Há mais de uma década, João Vieira de Almeida, tio de Carolina Patrocínio e um dos homens mais poderosos do país, lutou contra uma depressão. Numa entrevista intimista e focada na saúde mental concedida ao "Observador", apontou a sobreposição da vida profissional em relação à pessoal como um dos fatores que o levaram a sofrer da doença. “Tive a certeza de que tanto fazia estar vivo como não estar”, conta ao jornal.

Mesmo que muitos possam ter pensado "como é que este tipo se dá ao luxo de ser infeliz?" naquela época, o presidente do conselho de administração da sociedade de advogados Vieira de Almeida & Associados lembra ainda que, por detrás da “personagem” profissional que construiu, está um humano com fragilidades.

Mesmo que nunca tivesse sofrido com a doença, sempre teve alguma preocupação com questões do foro psicológico. Ia ao psicólogo e ao psiquiatra ocasionalmente, tendo até manifestado interesse pelo tema através de leituras que fazia. Fruto da vida que levava, vivendo "sob um stresse enorme e muitas horas de trabalho", houve escolhas que o levaram até àquele ponto, conta. A mais determinante foi o facto de ter colocado a vida profissional acima da vida pessoal, com os custos que isso foi acarretando.

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E houve uma altura em que percebeu, "há 10-12 anos", aquilo que lhe esperava. "Uma depressão não é como uma gripe, não se apanha num dia", frisa. No entanto, no dia em que começou a "chorar desalmadamente", soube que tinha comprado bilhete para "o começo de uma viagem" em direção a um mundo [emocional] que desconhecia ter dentro de si. “Eu senti a gota a cair, a gota que fez transbordar o copo”, acrescentou o senior partner da firma de advogados, em declarações ao "Observador".

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Não consegue precisar durante quanto tempo se sentiu dentro "do buraco negro", mas foi uma altura de muitas mudanças. Acordava a chorar. Obrigava-se a sair da cama, porque havia estudado o suficiente para saber que assim tinha de ser. "Tinha uma posição difícil como líder do escritório, porque tinha centenas de pessoas" dependentes da sua mentoria, explica. Contudo, mesmo que fosse para o trabalho, isolava-se no gabinete, sem que ninguém o pudesse procurar. E continuava a chorar durante horas.

João Viera de Almeida revela que foi uma altura em que foi dominado pela "incapacidade de perceber qual era o sentido" da sua vida, mesmo tendo uma família, amigos e muito sucesso profissional. De repente, viu-se circunscrito a um "mundo em que tudo se torna totalmente irrelevante", explica. Nesse sentido, recorda um episódio em que demonstra o quão "tanto fazia estar vivo como não estar" – quando se dirigia para uma reunião em Barcelona, Espanha. "Lembro-me de pensar que, se o avião caísse, não fazia mossa", confessa.

Ao contrário do que acontece a muitas pessoas que padecem desta perturbação psicológica, não se proibiu de pedir ajuda. Correu psicólogos, psiquiatras, tomou todos os medicamentos que lhe receitaram e ainda praticou meditação. Mas foi a conversar com um médico seu amigo que encontrou um passatempo que o ajudou a olhar para a vida de outra forma – expedições em montanhas.

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"A montanha é um símbolo de superação, uma espécie de metáfora da vida", frisa. Faz-se passo a passo, de forma solitária, sendo um percurso sinuoso, cheio de altos e baixos. No entanto, quando se chega ao outro lado da montanha, coloca-se tudo em perspetiva. Por isso é que, até hoje, João Vieira de Almeida continua a recorrer a este escape, frequentemente, apesar de já estar numa fase completamente diferente (para melhor) da sua vida.

De uma coisa tem a certeza: lutar contra esta perturbação deu-lhe "uma dose de humildade enorme" e fê-lo "não ter vergonha das fragilidades". Além disso, recebeu muitas "provas de amizade e de amor", devido ao apoio que foi recebendo daqueles de quem se rodeava, e uma "vontade de continuar a viver e ver que há uma saída", conclui.

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