Não me venham com tretas, ver novelas só se tornou cool com a Avenida Brasil. Desde as "Helenas" do Manoel Carlos que não se via tanta gente a admitir, sem preconceitos, que todos os dias esperava saber o que acontecia a personagens com nomes tão pouco hollywoodescos quanto Tufão e Leleco.

O Brasil sabe o que faz, caso contrário nunca teriam pensado em misturar polvilho e parmesão para fazer pão de queijo.

Já por cá, assumimos aquele papel de gajo que dá tudo no Tinder — frases inspiradoras, emojis divertidos, peito à mostra, pranchas de surf e cães — quando na verdade só procuras alguém que respeite os mínimos: cama, comida e cara lavada.

A SIC e a TVI serão sempre esse swipe left que fazemos, quando no mercado existem coisas de 2001 capazes de nos fazer colar ao ecrã — sim, escusa de disfarçar, já todos nós não resistimos a espreitar o "Clone", que a Globo está a repetir.

Ainda assim, limpámos a mente de preconceitos e foi de horizontes abertos que nos lançámos no primeiro episódio de "Amar Demais", a nova aposta da TVI. Até porque o COVID fez de nós melhores pessoas, certo?

O enredo

Falávamos de boas pessoas, não era? Então apresento-vos o herói. E aí, verdade seja dita, se o Brasil tem um Tufão, nós podemos ter um chamado Zeca.

É o ator Graciano Dias que dá corpo ao protagonista que foi preso por um crime que não cometeu e ficou vários anos na cadeia. Quando finalmente é libertado, tenta provar a sua inocência junto da mulher do homem que, alegadamente, assassinou. É que essa mulher, obviamente, é uma paixão antiga.

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Pelo meio mete-se um marido parvo, uma criança especial e todo um passado de pobreza e superação. É que nós no primeiro episódio não sabemos, mas Zeca assumiu um crime em troca de dinheiro que iria salvar a mãe, que tinha um problema de saúde. Mas nem dinheiro, nem mãe salva. Zeca perde a juventude em liberdade, cumpre a pena e sai 15 anos depois com vontade de começar de novo.

Claro que no primeiro episódio percebemos logo que a outra protagonista, Ema (Ana Varela), é uma paixão antiga de Zeca, mas que está casada com uma besta. Sérgio Praia encarna a besta, ou melhor, Raul, que podia ser besta apenas por não querer saber do filho ou tratar mal a mulher. Mas esta besta é tão besta que, depois de uma dose de coca e outra maior de estupidez, atropela um polícia enquanto adolescente mas, claro, arranja quem cumpra a pena por si.

Adivinhou, o nosso Zeca.

O melhor? Os Açores e a estrutura óssea do Graciano

Não digo que tudo seja mau nesta produção. O Graciano, escolha pouco óbvia para protagonista, tem um bom cabelo. Ah, e uma boa cara, daquelas com ossos salientes. Ah, era suposto falar do acting? Bom, aí tínhamos que passar para o próximo tópico.

Fernanda Serrano parece ser a dona daquilo tudo, a mostrar aos pequenotes como é que a coisa se faz. Espero que a Ana Varela aprenda tudo, que ela, além de atriz, é uma defensora da sustentabilidade e isso, só por si, já tem o meu aplauso.

Se já percebemos que o que salva esta história não são os atores, que nos valham aquelas paisagens incríveis do Faial, sempre com o Pico lá ao fundo a mostrar que, caraças, este País é mesmo incrível.

O pior? Eh pa, temos quanto tempo mesmo?

Não quero ser portadora de más notícias, mas sinto que esta novela vai ser uma das muitas que a minha avó vai ver e isso não augura nada de bom.

Eu adoro a minha avó, atenção, mas desde que o "Anjo Selvagem" caiu à terra que nunca aquela televisão conheceu outro canal. É TVI de manhã à noite, sem critério e, até hoje, não sei como se consegue acompanhar um rol de novelas que nunca foge muito daqueles oito ou dez protagonistas e das histórias que metem sempre uma morte, um irmão horrível, um antepassado que esconde um segredo e agora também convém trazer temas fraturantes.

Já deu para perceber que, nesta, Raul tem diabetes e o filho tem uma doença rara. Mas mais para a frente até sobre especulação imobiliária se vai falar. E eu reparei que o Zeca espirrou para o cotovelo — cheira-me que a COVID entra na trama.

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Descobri esta noite que o João Pedro Pais ainda canta e que há aqui uma tentativa de fazer humor com os estrangeirismos que a personagem de Joaquim Nicolau (Peter) usa. "Mantém essa cabeça fresh". Vamos ver, para mim ainda bate um “Oxente, my god” básico os tempos da Indomada.

E para terminar, sem sair deste regresso ao passado, vamos mesmo falar sobre o acidente que mata Duarte, o sócio de Peter? Arrisco dizer que o Crash Bandicoot que jogava com o meu irmão em 1999 tinha uns gráficos mais avançados.

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