É provável que nem todas as mulheres que estejam a ler este artigo tenham tomado a vacina contra o Vírus do Papiloma Humano (HPV) aos 12-13 anos, uma vez que esta só começou a fazer parte do Programa Nacional de Vacinação (PNV) em 2008. Atualmente, está mais do que provado que as taxas de cancro do colo do útero baixaram significativamente em mulheres que foram vacinadas contra o HPV nestas idades.

E quem não foi? Ainda pode ser vacinado? Quanto custa a vacinação? É importante que optemos por a tomar mesmo em idades mais avançadas? Além da vacina, qual a melhor forma de prevenir o vírus do HPV e possíveis complicações? Fomos à procura de respostas, mas, antes de lá chegarmos, é importante perceber o que é, afinal, o HPV.

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"O HPV, papilomavírus, é um vírus que existe em cerca de 200 tipos. É um vírus altamente específico, que infeta só os humanos, e que, essencialmente, se divide entre os vírus que atingem a parte cutânea ou a parte mucosa. Dentro destes cerca de 200 subtipos de vírus de HPV, existe um grupo que é considerado de alto risco para o cancro do colo do útero", explica à MAGG o ginecologista Pedro Vieira Enes. 

Nos HPV de alto risco estão incluídos os tipos 16 e 18, responsáveis por 75% das lesões mais graves (cancerígenas). Já nos HPV de baixo risco, incluem-se os tipos 6 e 11, que são responsáveis pela maioria das doenças benignas causadas pelo HPV, como é o caso dos condilomas ou verrugas genitais.

De acordo com a Liga Portuguesa Contra o Cancro, o HPV é hoje considerado o segundo carcinogéneo mais importante, logo a seguir ao tabaco, e está associado a 5% dos cancros, no geral, e a 10% dos cancros na mulher. Além disso, o Papilomavírus Humano é responsável por 100% dos cancros do colo do útero, 84% dos cancros do ânus, 70% dos cancros da vagina, 47% dos cancros do pénis, 40% dos cancros da vulva e 99% dos condilomas ou verrugas nos genitais.

Um estudo recente feito na Inglaterra e publicado na revista The Lancet, veio mostrar que as taxas de cancro do colo do útero são 87% mais baixas em mulheres que foram vacinadas contra o HPV quando tinham entre 12 e 13 anos, 62% mais baixas em mulheres vacinadas entre os 14 e os 16 anos e 34% em mulheres cuja vacinação ocorreu entre os 16 e os 18 anos, lê-se na notícia avançada pelo jornal "Público" a 4 de novembro deste ano.

"As senhoras que fizeram a vacina contra o cancro do colo do útero devem também fazer a citologia com a pesquisa do vírus do HPV"

Pedro Vieira Enes não tem dúvidas de que a vacina contra o HPV veio "mudar completamente" a incidência do cancro do colo do útero e salienta que outra grande "arma" é "o rastreio com a pesquisa do HPV e a citologia cervical". Assim, o especialista alerta que "as senhoras que fizeram a vacina contra o cancro do colo do útero devem também fazer a citologia com a pesquisa do vírus do HPV, porque esta vacina não impede na totalidade a infeção nem que se crie uma lesão", ainda que diminua muito essa percentagem.

Atualmente, o rastreio do cancro do colo do útero pode ser feito de forma gratuita por mulheres entre os 25 e os 64 anos, com um intervalo de cinco anos. Este é um rastreio que, como explica o ginecologista à MAGG, está muito bem organizado e deve ser aproveitado por todas as mulheres incluídas nesta faixa etária.

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"Os cinco anos têm uma explicação lógica estudada que diz que este poderá ser o tempo mínimo necessário desde que a infeção do HPV possa provocar alguma lesão. Toda a evidência fala num espaço de três a cinco anos. Fora do Sistema Nacional de Saúde, poderá fazer-se de três em três anos, mas para quem não consegue realizar esse teste (porque tem um valor elevado), realizar de cinco em cinco anos é uma ótima opção", aconselha o especialista.

Mas, afinal, como é que se apanha HPV e que cuidados devemos ter para que tal não aconteça? Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o vírus não está apenas associado à quantidade de parceiros sexuais, mas Pedro Enes salienta que, de facto, "quanto maior for o número de parceiros sexuais, maior é o risco de ter infeções por HPV".

Sendo sexualmente transmissível, este é também um vírus que pode infetar tanto homens como mulheres e que, como explica o ginecologista, está provado que só se transmite com um contacto direto (através da mucosa ou até mesmo do contacto pele a pele, o que faz com que, segundo o especialista, nem a utilização do preservativo previna a 100% esta transmissão).

Falta de sintomas faz com que seja difícil detetar o vírus sem exame médico

À MAGG, Pedro Enes explica que, na maioria das vezes, o HPV de alto risco não dá sintomas e que apenas outros tipos podem provocar os chamados condilomas (verrugas na área genital) — sendo esse o único sintoma visível. Quanto ao tratamento, o ginecologista refere que não há forma de eliminar o HPV, uma vez que este só poderá ser eliminado pelo organismos. Contudo, há forma de tratar as lesões provocadas pelo papilomavírus.

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"O que fazemos depois de receber as pessoas com HPV positivo é um exame complementar com um microscópio próprio para ver colo do útero e procurar as lesões provocadas pelo HPV nessa área. De acordo com o tipo de lesão, ou mantemos a vigilância ou fazemos um tratamento que pode ser excisional ou destrutivo (mas normalmente é o excisional)", explica, referindo ainda que, mesmo após a remoção dessa zona, a mulher tem de ser vigiada durante um período de três anos visto que o vírus pode continuar ativo.

No caso dos homens, em que o cancro do pénis é muito menor do que o do cancro do colo do útero, tal como diz Pedro Enes, o que é recomendado é que os homens com sintomatologia sejam observados pela especialidade correta para poderem fazer os exames complementares.

Desde o ano passado, também a vacina contra o HPV passou a fazer parte do PNV para rapazes, aos 10 anos de idade. "Isto porque estão a aparecer alguns estudos que têm demonstrado que o HPV também está a ser responsável por um número significativo dos cancros da orofaringe e, portanto, nesta situação, e para diminuir o risco de transmissão, faz todo o sentido que os homens sejam também vacinados", diz o especialista.

Ginecologista aconselha vacina contra o HPV a todas as mulheres, mas admite que valor é elevado

Atualmente, apenas as mulheres até aos 30 anos tiveram direito a serem vacinadas contra o HPV de forma gratuita aos 12/13 anos, uma vez que as jovens nascidas em 1992 foram as primeiras a usufruir da inoculação quando esta entrou no Programa Nacional de Vacinação.

Esta é uma vacina que, como explica Pedro Enes, pode custar cerca de 143€ por dose (sendo que são necessárias três doses). "A vacinação de mulheres além dos 25 anos tem uma relação de custo benefício discutível em termos de saúde pública, mas, de facto, confere uma proteção individual significativa pelo que deve ser sempre aconselhável fazer (pelo menos até aos 45 anos)", diz.

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"Na minha consulta de rastreio do cancro do colo do útero eu aconselho todas as minhas pacientes e prescrevo a vacina, mas compreendo perfeitamente o custo que isso tem. Algumas senhoras têm conseguido com o apoio da segurança social comprar esta vacina", continua, salientando que o sistema funciona bem nestes aspetos.

Para Pedro Enes, os resultados de diminuição significativa dos cancros do colo do útero não se devem apenas à vacina, mas também ao programa de rastreio que, segundo o especialista, é um dos melhores em Portugal. "É um rastreio que tem um valor monetário muito grande e o que peço sempre às senhoras é que nunca deixem de fazer este rastreio no Centro de Saúde — porque não se paga e é o melhor rastreio que há."

O rastreio do cancro do colo do útero consiste na pesquisa do HPV e, se necessário, na realização de citologia em meio líquido. O teste é feito por um médico ou enfermeiro do Centro de Saúde onde a pessoa está inscrita. Caso a mulher prefira ser examinada por um profissional de saúde do sexo feminino, deverá fazer o pedido quando for convidada para a realização do mesmo.

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