Gustavo Carona, médico intensivista do Hospital Pedro Hispano e membro da organização Médicos Sem Fronteiras, publicou um vídeo nas suas redes sociais no qual começou por justificar o porquê de ter dito 'não' a um convite para estar no programa de Cristina Ferreira.

Aquela que começou por ser uma explicação sobre as razões que o levaram a recusar o convite para participar no programa "Dia de Cristina" rapidamente se tornou um apelo à responsabilidade coletiva e também um feroz ataque aos movimentos que ou relativizam ou negam simplesmente a existência da COVID-19.

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O médico começa por explicar que foi convidado por um elemento da equipa do programa de Cristina Ferreira para participar no formato e falar sobre a "experiência dos cuidados intensivos". Gustavo Carona diz que recusou estar em estúdio porque vive no Porto e que seria "impossível" deslocar-se a Lisboa. Explica ainda que lhe foi proposto levar a mãe. "De imediato, respondi 'tenho todo o gosto em informar as pessoas sobre a minha visão da medicina, do desafio que estamos a passar, sendo que não estou minimamente interessado em contribuir para telenovelas'".

O médico especialista em cuidados intensivos, presença assídua na comunicação social, diz que nada o move contra Cristina Ferreira mas que este convite é "representativo da total desorientação que estamos a ver neste momento" e da "incompreensão do desafio que estamos a passar". "Isto não é tempo para contar historinhas, isto é tempo para informar".

Veja o vídeo

Gustavo Carona faz questão de explicar os motivos pelos quais é necessário ter recursos e infraestruturas para tratar os doentes covid, desmistificando que estes estejam a gastar recursos que seriam de outra forma canalizados para outros pacientes.

"Estamos a começar a falar de triagem em medicina de catástrofe. Isto significa fazer o máximo pelo maior número de pessoas. Isto é bonito e é lógico. Temos de pensar assim. Mas tem outra mensagem: estamos a dizer que não vamos conseguir fazer tudo. Estamos a querer dizer que há pessoas que vão morrer, que não precisavam de morrer", afirma ainda o especialista.

"É inacreditável que as pessoas não percebam a seriedade deste desafio"

Gustavo Carona faz questão de esclarecer que não só não tem "nenhuma posição política", como não votou no governo liderado por António Costa, além de não ter "simpatia especial" por Marta Temido, ministra da Saúde e Graça Freitas, diretora-geral da Saúde. "Mas tenho todo o respeito do mundo e mais ainda. Eu percebo que ninguém quereria ser decisor político neste momento. É preciso uma grande coragem para estar a ser atacado permanentemente por ignorantes que não sabem rigorosamente nada e que querem transformar isto numa questão politica. Que não o é.  Não é o momento para estar a falar de esquerda ou de direita. A mim não me interessa quem está a mandar. Interessa-me respeitar as instituições porque demorámos muito tempo a construir a democracia", explica.

O médico do hospital Pedro Hispano salienta que esta não é uma "apologia do medo" mas sim uma "apologia da seriedade, do realismo". "Isto está a acontecer. Se nós não percebermos isto, se nós quisermos contar historinhas, ir atrás dos imbecis, dos negacionistas, dos relativistas e das teorias da conspiração, se nós quisermos ir atrás destes anormais, nós vamo-nos arrepender. Isto está a acontecer neste momento".

O médico do Porto diz que, se a pandemia não for levada a sério "isto vai rebentar". "Não é tempo para questionar as autoridades de saúde. Isto não se resolve nos hospitais, isto resolve-se a montante dos hospitais. Não há nada que nós possamos fazer nos hospitais para controlar a pandemia. Isto é um problema de saúde publica, é um problema da sociedade civil, é um problema do nosso comportamento coletivo", alerta.

Gustavo Carona termina, dizendo que, tal como os restantes profissionais de saúde, está "exausto". É inacreditável que as pessoas não percebam a seriedade deste desafio que temos à nossa frente. Que é, repito, de todos nós".

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