Em "A Generala", a primeira série lançada pela plataforma de streaming OPTO SIC, Carolina Carvalho dá vida a Maria Luísa Paiva Monteiro. Carolina e Soraia Chaves interpretam a mesma personagem, inspirada na vida de Maria Teresinha Gomes, a madeirense que, ao longo de quase duas décadas, se passava por homem (mais concretamente por um general) e que acabaria por ser condenada pelos crimes de usurpação de identidade e burla.

Uma interpretação arrepiante, não só na forma como a atriz de 25 anos dá corpo à transformação de Maria Luísa para Octávio, mas também nas cenas de profunda violência emocional na contracena com Anabela Moreira, que interpreta Celeste, a mãe de Maria Luísa.

Carolina Carvalho e Anabela Moreira em
Carolina Carvalho e Anabela Moreira em "A Generala" créditos: Instagram

Carolina Carvalho é atriz há apenas quatro anos. Já fez novelas, séries e, este ano, chegaria ao grande ecrã no filme sobre a banda "Doce" (no qual interpreta Helena Coelho), não fosse a pandemia ter adiado a estreia para 2021. Em entrevista à MAGG, a atriz conta como foi construir aquela que é, até agora, a mais importante personagem da sua carreira e como "A Generala" lhe surgiu em sonhos, mesmo antes de saber que iria ser protagonista da série.

Quando lhe apresentaram esta personagem, que é baseada numa história real, qual foi as sua reação?
Foi muito engraçado porque, pouco tempo antes, tinha sonhado que ia fazer uma personagem que era um homem. Eu tinha falado com o David [Carreira, namorado da atriz] e disse-lhe ‘não vais acreditar com o que é que sonhei’ e, uma semana depois, isto aconteceu. Quando eu li a história foi um ‘sim’ redondo. A nível da parte criativa e do desafio enquanto atriz, é gigante. Não temos assim tantas oportunidades como esta para mostrar a nossa versatilidade e a capacidade de interpretar coisas diferentes. É a oportunidade mais incrível que me apareceu num registo diferente.

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O que é que a fascina mais nesta história, não só na que está no guião mas também na vida desta mulher?
Fascina-me muita coisa. Hoje em dia, como vivemos num tempo em que já muito foi conquistado em termos de direitos das mulheres, das pessoas transgénero. Claro que ainda existe algum preconceito mas é uma coisa cada vez mais sólida e que as pessoas já compreendem. Naquela altura, isso não acontecia. O mais cativante disto é a Maria Luísa, uma pessoa que nasce com a vontade de ser um homem e que, na verdade, a única coisa que tinha de mulher era o corpo, as características físicas. Acaba por ser o primeiro caso de uma pessoa transgénero sem saber que o era.

Ainda por cima estamos a falar do Funchal nos anos 60. Todas estas condicionantes fazem com que seja de louvar tudo o que ela conseguiu. Claro que hoje em dia não aconteceria uma pessoa enganar os outros tantos anos sem ninguém desconfiar. Depois, tudo é julgável e cada um pode dar a sua opinião. Mas a verdade é que foi uma pessoa a lutar pelos direitos que acreditava que devia ter e que não eram só os homens que os deviam ter. Ela provou que, naquela altura, ser homem era muito mais fácil. Acho a história toda muito bonita e cativante.

"Ela provou que, naquela altura, ser homem era muito mais fácil"

Como foi construir a transição de Maria Luísa para Octávio?
Para mim foi o maior desafio porque engloba muita mudança não só temporal como física e emocional. A nível emocional é muito pesado, muito intenso. Eu tinha uma grande preocupação de tentar transmitir às pessoas aquilo que eu acho que ela viveu naquela altura. Nenhum de nós imagina o que é, de repente, mudar a nossa identidade e apresentar-nos às pessoas com outro sexo, renegar as nossas origens, viver numa mentira. Fazer essa fase foi difícil, foi muito exigente, mas eu e a Soraia tivemos uma grande preparação em conjunto, porque fazíamos o prolongamento uma da outra, e era importante que nos tornássemos semelhantes em várias coisas, que nos aproximássemos.

Foram muito importantes os ensaios que tivemos. O Sérgio Graciano e o Marco Medeiros tiveram um papel fundamental neste processo. Foi um processo, não de leitura e interpretação de texto, isso é uma coisa que fazemos em casa, mas os ensaios servem para trabalhar além disso. Para trabalhar o lado emocional, as lembranças, a postura física.

A Carolina e a Soraia tiveram de ser quase uma só pessoa. Como foi fazer esse trabalho conjunto? Vocês foram uma só atriz.
Sim, foi mesmo isso. Foi maravilhoso. Eu conhecia a Soraia de vista, nunca tínhamos contracenado juntas e, de repente, foi um processo curto para preparar uma coisa tão intensa. Teve de ser em modo corrida, mas foi muito bom porque a entrega da Soraia estava na linha da minha. Nós sabíamos que tínhamos pouco tempo para fazer uma coisa que tinha potencial para ser realmente boa. Por isso, o nosso trabalho foi 100% em conjunto. Eu adaptei-me a muitas coisas da Soraia, a Soraia adaptou-se a muitas coisas minhas mas nós trabalhávamos muito uma a observar a outra. Isto todos os dias, durante muitas horas. Foi um processo muito intensivo mas que resultou muito bem porque tanto eu como a Soraia estávamos muito disponíveis para o projeto. Queríamos e sabíamos que a única forma de ele resultar era mesmo que nós existíssemos apenas numa. Acho que isso aconteceu.

A nível físico, qual foi a parte mais dolorosa desta transformação?
Felizmente, tivemos acesso a imagens reais da Maria Luísa mas, realmente, é muito difícil ter a noção do que é que é fazer de homem. Não é fazer em modo palhaçada, é uma coisa real. E, de facto, é tudo diferente. A postura é diferente, a forma como mexemos as mãos, as sobrancelhas, a linguagem é diferente, a entoação, a voz. Ela não alterou a voz porque tinha a voz grave, o que é um ponto a favor. Claro que tive de limar porque tenho algumas entoações agudas. Trabalhei a voz para ser monocórdica.

A nível de postura tive aulas de movimento e de corpo que me deram a postura do Octávio, o que foi sem dúvida das coisas mais difíceis de atingir. Porque nós queremos sempre fazer um trabalho que, quando as pessoas veem, seja natural e credível. E basta ficar um bocadinho excessivo ou fora da zona e a pessoa já deixa de acreditar. Isso foi o mais difícil de trabalhar. Aos poucos, através do trabalho emocional que fizemos, uma coisa puxou a outra. Acho que tudo aconteceu de forma natural. Lembro-me que, quando realmente achei que a forma de andar e a postura do Octávio estava lá foi no primeiro dia em que gravei. Eu comecei a gravar em Octávio, não em Maria Luísa.

Há uma responsabilidade acrescida por fazer parte do primeiro projeto da OPTO SIC?
A partir do momento em que, felizmente, a ficção nacional está a apostar mais em séries e conteúdos para plataformas de streaming, abrem-se novas portas para os atores, abre-se uma nova esperança. Acho que está na altura de Portugal dar cartas lá fora com produção própria. Mal li o guião de "A Generala" percebi que é uma série com um potencial de streaming gigante. Portanto sim, há responsabilidade de mostrar às pessoas que estamos a chegar a outro patamar. Quando estamos a fazer um projeto destes, ainda por cima como protagonista, não pensamos nisso. Isto não é de todo uma crítica à ficção nacional nem às novelas mas são responsabilidades diferentes. Este tipo de projetos, pela inovação que têm, pelo facto de ir para uma plataforma, faz com que, de repente, sintamos ‘as pessoas têm de perceber que isto é realmente bom’. Hoje em dia consumimos tanta Netflix, tanta HBO, tantos filmes…

… E, às vezes, coisas que não são assim tão boas.
Exatamente. E quando vemos algo que consegue mostrar às pessoas que nós também temos a mesma capacidade de fazer coisas boas, claro que a responsabilidade é acrescida. No meu caso, usei isso para me motivar ainda mais.

"É impossível alguém ver o filme 'Bem Bom' e não ter vontade de ser feliz"

Tanto "A Generala" como "Bem Bom" são histórias escritas por mulheres. Acha que, como mulher e atriz, isso passa a mensagem de outra maneira?
Sim. Eu percebo e concordo. Claro que há homens ótimos a escrever histórias sobre mulheres, mas quando se dá vida a obras destas que foram escritas por mulheres, acho que as mulheres sentem, até pelo tempo que demorou a conquistarem os seus direitos e a sua liberdade, sobretudo a liberdade de pensamento. Aquilo que acontece é um match perfeito e a responsabilidade é repartida, tanto pela autoria como pelas atrizes. Dá um gosto especial e acaba por resultar de outra forma.

É um orgulho para si interpretar dois ícones feministas? Porque tanto a Maria Luísa como a Helena Coelho das Doce o são e fazem parte da história.
É um orgulho muito grande porque, ainda por cima, estamos a falar de pessoas que realmente existiram e que marcaram uma geração. As duas são histórias muito fortes. Fazer filmes inspirados em factos verídicos e em pessoas que o público conheceu, a responsabilidade é muito maior mas também são alvos de crítica muito mais fáceis. Porque as pessoas podem dizer ‘ah, mas eu conheci e não era assim’.

Por outro lado, tem a parte positiva de impactar as pessoas de uma forma diferente porque lhes é familiar. Portanto, à partida, já vão querer ver. Para mim, é um privilégio poder dar a cara por essas personagens porque me aproxima do público e dá-me a oportunidade de o público me poder ver em papéis muito diferentes mas as duas com uma grande responsabilidade social. Obviamente, não posso por esse peso em cima de mim para fazer o meu trabalho mas acaba por ser uma das consequências de fazer estas mulheres.

Dá-me a sensação que "Bem Bom" é o filme que todos precisamos num ano horrível como 2020 [nota de redação: esta entrevista foi realizada antes do novo adiamento da estreia do filme, agora calendarizada para 2021].
Eu falei isto com elas e disse-lhes: ‘depois do ano que tivemos e de tudo aquilo que as pessoas estão a viver neste momento, é o filme certo para animar as pessoas e para nos fazer esquecer um bocadinho este pesadelo que estamos a viver’. E nós estamos muito ansiosas. Nós acabámos cerca de uma semana antes da covid aparecer e parece que estava destinado a que fosse assim. É um filme que é mesmo muito especial. Acho que é impossível alguém ver o filme e não ter vontade de ser feliz, sabe? É um filme muito feliz, dá vontade de dançar, de viver, o que é maravilhoso.

2020 tem sido uma loucura para si. Gravou "Golpe de Sorte", "Bem Bom", agora "A Generala". Quando é que descansa?
Este ano realmente tem sido bastante atribulado mas de uma forma bastante positiva a nível de conquistas profissionais. No ano passado com a peça que estive a fazer no Teatro Aberto ["Doença da Juventude"], foi quando surgiu o convite para as Doce. Desde que comecei a trabalhar, felizmente nunca tive um período de férias. Mas havia projetos que eu queria fazer, nomeadamente em cinema e, de repente, aparece o filme que eu mais ia gostar de fazer e a série mais desafiante da minha vida.

Surgiu tudo num período muito curto mas eu estou mesmo muito contente. Desde que comecei a minha carreira, foi muito gradual mas eu sempre tive muito nítida a imagem de tudo o que queria fazer. Todos os anos traço objetivos mas, sinceramente, não achei que acontecesse tão rápido esta evolução para o cinema. Mas estou muito contente com a forma como aconteceu. Neste momento, terminei "A Generala" e já estou noutro projeto sobre o qual não posso falar mas que o público vai saber em breve. Já estou em mais uma aventura mas estou muito contente por sou viciada em estar sempre a trabalhar e não estar parada. Mas acho que também é isso que faz com que eu tenha sempre tanta pica a trabalhar.

O que é que se vê em casa à noite, "Golpe de Sorte" ou "Bem Me Quer" [novela da qual faz parte David Carreira]?
Há uma coisa maravilhosa: não estão a dar no mesmo horário. É maravilhoso porque ele pode ver a novela à vontade, e claro que eu também vejo e depois ele vê-me. Conseguimos equilibrar muito bem (risos).

Quais são os seus objetivos para 2021?
Os meus objetivos já estão fechados a nível de trabalho. É muito engraçado porque é aquilo que eu achava que realmente faltava e portanto, em breve vão ter novidades (risos)! [nr: Carolina Carvalho será vilã de "Serra", nome provisório da próxima novela da SIC, que substituirá "Terra Brava"].

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