Será que é agora que vou falar de aventura? Sim, já não tem de esperar mais porque andei, literalmente, a bater com a cabeça durante quatro horas de aventura. Antes disso, as mãos foram desafiadas a uma aventura de artesanato em Santa Maria. Aida Bairos (mais conhecia em Santa Maria como Aida dos vimes) ensinou-nos esta arte da forma mais eficaz possível: D.I.Y., que é como quem diz: agora desenrasquem-se.

Durante um workshop, Aida começou por explicar o que a trouxe para este ramo com apenas 23 anos, apesar de o pai sempre se ter dedicado ao ofício. “A primeira peça que fiz não foi com ele que aprendi, foi com uma vizinha. Aprendi a condessa [pequena cesta] e tomei-lhe o gosto. Trabalho nesta arte há mais de 30 anos”, contou Aida à MAGG. Desde então já fez cestos e até uma alcofa de bebé juntamente com um designer do continente, embora o trabalho mais desafiante não tenha sido esse. “O mais desafiante acabei há poucos dias. Foram botões”, revela à MAGG.

Botões em vime feitos por Aida Bairos
Botões em vime feitos por Aida Bairos créditos: MAGG

Também eu tenho 23 anos e Aida tentou passar-me o legado ao ensinar a fazer uma base de mesa em vime. Valeu pela experiência, mas aptidão é algo que não me assiste: gosto mais de me dedicar a palavras do que atos. Deixo os vimes para quem sabe: Aida. A artesã bem que tentou que mais pessoas soubessem fazer esta arte, mas as novas gerações têm outros objetivos e os mais velhos fartam-se rapidamente.

Ainda assim, para turistas curiosos, Aida ensina a sua arte através de workshops que podem começar nos 20€ (acompanhe as novidades na página de Facebook), ou ao levá-los para onde tudo começa: no campo. Entre fevereiro e março, quem quiser juntar-se a Aida no processo da apanha, cozedura (entre 2h30 a 3 horas) e descasque dos vimes, não só pode como a ajuda é muito bem-vinda.

Aida Bairos com uma condessa
Aida Bairos com uma condessa créditos: MAGG

Do artesanato da ilha passámos para os encantos debaixo do mar. Como já destacámos, a meteorologia em Santa Maria é imprevisível e o batismo de mergulho com jamantas que estava previsto foi substituído por uma experiência virtual. Mesmo acima do nível mar, fomos até à "Baixa do Ambrósio" mergulhar com esta espécie migratória protegida, que marca anualmente as férias em Santa Maria a partir de junho.

Mas o mergulho com jamantas não é a única opção do Mantamaria, empresa de atividades marinhas. É possível fazer snorkeling e passeios de barco à volta da ilha (a partir de 40€), que permitem entrar em grutas e praias de difícil acesso (como a Prainha, uma praia que parece paradisíaca e é também acessível por trilho) ou visitar os Ilhéus das Formigas (75€). 

Em breve, a Mantamaria também vai ter pranchas de paddle para quem não gosta de ir para águas profundas. Seja qual for a atividade, certo é que vai estar quentinho porque “a sul do arquipélago há dias em que a água tem a temperatura ambiente”, revela Jorge Botelho, que fundou o Mantamaria em 2011 e integrou o primeiro curso de mergulho da ilha, em 1988. Anos de experiência não lhe faltam e nada teme debaixo de água — mesmo os tubarões baleia que são tantos mais quanto mais quente estiver a água e formam um cenário impressionante.

Apesar de contraditório, a beleza do mar que podemos avistar em mergulho, é saboreada à mesa, neste caso, já na hora de almoço. Provei um lírio — peixe comum nos Açores — pescado pelo marido da proprietária do restaurante Bar dos Anjos, que tem uma vista fenomenal para a praia e em dias de vento forte mostra tonalidades azuis da água do mar e branco da rebentação que galgam mais uma das piscinas naturais de Santa Maria.

Vista do restaurante Bar dos Anjos
Vista do restaurante Bar dos Anjos créditos: MAGG

Já em dias de sol, segundo a guia Laurinda Sousa, é o melhor spot para “um vinho ou cerveja com uns amigos” e assistir ao pôr-do-sol na ilha de Santa Maria. Já me imaginava aqui no verão.

Ponto alto da viagem: percorrer pontos altos em Santa Maria

Lembram-se de falar de “bater com a cabeça”? Bem-vindos ao jipe aventura, do Paraíso Radical. Depois de ter estado em Angola, fazer uma tour pelo Parque Nacional do Quiçama num veículo descoberto, com um qualquer ramo de árvore em perigo iminente de me furar um olho, ou de andar por Marrocos entre os montes do deserto num outro jipe, esse já coberto, cuja janela ficava quase resvés com o chão, estava preparada para tudo. É aventura? Siga, se for preciso um hospital pelo menos até volto a andar de avião e vou até São Miguel.

Contudo, o meu pensamento foi deitado por terra logo após conhecer Marco, responsável pelo Paraíso Radical e pela aventura que estava prestes a acontecer. Com esta empresa há seis anos, Marco nunca teve uma “aventura” desagradável com nenhum dos clientes. Sabe bem o que faz, até porque começou a ganhar experiência mal tirou a carta, aos 18 anos, e nos tours que dirige hoje em dia já sabe os pontos de interesse e conhece ao milímetro as estradas apertadas pela floresta onde o espelho do jipe quase bate.

Esse momento aconteceu e teve aviso prévio. Por mais que quiséssemos mostrar que não estávamos preocupados, foi inevitável: até o espelho passar sem um arranhão, o silêncio e olhar atento colocou pressão sobre Marco que, já é sabido, ultrapassou a tarefa com distinção.

Alguns caminhos são feitos a 10 quilómetros por hora de pura turbulência e êxtase — não há conta-quilómetros que meça a adrenalina de andar por caminhos que só Marco conhece e que nos dão tempo para apreciar os ramos perfeitos de árvores com milhares de anos. O percurso começou nos Anjos, num cenário de mar que tão bem carateriza a ilha, mas depressa chegámos a Marte. Ou melhor, ao deserto vermelho, em Barreiro da Faneca.

Deserto vermelho, em Barreiro da Faneca
Deserto vermelho, em Barreiro da Faneca créditos: MAGG

Máscara fora, olhos abertos (mas não demasiado para não entrarem quilos de areia quando faz vento). Malta com lentes, protejam-se. Não há como descrever o cheiro, porque parece de outra dimensão, outro planeta. O deserto vermelho resulta de cinzas vulcânicas com milhões de anos, na altura em que a atividade vulcânica estava ativa em Santa Maria, e resta esta areia para recordar o passado geológico. Marco deu-nos tempo para absorver tudo isto e depois de esperar que estivéssemos a bordo, lá seguimos.

Marco do Paraíso Radical
Marco do Paraíso Radical créditos: MAGG

Passámos por várias freguesias — cada uma com a particularidade de ter uma cor diferente marcada nas casas, nas ermidas ou edifícios, sendo que Santa Bárbara é dominada por azul anil, Santo Espírito por verde e Almagreira por vermelho (almagre, um tipo de argila avermelhada) — vimos também a Ermida de Nossa Senhora de Fátima, na freguesia de São Pedro, onde por cada uma das 150 escadas os fiéis rezam uma Ave Maria e em cada patamar um Pai Nosso, e fizemos uma paragem no Miradouro das Lagoinhas. Nunca levei com tanto vento na cara, tal como nunca me senti de cara e alma tão refrescada, mal sabia que estava prestes a sentir ainda mais coisas e de forma mais intensa.

Pelo caminho até ao ponto seguinte, foi como estar no filme “Música no Coração”, quando Maria percorre os prados verdejantes cuja erva se move ao sabor do vento. Quis acompanhar esta imagem com os cheiros, mas mal abri a janela percebi que as vacas por aqui não andam apenas felizes, mas também aliviadas.

Janela fechada. Por falar em vacas, foram várias as vezes que as encontrámos e sempre que parávamos para fotografar ou apenas admirar, estas não só posavam, como ficavam a olhar fixamente. É tão perturbador, quanto fofo.

Vacas ilha de Santa Maria
Vacas ilha de Santa Maria créditos: MAGG

E o que era de um jipe aventura sem um percalço? Pelo meio do caminho, um ramo estava a bloquear a estrada e Marco afastou-o rapidamente. Mais uma vez, as aventuras do Paraíso Radical são ao de leve. Podia ter sido um tronco, mas foi só um ramo - o q.b. necessário para uma viagem de aventura.

Marco a tirar o ramo da estrada
Marco a tirar o ramo da estrada créditos: MAGG

Voltamos a mais um ponto de deslumbre: o Poço da Pedreira. As cores da antiga pedreira parece que foram pintadas à mão, mas são fruto exclusivo da natureza. O laranja tijolo recai sobre o poço por onde andam rãs, que por vezes fazem um verdadeiro concerto. É possível assistir ao mesmo embalado pelo balouço ou de marmita na mão na mesa de piquenique. A prova de que tudo aqui está em estado puro são os líquenes que se colam às rochas — sinal de que o ar é puro.

Quando pensava que nada podia superar esta beleza natural, passámos pelo imponente Farol da Maia e fomos à Foz da Ribeira Grande, Lugar do Aveiro, onde fica a Cascata do Aveiro, conhecida como uma das mais altas de Portugal. Fiquei petrificada. Olhei uma, duas vezes para a Cascata, fotografei, voltei a olhar, novamente a fotografar e, por fim, fiquei a olhar largos minutos. Queria registar de todas as formas possíveis o que estava a ver e a sentir: uma paz impressionante, os salpicos refrescantes na cara, o cheiro a água doce e porque isto já está demasiado romantizado, o cheiro a pato — não faltavam uns quantos pelo Lugar do Aveiro.

É também aqui que fica o Machu Picchu português, como alguns marienses chamam em tom de brincadeira. As vinhas assemelham-se à forma do histórico monumento no Peru e apesar de não lhes ter dado a mesma a atenção que às Cascatas do Aveiro, merecem ser destacadas por trazerem um pouco do mundo para a ilha de Santa Maria.

Machu Picchu português
Machu Picchu português créditos: MAGG

Prestes a terminar percurso — que não deixa dúvidas de que Açores é "Seguro por Natureza’”, slogan que me levou até ao arquipélago — o remate foi num local óbvio no momento certo: praia, mais precisamente a praia Formosa. Não chovia, não estava frio, não havia pôr-do-sol, mas finalmente pude ver de perto a areia branca que caracteriza Santa Maria num ambiente sereno para fazer a despedida.

Praia Formosa, Santa Maria
Praia Formosa, Santa Maria créditos: MAGG

Também me despedi de Marco, que espera receber turistas curiosos em qualquer altura, especialmente no verão. Os tours podem ser feitos pela costa Norte ou Sul da ilha e custam a partir de 40€ por pessoa (máximo de quatro pessoas).

Queijo, oh queijo

Depois de me despedir da natureza (em bom), faltava despedir-me da gastronomia. Fomos até ao Espaço em Cena, que é restaurante, galeria de arte, espaço de dança e também de teatro. À mesa, o palco deste espetáculo, as personagens começavam a brilhar: maionese de alho com pimenta acompanhada de palitos de cenoura (2,40€), sopa de cogumelos ostra (4€) e bolinhos de queijo e vegetais (13,50€).

A ementa varia todos os dias, mas tive a sorte de provar estes bolinhos e despedir-me não só da comida num espaço de cozinha criativa, como dos pratos de queijo (ainda se recorda daquele ovo escalfado imerso em queijo da ilha com uma base de repolho? Eu não me esqueço). Apesar de os bolinhos não serem feitos com queijo da ilha, os queijos feta, halloumi e parmesão resultaram numa combinação saborosamente intensa, quase tanto como um dos que se encontra no arquipélago.

Vinho, esse, do início ao fim desta viagem foi sempre do continente por mais que a cada refeição perguntássemos: “O vinho é de Santa Maria?”. Na ilha não há produção, mas poderá chegar em breve (e será só mais um dos pretextos para voltar).

Depois de quatro dias de chuva e vento nos Açores, saio de Santa Maria com um sol e imenso e sou recebida na capital com o quê? Ameaça de chuva. São Pedro, tenho calças e ténis com lama para lavar depois de uma aventura a bordo do melhor jipe onde já andei. Importas-te?

*A MAGG viajou a convite da Associação do Turismo dos Açores para a promoção da campanha “Açores, Seguro por Natureza”

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