Violência obstétrica. A expressão, apesar de não ser nova, pode ser mais ouvida nos dias de hoje, mas as práticas vêm de há muito. Há mulheres que são insultadas durante o parto, que ouvem coisas como"quando foi para fazer, não se queixou" ou são apelidadas histéricas num dos momentos mais vulneráveis das suas vidas.

Outras estão horas a sofrer, veem os seus planos desrespeitados, as suas perguntas ignoradas, e até são vítimas de intervenções desaconselhadas pela Organização Mundial da Saúde, como a manobra de Kristeller, uma intervenção no período expulsivo que envolve a aplicação de pressão manual no útero.

"Sinto que fui violada". O relato de quatro mulheres vítimas de violência obstétrica
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Os tempos avançam, a informação é mais do que muita, mas há hospitais e profissionais de saúde que continuam a desvalorizar os direitos das mulheres no momento do parto e os casos de violência obstétrica multiplicam-se. E se a mudança nas organizações pode ser mais demorada, tenta-se contornar a situação e ir pelo lado das mulheres, dos casais, informando a população em geral para o que não é normal e para o que não deve, em momento algum, acontecer quando estamos a tentar pôr crianças neste mundo.

Foi esse o ponto de partida para a criação da plataforma Parto com Sentido, um site informativo lançado no dia 2 de maio e dedicado a explicar à população — incluindo profissionais de saúde — quais são os direitos das parturientes e também a contrariar a noção da normalidade da violência obstétrica, "combatendo-a com informação", pode ler-se na missão de valores da plataforma.

O primeiro passo foi dado por Ana Sanches, 35 anos, mãe de dois filhos e ativista pelos direitos na gravidez, parto e pós-parto. Com uma página dedicada a conteúdos no mundo da parentalidade, a Dido and Co, foi em agosto de 2020 que Ana fez um questionário sobre os direitos das mulheres nesta fase da vida — com uma amostra de cerca de 2000 participantes — e percebeu a quantidade de mulheres que já passaram por uma situação de violência obstétrica.

parto cm sentido
O site foi lançado a 2 de maio.

Depois de se aperceber desta realidade, Ana Sanches entrou em contacto com a equipa do Movimento #Não é Normal, um movimento feminista que promove a desconstrução de todos os atos de machismo, muitas vezes desvalorizados e aceites pela sociedade como normais. Juntos, começaram a tentar perceber o que fazer para informar a população sobre os direitos das parturientes no momento do parto.

"Fazia sentido juntar outras pessoas à conversa, nomeadamente profissionais que conseguissem trazer evidência científica ao de cima, bem como as suas experiências, e trabalhar o tema de forma produtiva", conta Ana Sanches à MAGG. Assim, o Parto com Sentido, que a ativista considera "nascer da vontade implícita" deste grupo de pessoas de se juntarem e oferecem informação de valor sobre o tema, resulta de uma parceria do Movimento #Não é Normal com a médica ginecologista e obstetra Mariana Torres, o sociólogo Mário Santos, a advogada Mia Negrão e a fisioterapeuta pélvica Soraia Coelho, para além de Ana Sanches.

"Foi como juntar as peças do puzzle e ir buscar as pessoas que trabalham muito o tema em Portugal, que se disponibilizaram a dar o seu conhecimento ao serviço de outras que não estão tão despertas para o tema", diz Ana Sanches, que explica também a presença estratégica do Movimento #Não é Normal nesta iniciativa.

"O Movimento chega a um público que, possivelmente, nós ainda não alcançamos. Chega aos mais jovens, que ainda não pensam em ter filhos, mas que podem ficar já despertos para o tema. É uma espécie de prevenção pró-ativa, digamos assim", salienta a ativista.

"Se não conseguimos mudar as instituições, vamos pelo lado do utente"

Informar e despertar consciências para o tema da violência obstétrica é o objetivo principal do Parto com Sentido. A plataforma tem muita informação, seja dedicada aos tipos de partos, conceitos básicos sobre este momento, fisioterapia, formas de combater este tipo de violência e contactos úteis para denunciar situações, bem como testemunhos.

"O site já está muito completo, queríamos lançar num altura em que fosse possível navegar por uma boa dose de informação. Claro que, no futuro, queremos que exista mais interatividade com quem nos lê, mas agora queremos muito fazer barulho e levar a plataforma até ao maior número de pessoas possível. Queremos educar para a saúde, algo que ainda falta muito em Portugal", diz Ana Sanches.

ana sanches
Ana Sanches é ativista e mãe de duas crianças.

Com muitos direitos das parturientes ainda postos em causa no momento do parto (e não só), e com instituições com informações datadas e descontextualizadas, a ativista assume que é preciso oferecer conhecimento às pessoas. "Se não conseguimos mudar as instituições, vamos pelo lado do utente, explicamos quais são os seus direitos e como estes podem ser postos em causa", diz Ana Sanches, que assume que o objetivo do projeto não é "apontar dedos ou criar uma guerra aberta" com hospitais ou entidades de saúde.

"Queremos que as pessoas se sintam formadas e apoiadas. E se, em Portugal, temos fontes oficiais a partilhar informação datada, queremos contrapor com dados atualizados, evidência científica, formas de orientar a mulher e o casal para esta experiência. Porque a experiência do parto não tem de ser traumatizante, ou sempre intervencionada, mas sim positiva. Queremos que as parturientes tenham as informações necessárias e as condições para ter um parto respeitado e com sentido", relata a ativista.

Maus-tratos durante o parto. Há mulheres que sofrem de abuso físico ou moral
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Informar os jovens é também um passo fundamental — e daí a presença do Movimento #Não é Normal —, algo que funciona numa lógica preventiva. "Embora os filhos ainda não estejam nos planos desta população, é uma forma de deixar uma semente para quando isso acontecer, mais para a frente. E se há coisa que me dá um gozo enorme é quando recebo mensagens de jovens que me dizem que ainda não estão nessa fase da vida, nem planeiam, mas que já sentem muito mais informados e já sabem muito mais para quando lá chegarem", revela Ana Sanches.

"Vamos passar por um período de transição, que pode ser frustrante ao início"

É verdade que, hoje em dia, se fala mais de violência obstétrica. Mas será que estamos a avançar a passo rápido para acabar com as más práticas? "Acho que a força do conjunto está maior, há mais profissionais a falar disto, mais mulheres que já passaram por estas situações que dão voz e amplificam o tema. Mas isto está a mudar alguma coisa do lado das instituições? Aí tenho mais dúvidas", afirma Ana Sanches.

A ativista assume que ainda estamos longe de uma mudança efetiva acontecer. "Vai demorar tempo. Mesmo que haja comunicação, que as pessoas estejam mais informadas, acho que as práticas vão mudar mais lentamente do que o ritmo a que as vozes se estão a levantar."

"Vamos passar por um período de transição, que pode ser frustrante ao início, que vai acontecer porque as práticas estão desatualizadas, mas as pessoas já estão atualizadas. E estas vão sofrer na pele o que é chegar com todos estes planos e com esta quantidade de informação, e verem práticas que não estão de acordo com o que sabem. Mas é por isso que este tipo de projetos são necessários, para fomentar a mudança e agitarmos cada vez mais as águas", conclui Ana Sanches.

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