O percurso de Patrícia Lemos como educadora menstrual já vai longo, mas ainda tem muitos passos para dar. Foi por isso que depois de escrever o livro "Período", um guia sobre a menstruação dirigido a um público infantojuvenil, acaba de lançar "Não É Só Sangue", "para gente crescida", que é como um atlas que inclui um "GPS para descoberta do corpo", um dos pontos do novo livro. Este traça uma rota sobre cada fase do ciclo menstrual e quer chegar a um só destino: ensinar as pessoas que menstruam a perceber os sinais que o corpo dá sobre a saúde e bem-estar através da menstruação — e não só.

Patrícia Lemos, educadora menstrual. "As mulheres sabem zero sobre o seu ciclo menstrual"
Patrícia Lemos, educadora menstrual. "As mulheres sabem zero sobre o seu ciclo menstrual"
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Para Patrícia Lemos, a menstruação não é, e nem nunca foi, um assunto só de mulheres. Desde logo por ser um tema que deve ser debatido por todos. "Por um lado, não é um assunto só de mulheres porque temos que educar os rapazes, os nossos parceiros e os homens para estas questões. Para que se percam vergonhas, e para que as miúdas que têm vergonha de se sujar, não estejam sempre aflitas com o colega que não tem informação sobre isto e vai ficar desconfortável, portanto vai sempre fazer uma piada", diz à MAGG a autora do Círculo Perfeito (uma plataforma sobre educação menstrual, fertilidade e literacia do corpo).

Contudo, os tempos que vivemos trouxeram outro assunto ao de cima. "Por outro lado, temos a questão de isto não ser um assunto só de mulheres, porque as coisas estão a mudar. Comecei a ter contacto com uma realidade diferente de pessoas que chegam ao Círculo Perfeito a dizer 'eu menstruo, nasci neste corpo, mas não me identifico como mulher'", conta a educadora menstrual, que revelou no novo livro vários testemunhos que lhe chegaram.

"Não É Só Sangue: Uma Conversa Sobre o Ciclo Menstrual". (P.V.P. 18.79€) créditos: divulgação

As "pessoas que menstruam" são então mulheres, pessoas não binárias, intersexo e (alguns) homens trans, cuja aceitação na sociedade deve passar além da educação desde tenra idade. "Acho que nos esquecemos de duas coisas importantes quando olhamos para este tema, que são sobretudo as questões de tolerância e respeito pela privacidade e liberdade do outro", sublinha.

No entanto, para lá desta questão mais atual, o ciclo menstrual — que não é novidade —, enquanto indicador de saúde e bem-estar é ainda, em muitos casos, desconhecido ou os vários aspetos que o compõem foram normalizados ao longo do tempo. Só que como Patrícia Lemos refere no livro, "comum e normal não significam o mesmo".

Endometriose. A doença dolorosa que é confundida com dores menstruais
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"Por exemplo, no caso das dores menstruais, hoje, finalmente, já se começa a ouvir falar da endometriose e adenomiose. Já se começa a perceber que os miomas que provocam hemorragias muito abundantes também podem causar este desconforto forte ao nível da dor", refere a educadora menstrual, que destaca o papel da evolução da tecnologia ao serviço da medicina, como as ecografias, que vieram permitir melhores e mais rápidos diagnósticos. "Acho que está na altura de pararmos com a normalização, a ideia de que o corpo que nasceu com um útero e que menstrua nasceu para ter dor sempre. Porque agora sabemos mais e sabemos melhor", acrescenta.

Patrícia tem contribuído para este último ponto não só através da sua plataforma, como também com o Instagram Circulo Perfeito, no qual, de forma divertida e explicativa, aborda vários temas, entre os quais a pílula — um dos mais controversos, que também está entre as páginas do "Não É Só Sangue". Mas será a pílula, no fundo, uma solução fácil para quem desconhece os ciclos menstruais?

"Não gosto de lhe chamar fácil. Acho que a pílula é uma solução que faz falta. Acho que nós precisávamos de novas pílulas, de contracetivos hormonais melhores. Acho que ainda não os exigimos porque estamos pouco informadas sobre o que é que estes nos fazem", refere Patrícia Lemos.

Contudo, refere, a pílula pode mesmo fazer sentido em alguns momentos da vida, como no pós-parto, em que as mulheres "assoberbadas com a chegada do novo ser e com as expectativas todas de maternidade a irem por água abaixo", não têm a disponibilidade mental para monitorizar o ciclo menstrual, até porque está "errático".

Com exceção de algumas situações pontuais, em vez da pílula, as pessoas que menstruam podem então recorrer a três biomarcadores (temperatura basal, muco cervical e palpação do colo do útero) como método natural de fertilidade e aos vários métodos de monitorização dos ciclos menstruais — temas de destaque no novo livro.

Da experiência de Patrícia Lemos em consultório, tem havido cada vez mais mulheres a querer aprender sobre saúde menstrual e a monitorização do ciclo, mas destaca que o essencial é perceber que temos várias opções. "Aquilo que tento fazer no Círculo Perfeito é potenciar esta tranquilidade das decisões que tomo sobre o meu corpo em qualquer altura da minha vida".

No entanto, é preciso perceber que vários fatores podem influenciar o ciclo menstrual, como o stresse e ansiedade. Durante a pandemia, estas foram perturbações bastante presentes, mas os tempos que vivemos não afetaram todos por igual. "Tenho algumas pessoas em que os ciclos ficaram muito diferentes para pior e outras em que, de repente, a estabilidade de uma vida em casa lhes garantiu um ciclo menstrual como nunca tinham tido", exemplifica. Acima de tudo, Patrícia lembra que a forma como o stresse afeta o corpo não é igual para todos.

"Temos que perceber quem é que somos debaixo de stresse. O corpo consegue fazer sprints e ir gerindo stresses pontuais. Se estamos numa condição crónica de ansiedade, ou linha contínua de stresse, eventualmente há uma fatura que o corpo vai pagar a vários níveis e nesses vem o ciclo menstrual incluindo", explica.

Apesar de o mundo do ciclo menstrual parecer complexo, pode ser "como lavar os dentes". Contudo, até essa tarefa implicou uma aprendizagem algo demorada, bem como prática, até o fazermos ainda ensonados e em modo automático depois de sair da cama. O novo livro "Não É Só Sangue" é um dos passos nesse caminho que mostra como pode ser fácil gerir o ciclo menstrual.

Selecionámos cinco coisas que aprendemos com o novo livro de Patrícia Lemos (e que todos vamos a tempo de aprender).

1. Os óvulos que libertamos aos 15 anos têm 15 anos

"De forma bastante simplista, os óvulos que libertamos aos 15 anos têm 15 anos, os que libertarmos aos 35 anos terão 35 anos — e, ao contrário da nossa pele, cabelo ou órgãos internos, não se regeneram durante o período entre o nosso nascimento e o seu recrutamento.

É do senso comum que a probabilidade de ter filhos com trissomia 21, por exemplo, é mais elevada à medida que vamos ficando mais crescidas, ou que a idade a partir da qual nos são pedidos mais exames quando decidimos engravidar são os 35 anos, mas nunca olhamos para isto como uma linha contínua de cuidado, que pode ser aferida e gerida se usarmos o ciclo menstrual como barómetro de saúde ao invés de o suprimirmos quando ele não responde ao ciclo padrão.

Este ciclo padrão é o que costumo chamar de «ciclo unicórnio»: toda a gente sabe o que é, toda a gente fala dele, mas nunca ninguém o viu — neste caso, a maioria nunca o viu já que parece ocorrer apenas em 10% dos casos totais: estou a referir -me ao ciclo dos 28 dias com a ovulação exatamente a meio de ciclo, a dia 1419, que vemos em todos os diagramas menstruais e que continua a sair, como exemplo taxativo e irrefutável de ciclo menstrual, da boca de quem nunca se atualizou em termos de informação científica e/ou nunca mapeou os seus ciclos.

Acresce a isto tudo o resto que se rotulou de «normal» ao longo dos anos: ter dores menstruais é normal, ter alguma perda de sangue antes do período ou entre menstruações é normal, sofrer de tensão pré-menstrual (TPM) é normal, enfim, tudo normal e, portanto, tudo normalizado, e, claro, culpa deste corpo hormonal, meio louco e descontrolado que nos calhou.

Bom, tenho boas e más notícias. As boas, é que nenhuma daquelas coisas é «normal». As más, é que continuamos a achar que sim porque, como estas queixas continuam a ser desvalorizadas, não faltam histórias iguais às centenas, até aos milhares. É transversal, acontece a todas as pessoas que conheço logo é normal, certo? Errado."

2. Afinal, não é mesmo só sangue

"Muitas pessoas não sabem que o sangue do período nos dá informação importante e que, em conjunto com a duração do ciclo, sintomas identificados, etc., pode ajudar a compreender melhor o que se passa connosco em termos de saúde menstrual e eventualmente a encurtar o caminho para um diagnóstico, se este for necessário.

Com a democratização do uso dos copos menstruais, muita gente ganhou consciência de duas coisas: da quantidade (volume) de menstruação por cada dia de período, e das caraterísticas como cor, consistência, odor do sangue; mas se usas pensos ou tampões não precisas de ir a correr trocar de produto de recolha menstrual: mudar o foco e prestar atenção, às vezes, é o suficiente para vermos coisas que até então nos passavam despercebidas.

Estima-se que a média de sangue «perdido» por período seja entre 30 -50 ml, mas pode ir aos 80 ml sem ser um problema de maior. Às vezes, quando menciono estes números dizem -me: «Impossível ser só isso! Eu menstruo muito mais!»; claro que sim. Estes números referem-se à quantidade de sangue que compõe o teu fluxo e que é cerca de um terço do total do seu volume, pelo que deves menstruar à volta do triplo da quantidade de sangue que perdes.

O fluxo menstrual é composto de várias coisas como tecido endometrial, muco e secreções vaginais — estes compõem cerca de dois terços do teu fluxo, ou seja, apenas 30% a 40% da tua menstruação é de facto sangue."

3. A menstruação não diz respeito só às mulheres

"A menstruação não é um assunto exclusivo de mulheres. Esta frase tem duas leituras importantes: A primeira é que a discussão menstrual tem de ser pública e incluir a todos, passando obrigatoriamente pela educação dos filhos, rapazes, companheiros, maridos e homens sobre o tema. A menstruação, enquanto fenómeno natural e acima de tudo biopsicossocial, só estará livre de estigma e normalizada quando o à-vontade para a mencionar nos círculos sociais equivaler a mencionar uma digestão ou qualquer outra função fisiológica.

A segunda é que a menstruação não pode ser estabelecida como condição sine qua non para uma afirmação de género. «A menstruação faz de nós mulheres», e outras suas variantes que fazem esta ligação entre ter período e a definição de género, decorre de uma visão assente no nosso potencial reprodutivo e que nos está, infelizmente, entranhada desde o nosso primeiro período — quando nos confirmaram que «agora, sim!, já és uma mulher».

Faz um exercício comigo. Creio que concordamos que quem não menstrua porque não quer, por doença, em amenorreia, ou em menopausa, não deixa de «ser mulher», certo? O mesmo para quem fez uma histerectomia (remoção do útero) ou uma ooforectomia (remoção dos ovários) apesar de já não ter uma menstruação para a definir. Igual para as mulheres que nascem cem sem vagina e sem útero. Estima-se que a síndrome MRKH atinja aproximadamente um em cada 4500/5000 bebés nascidos, e estas pessoas por uma condicionante anatómica nunca irão menstruar...

Ainda as consideramos mulheres? Ou seja, temos mulheres com útero que não querem menstruar, mulheres que não podem ou não têm como menstruar, mulheres sem útero, sem ovários ou ainda sem vagina... E ainda temos pessoas com útero, com vagina e que menstruam e que não se sentem, definem ou identificam como mulheres."

4. Não é o corpo que pede chocolate, somos nós

"Para chegar às dinâmicas de ciclo começo pelo princípio: monitorização das fases, entendimento das curvas hormonais, quotidiano e cuidado geral, e depois sim, um olhar cuidadoso, gentil e, sobretudo, individual para a forma como cada pessoa se expressa no ciclo e como ele se expressa nela, e depois uma análise do que é que isso nos diz, o que há para ajustar e para manter.

O que gosto de deixar claro é que a ciclicidade não é uma desculpa para alimentar o mito de que somos instáveis, tantas vezes usada também por nós quando nos desculpamos com um «estou à espera do período» ou atiramos essa justificação, em tom pejorativo (logo dispensável), para alguém que está mais reativo. A natureza cíclica das hormonas sexuais ováricas não é uma «autorização» para nos comportarmos como nos apetece e desculparmo-nos com elas. É exatamente o contrário: é um convite à ação!

Quando escolhemos fazer este trabalho de autoanálise, ele é útil porque ajuda a identificar as coisas que precisamos de mudar —  estas são aquelas que se tornam ciclicamente recorrentes na nossa atenção. Reconhecer o ciclo em mim é um desafio à responsabilidade sobre mim própria, sobre conhecer-me e reconhecer-me na minha dinâmica interna, nesta dança hormonal que ora me põe a «X» ora a «Y», sabendo que, da mesma maneira que o dia dá lugar à noite, a flutuação entre os cenários potencia e abre espaço para que possa encontrar o meu «caminho do meio», entendendo que este também será diferente nas diferentes fases da minha vida, que interajo diariamente com o que me rodeia e que a vida acontece.

«Mas eu fico irritada quando estou à espera da menstruação». Acredito que sim, a progesterona ovárica (produzida na fase lútea) parece provocar alterações na leitura de pistas sociais e resposta às mesmas, pelo que, provavelmente, as coisas que te irritam ou são sempre as mesmas ou irritam-te por um mesmo motivo. Nada como encontrar o padrão e decidir se mudas essas coisas ou o teu comportamento perante elas.

«O corpo pede-me chocolate durante a TPM». O corpo não pede obrigatoriamente chocolate, mas a tua sensibilidade à insulina pode estar alterada devido à flutuação hormonal e/ou é possível que estejas em défice de consumo de proteína."

5. Ter TPM não é normal

"Na TPM é preciso distinguir a sintomatologia física da psicoemocional, depois cruzar sintomas com a monitorização pessoal do ciclo, por fim encontrar padrões e atuar no sentido de corrigir desequilíbrios. Viveres a tua ciclicidade, o teu outono, a tua lua minguante ou um qualquer arquétipo que queiras e que te faça sentido é estar atenta a subtilezas e fazer pequenos ajustes para resolver e aceder a uma maior qualidade de vida.

Quanto às questões emocionais, ou as que desencadeiam uma reação emocional na fase lútea, gosto de olhar para elas como uma espécie de Marie Kondo interna com uma enorme lupa sobre todas as tuas coisas, a exigir que organizes a tua vida: «Isto faz -te feliz, Beatriz?». Se em todas as TPM pensas em despedir -te e odeias o teu trabalho, o problema não são as hormonas...

Somos animais sociais e de estruturas afetivas, e somos também responsáveis pelas nossas próprias escolhas: pelo ir ou ficar (no emprego, na casa, no relacionamento, etc.).

Estima-se que 8 em cada 10 pessoas que estão em anos menstruais sofram de alguma expressão de TPM. Identifica os teus sintomas, avalia de que forma podes contribuir ativamente para os gerires e minimizares, investiga se podes precisares de correções alimentares ou nutricionais, e depois faz isso por ti."

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