Parece uma novela, tem nome de novela, cheira a novela, inicialmente foi promovida como uma novela e tem atores de novela no elenco. Há muita novela nesta frase, mas novela é coisa que "Pôr do Sol", o novo projeto da RTP para o verão, não é. Afinal, "a RTP não produz telenovelas", deixando-as "para os canais comerciais" e privilegiando "a produção de séries, filmes e cinema", tal como nos explica José Fragoso, diretor de programas do canal. No entanto, "este projeto tem um cheirinho de telenovela", o que levou toda a equipa a pensar de que forma é que a iriam apresentar ao público.

Inicialmente foi promovida como uma espécie de mininovela que, especulava-se, teria menos de 50 episódios, e juntaria atores que no currículo tinham produções recentes na SIC e na TVI, como Diogo Amaral, Noémia Costa, João Catarré, Débora Monteiro, Tiago Teotónio Pereira e Gabriela Barros.

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Na verdade, sabemos agora, estamos a falar de uma minissérie de verão, de apenas 16 episódios, mas que, tal como uma novela, vai poder ser seguida em linha na RTP, "o que é pouco habitual, porque a grelha do canal é vertical, na medida em que os programas diários não são os mesmos todos os dias", diz Fragoso.

Satirizar, sem nunca fazer pouco

Mas as semelhanças com o registo dito "comercial" não se ficam por aqui. Há uma sátira ao formato, assumindo — tal como "O Último a Sair" o fez, em 2011, com os reality shows — "os tiques e os clichés" que comportam uma produção destas, tanto na realização como na escrita do argumento.

Por isso, não é de estranhar que a história tenha como foco os dilemas de primeiro mundo de uma família rica e privilegiada, os conflitos cada vez mais intensos entre uma gémea boa e uma gémea má e as dificuldades de uma banda de jovens que quer saltar, de uma vez por todas, da garagem para os palcos. Não sabemos precisar onde ou quando, mas sabemos que já vimos isto antes. De uma forma ou de outra.

"O 'Pôr do Sol' vem na linha do 'Programa Cautelar', de querer ter uma visão crítica do meio. É uma série que nos vai fazer pensar em como, por vezes, estamos a ser manipulados enquanto espectadores e a ser conduzidos para certos caminhos. O nosso foco é o da literacia para os media, ou seja, pensar em conteúdos que possam contribuir para o público. O 'Pôr do Sol' vai divertir durante meia-hora, mas depois vai fazer pensar e, talvez, gerar diálogo entre amigos sobre o que se viu", explica José Fragoso.

Diogo Amaral.
Gabriela Barros é uma das protagonistas da série créditos: MAGG

O que temos, portanto, é uma minissérie de 16 episódios, de cerca de 30 minutos cada, que vai contar uma história assumindo todos os clichés de uma novela. A estreia está marcada para as 21 horas de 16 de agosto, com emissão diária a partir daí.

Mas neste exercício, claro, o objetivo nunca foi "fazer pouco do que quer que seja", explica o realizador e produtor Manuel Pureza. Nem era possível. Afinal, todos os que participaram no projeto "já fizeram ou estão a fazer novela". É o caso de Manuel Cavaco, que faz parte do elenco, e que no currículo soma já mais de 20 participações nesse formato.

"Uma coisa é fazer sátira, outra é fazer pouco. E aqui ninguém fez pouco do que quer que seja. Uma vez que a novela é um registo visto por muita gente, deveria ser um enorme orgulho fazê-la. Quando nos rimos, porque de facto satirizamos o género, estamos, na verdade, a rir de nós próprios", admite.

Esse riso, ou essa gargalhada, é sempre espontânea e decorre da identificação com aquilo que nos é familiar, mesmo que o espectador comum nunca tenha visto uma novela na vida — o que nos parece tarefa impossível.

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"É fantástico namorar à chuva, namorar ensanguentada, ver copos a partir na minha cara... fiz todos os clichés e aceitei todos os desafios", diz a atriz Gabriela Barros, exemplificando alguns dos "tiques" das novelas que este "Pôr do Sol" teve de assumir para que a sátira, além de eficiente, seja próxima de quem vê.

E se José Fragoso descreve este projeto como sendo "singular" e semelhante ao de uma "aventura", porque tinha de ser gravado para estrear-se em agosto, Manuel Pureza devolve o elogio, admitindo que só com a RTP é que seria possível fazer a série por continuar a ser o canal "que conhece os seus espectadores e os desafia" de forma sistemática e constante.

O primeiro projeto de Diogo Amaral para a RTP

Já a Diogo Amaral não seria estranho ver este projeto noutro canal, como na SIC, por exemplo. Embora a RTP tenha apostado numa chancela de conteúdos alternativos, diz à MAGG que "também a SIC já o tem feito através da OPTO", a plataforma de streaming do canal com produções exclusivas como "O Clube", "A Generala" ou "Prisão Domiciliária".

Neste "Pôr do Sol", o primeiro projeto do ator para a RTP, Amaral é o protagonista da história, ao interpretar um dos músicos da banda juvenil.

Embora não tenha contrato de exclusividade com qualquer estação até agora, as suas últimas participações na ficção, além do cinema, foram com a SIC ("Vidas Opostas" e "Golpe de Sorte", em 2019, e "Terra Brava" em 2020"). E enquanto que noutros trabalhos as diferenças talvez sejam mais palpáveis quando se muda de "casa" — ainda que neste caso não se possa falar numa transição de canais —, neste meio, diz, "é diferente".

Diogo Amaral.
Diogo Amaral é o protagonista desta nova série da RTP, em que fará par romântico com Gabriela Barros créditos: MAGG

"Somos um meio relativamente pequeno e, por isso, conhecemo-nos todos. Já conhecia quase toda a gente da equipa e já tinha trabalhado com eles quando aceitei fazer parte do projeto. As diferenças, a existirem, sentem-se noutras coisas", explica.

Diogo Amaral concretiza, falando em "aspetos que têm mais que ver com a emoção e com a promoção", ressalvando, porém, "que, no dia a dia, essas diferenças são coisinhas muito pequenas, geralmente relacionadas com a produção, e às quais os atores se adaptam" facilmente.

Sobre este "Pôr do Sol", recorda como aceitou sem sequer ter lido uma única linha do argumento. "A primeira coisa que me atraiu de imediato neste projeto foi a possibilidade de trabalhar com o [Manuel] Pureza, de quem sou amigo. Quando me ligou, tinham ficado sem um ator que ia fazer a personagem", refere.

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No momento em que Amaral recebe a proposta, estava em viagem e o início das gravações coincidia com a sua chegada a Lisboa. "Não sabia se ia chegar a tempo, mas disse logo que sim e que não precisava de ler absolutamente nada para tomar uma decisão. Não sei quantas horas de voo depois, cheguei a tempo e comecei a gravar", recorda.

Admitindo que "a história brinca com a novela", a personagem de Diogo Amaral é o "protagonista dessa brincadeira que faz par romântico com a [personagem interpretada por] Gabriela [Barros]". Em termos de registo, e por se "gravar menos cenas por dia", "é diferente", mas o ritmo é sempre "uma correria".

"Chateia-me essa conversa de falar mal do que nós fazemos e da nossa televisão"

"Fazemos menos cenas por dia do que se estivéssemos a gravar uma novela, mas é sempre uma correria e o ritmo sempre intenso". Quando lhe perguntamos se é por falta de meios em Portugal, admite não conhecer "outro além do nosso". "Mas gosto dessa correria, atenção, porque me obriga a estar concentrado e ligado" ao que está a acontecer.

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Não comentando a falta de meios, a verdade é que a ficção portuguesa é quase heróica na medida em que tenta fazer tudo com o pouco que tem à sua disposição. "Chateia-me essa conversa de falar mal do que nós fazemos e da nossa televisão, muitas vezes vinda de colegas nossos que desdenham as novelas e os produtos televisivos. Adoro fazer novelas e gosto muito daquilo a que essa nos propõe. As diferenças nas propostas, feitas por um filme, uma peça de teatro, uma série ou uma novela, é o que é interessante, porque é uma viagem", diz o ator.

É uma escola? "Sem dúvida", reforça.

"Quem faz bem uma novela, faz bem qualquer coisa porque é difícil. Dizer isto não é desdenhar, porque, de facto, é mesmo difícil aguentar o ritmo, o número de cenas que tens de fazer por dia, a quantidade de sítios a que tens de ir no mesmo dia. E aqui, o que fazemos é brincar com os clichés de um formato e de uma forma de contar", fazendo coisas "assumidamente fora, como falando para a câmara e saindo, propositadamente, da linha, ainda que respeitado o que estava proposto".

Diogo Amaral.
Da esquerda para a direita: Gabriela Barros, Diogo Amaral e Manuel Pureza, realizador e produtor da série créditos: MAGG

Quanto às reações do público, admite que, depois de tantos anos, já se tornou "difícil de prever quem é que vai gostar de ver o quê". Embora assuma a curiosidade, admite que o seu trabalho já está feito e, que, por isso, já não está nas suas mãos. "Hoje em dia preocupo-me muito menos e divirto-me muito mais [nos projetos em que se insere]. Arrisco mais, talvez, mas já não me preocupa tanto as reações".

Veterano na interpretação de personagens de novelas, séries ou filmes, remetemos Diogo Amaral ao silêncio quando lhe perguntamos se, depois de tantos papéis, lhe é mais fácil trabalhar o lado alegre — como a sua personagem neste projeto — ou negro da vida, como no filme "Pedro e Inês", que se caracterizou por profunda carga dramática.

Depois de vários segundos em silêncio, arrisca responder, assumindo que talvez não seja a resposta perfeita, mas com entusiasmo. Perceberíamos depois porquê.

"São coisas diferentes, claro, e gosto de trabalhar as duas vertentes, mas o filme 'Pedro e Inês' é daquelas coisas que acontece apenas uma vez na vida de um ator. Tive a sorte e o privilégio de ter isso, em que passo por três épocas [o passado, o presente e o futuro], em que dou corpo a uma personagem com tantas dimensões e em que trabalhei com um realizador [António Ferreira] que me deu uma liberdade imensa", explica.

"Muito dificilmente terei um desafio que supere aquele que foi fazer o filme, porque há uma densidade dramática muito forte. É muita coisa. Aqui [referindo-se ao 'Pôr do Sol'] é trabalhar outro lado. São coisas muito distintas, mas diverti-me imenso. Diverti-me mesmo muito".

"Mas fazia já outra vez outro 'Pedro e Inês'...", riu-se.

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