Sou de Oliveira de Azeméis, cidade vizinha de São João da Madeira e concelho à qual esta pertencia até 1926. Sou também contemporânea de Pedro Nuno Santos (separam-nos seis anos), o recém-eleito líder do Partido Socialista e que poderá vir a ser o próximo primeiro-ministro de Portugal. Não nos conhecemos, nunca nos cruzámos. No entanto, crescemos nas mesmas épocas, em cidades vizinhas. Temos histórias familiares semelhantes. Ele, neto de sapateiro. Eu neta de padeira e moleiro, neta de metalúrgico, também empresário que, tal como o pai de Pedro Nuno Santos, contribuiu para o crescimento do tecido industrial da 'nossa' zona.

"Pedro Nuno Santos é bué daddy". Mas afinal o que é isso de ser daddy? Fomos à procura de respostas
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Os que gozaram, viram populismo inócuo ou interpretaram de forma maldosa a frase "sou neto de sapateiro, filho de empresário", dita por PNS aquando a apresentação da candidatura à liderança do Partido Socialista, não sabem do que falam. Não são daqui, não sabem o que isso significa. Isso não significa mais nada do que a frase encerra. A história da ascensão social da família de Pedro Nuno Santos é a história de tantas famílias daqui. Umas com mais sucesso, outras com menos, muita gente deu o salto, num só geração, de uma vida difícil para uma vida desafogada.

São João da Madeira (SJM) e Oliveira de Azeméis (OAZ) tiveram, nos anos 90, crescimentos semelhantes mas também muito díspares. Enquanto as zonas industriais cresciam por igual, SJM cidade prosperou. Era uma cidade moderna, com vida, com muito comércio, bares, discotecas. Era onde se ia comprar sapatos, roupa. Mais tarde sair à noite. Na adolescência, o objetivo era arranjar um colega mais velho com carro que nos pudesse levar até São João. Ali, havia animação. Em Oliveira não se passava nada.

Pedro Nuno Santos é o que se poderia chamar, usando um termo caído em desuso, um 'queque'. Um beto, vá. Mas um beto de São João da Madeira ou Oliveira de Azeméis não é a mesma coisa do que um beto das Avenidas Novas, do Restelo, de Cascais ou da Foz. Há especificidades. Para começar, o facto de, aqui, não haver colégios privados. Toda a gente, do mais rico ou mais pobre, ia parar à escola pública. O que não significava, necessariamente, uma grande confraternização entre classes sociais mas sim uma estratificação ainda mais evidente.

O que a bolha mediática, esmagadoramente capitalocêntrica, não entende, porque não é daqui, é que as escolas públicas de então não eram as escolas públicas de hoje em dia. Pelo menos nesta zona. Não sei em que escola estudou Pedro Nuno Santos mas posso dar o exemplo da minha, a Escola Secundária Ferreira de Castro. No final da década de 90, tínhamos patins em linha, half pipe, uma rádio com um estúdio com equipamento profissional. Com 15 anos, fizemos uma visita de estudo a Londres. As 17 anos, fomos numa viagem de estudo a Nova Iorque (sim, a Nova Iorque), financiada em parte por donativos de empresas locais. Quando digo 'fomos', estou a referir-me à minoria (na qual eu me incluía) cujos pais podiam pagar estes luxos. E se são luxos em 2023, em que os voos são infinitamente mais baratos, imagine-se há 25 anos. Quando se diz que havia muito dinheiro na altura é mesmo verdade. Havia MUITO dinheiro na altura. E isto formata-nos. Para o bem e para o mal.

A praia do Furadouro, onde creio que família de Pedro Nuno Santos tem casa, é um micro-cosmos da sociedade de terras de entre Douro e Vouga, da forma como o crescimento sócio-económico dos concelhos mais próximos moldou uma pequena aldeia de pescadores, transformando-a numa aberração urbanística, tal foi a procura de segundas habitações para férias e fins de semana. Este lugar de veraneio do concelho de Ovar é, aliás, paradigmático do que são ainda as várias classes sociais de São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, e outros dois concelhos mais do interior, Vale de Cambra e Arouca. Os remediados conseguiram comprar o seu apartamento nas ruas mais longe da praia. Os mais abastados mais perto do areal. Os realmente ricos as vivendas. O resultado foi, com tanta construção desregrada, o desaparecimento do areal. Mas isso são outros 500. Mas era e ainda é ali que, no verão, se podem observar as castas. As linhagens. Os grupos. O quem é quem do eixo Feira-SJM-OAZ.

Crescer numa época próspera e no seio da prosperidade dá-nos confiança mas também nos dá arrogância. Confere-nos uma certeza pouco cautelosa de que somos capazes de fazer tudo a que nos propomos. Pedro Nuno Santos tem, pela forma temerária e, por vezes, intempestiva, como se apresenta, esses traços. E é-me inevitável reconhecer ali características tão daqui, de pessoas com quem me fui cruzando ao longo dos anos. Os tais "filhos de empresários", com os seus grupinhos fechados, forjando alianças juvenis, alicerçadas em interesses comuns, muitas das quais perduram até aos dias de hoje.

Junte-se a esses factores todos a política local, na qual Pedro Nuno Santos cresceu. Esta zona foi, até há muito pouco tempo, bastião do PSD. Foram quatro décadas de domínio social-democrata, o que significa que o PS esperou muito tempo para chegar ao poder. O que significará que há muitos aliados de Pedro Nuno Santos, companheiros desta caminhada, à espera de poder. E vai ser curioso ver de que sotaques se vai rodear Pedro Nuno Santos, caso chegue a primeiro-ministro. E caso chegue, e caso não se rodeie de um grupo descentralizado, será interessante perceber as reações.

Na entrevista que concedeu a Júlia Pinheiro, a primeira após ter sido eleito secretário-geral do PS, houve dois aspectos que passaram despercebidos mas que me chamaram a atenção. Quando questionado pela apresentadora sobre o porquê de ter escolhido ir estudar para uma universidade em Lisboa em vez de no Porto (que fica a apenas 30 minutos de São João da Madeira), Pedro Nuno Santos deu uma resposta politicamente correta e um pouco evasiva. Fez-me sorrir. Percebi que não quis afrontar cidades e instituições e percebi também no seu silêncio os motivos, quando depois Júlia Pinheiro explicava que, na capital, o agora secretário-geral do PS se tinha envolvido em movimentos estudantis anti-praxe. Algo com que me identifico totalmente e um dos motivos pelos quais me escolher Lisboa (e não o Porto, e muito menos Coimbra) para estudar.

Lisboa não é mais do que uma aldeia com gente que parece um bocadinho menos aldeã do que as das aldeias. Ainda assim, uma aldeia. São João da Madeira (ou Oliveira de Azeméis) não são as "terrinhas", não é a "província", ou qualquer outro termo parolo-asqueroso que os desconhecedores do País armados em viajados costumam usar para designar tudo o que não é Lisboa, Cascais ou Vilamoura. São micro-sociedades complexas (como todas as cidades, vilas e aldeias, aliás), com dinâmicas próprias, paradoxos, lógicas por vezes incompreensíveis a quem está de fora.

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