Tenho muito mais cabelo branco do que pensava. E isso é triste.

4. Tomar banho é overrated.

5. Por outro lado, roupa é vida. Já decidiram o que é que vão vestir quando isto acabar? Estou obcecada com esta ideia.

6. Às vezes experimento roupa só para saber se ainda me serve. Recuso-me a usar balanças.

7. Andar por lojas de roupa a mexer em vários tipos de têxtil é terapêutico. Tenho muitas saudades disso.

8. Descobri a bengala da fala do António Costa: "Vamo' lá ver".

9. Será que é o Paulo Portas que faz aqueles powerpoints deliciosos da TVI?

10. Gostar do André Ventura não tem que ver só com falta de educação e formação. A quantidade de betos fascistas dos colégios do meu Facebook é impressionante. Em vez de desamigá-los, prefiro mantê-los perto de mim.

11. Fazer brownies é fácil. Demasiado fácil.

12. Depois de ver o live do Bruno Nogueira e de ir rever o primeiro episódio do "Último a Sair" concluo que o Bruno Nogueira está a envelhecer muito bem, sim senhora, parabéns.

13. Já que falamos em Bruno Nogueira, a nova forma de FOMO é não assistir ao live do Bruno Nogueira. E a nova forma de tortura é ouvir alguém a comentar o live, sem que o tenhamos visto. É quase como estar com alguém que está a narrar aquela noite épica do Lux a que faltámos.

14. Será que o Lux abre em 2020?

15. Estar muito tempo deitado faz doer o corpo, quase tanto como se tivéssemos treinado. Dá para enganar o cérebro.

16. Há uma força maligna que não me deixa começar um livro novo sem ter acabado o anterior. Estou com o "Sinais de Fogo" do Jorge de Sena desde 2019.

17. Por falar em livros, não acham que o Carlos da Maia devia ter ficado com a Maria Eduarda?

18. Como disse uma amiga minha, loiça suja é como erva daninha. Cresce a um ritmo alucinante.

19. Ver vídeos com apanhados da verborreia do Donald Trump é como assistir a um espetáculo de humor negro — mas sempre naquelas partes em que temos de tapar a cara porque a vergonha alheia se torna insuportável.

20. O Donald Trump tem idade mental de quatro anos. Isso vê-se pela forma como responde aos jornalistas. Passo algum tempo a construir uma resposta para o caso de um dia ser uma das insultadas nas conferências de imprensa. Quando é que isso vai acontecer? Nunca.

21. O Donald Trump está constantemente a fazer duck face. Visualizem lá.

22. O truque para começar a poupar é não sair de casa. Só descobri isso agora.

23. Tenho imensos pijamas. São todos feios.

24. Odeio videochamadas, mas odeio que não me convidem para as videochamadas. Mesmo que seja para ignorar ou dizer que não.

25. "Homeland" está quase a chegar ao fim.

26. Porque é que a Carrie Mathison está sempre a chorar? Aquele beicinho a tremer mexe comigo.

27. Com todo o respeito pelos professores, mas a telescola é hilariante. Ora vejam.

28. Se regarmos as plantas, elas não morrem.

29. O meu Instagram é o maior engodo do mundo e está-me a tornar numa má pessoa. Tenho seriamente de deixar de seguir 80% das pessoas.

30. Houve uma altura em que selfies não era cool. Em que momento é que começou a ser considerado fixe?

31. Qual é a desculpa mental a que as pessoas se agarram quando publicam pela 30.ª vez uma selfie onde só se vê aquela expressão facial que foi usada em todas as outras 18734.º selfies? Em que é que pensam quando publicam uma fotografia do verão de 2019? "Ai, os meus seguidores querem mesmo ver isto". Bitch, ninguém quer saber das tuas férias em Palma de Maiorca.

32. Comovo-me com qualquer filme. Até com o "Hunger Games" chorei. E isto, meus amigos, é bater no fundo.

33. A minha vida era absolutamente perfeita antes disto começar.

34. Sou um bichinho muito social. Preciso de pessoas na minha vida.

35. Correr na rua é fixe e a cena das hormonas maradas da felicidade é mesmo real.

36. A primeira coisa que vou fazer quando isto acabar é ir ao cabeleireiro.

37. Logo a seguir, vou ter com alguém a um qualquer jardim de Lisboa e beber umas cervejas. Qui ça, apanhar aquele covidzinho básico.

38. Sou mesmo uma pessoa de gostos simples.

39. Tenho saudades de abracinhos dos meus amigos.

40. Quando é que as pessoas vão perceber que canecas, quadros e outros elementos decorativos com mensagens fofinhas é do mais bimbo que há?

41. Beber vinho a partir do meio-dia é ok.

42. Quem é que inventou as batatas fritas?

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