Há coincidências felizes na ficção que, goste-se ou não, ajudam a vender um filme ou uma série ao público. Nesse aspeto, "White Lines" lançou-se no mercado já com parte do trabalho feito ao estrear-se numa altura em que a pandemia de COVID-19 obrigava a maior parte das pessoas a continuar em casa e, portanto, a precisar de novas formas de entretenimento para se distraírem.

Para compor ainda mais esta receita de aparente sucesso, a série tem mão do mesmo criador de "La Casa de Papel" e conta com Nuno Lopes num dos papéis principais numa história que se desenrola por entre as paisagens paradisíacas de Ibiza (ainda que a série tenha sido filmada noutro local), numa altura em que os dias já teimam em ser mais quentes.

O isolamento, o facto de vir de alguém que já tinha uma série de sucesso no currículo, de pertencer à Netflix, que continua a ser a maior plataforma de streaming em Portugal e de ter Nuno Lopes em grande destaque, eram premissas mais do que suficientes para garantir que "White Lines" não passava ao lado do público português. E não passou, chegando a estar num dos assuntos mais comentados das redes sociais após a estreia.

À primeira vista, a premissa da série pode parecer pouco surpreendente ao acompanhar a história de uma mulher que se vê a braços com um mistério que promete não ter solução.

Quem terá assassinado o irmão, um famoso DJ em Ibiza que, há 20 anos, desapareceu sem deixar rasto? Os dez episódios são passados entre o presente e o passado na tentativa de dar uma resposta mais ou menos conclusiva que, adivinhou, se arrasta até ao fim da primeira temporada.

E porque uma série nova não deve ser desenhada, mostramos-lhe o bom, o mau e o assim-assim da nova grande aposta da Netflix.

O bom

A série é assumidamente light, mas entretém. E isso basta

Nunca deixará de ser surpreendente a quantidade de opiniões que dizem que, se uma série é leve, então é quase certo que será menos interessante ou que estará repleta de problemas.

Vinda da mente de Álex Pina (o mesmo que criou "La Casa de Papel", que viria a ser um fenómeno), esperava-se tudo aquilo que já tinha vindo a ser usado na história dos ladrões de máscara de Dalí e macacões vermelhos: uma narrativa simples, pouco densa, onde era dada pouca profundidade às personagens, mas que compensava com muito espetáculo — visual ou narrativo.

Porque, e por vezes é fácil esquecer-se isto, o propósito fundamental da televisão é, e sempre foi, entreter. E "White Lines" faz isso mesmo.

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É importante que, antes de se carregar no botão de play, se entenda que não se está perante um clássico digno de prémios. Mas alguém esperava algo de verdadeiramente espetacular ou engenhoso vindo de uma série cuja única pretensão foi, desde o início, entreter os espectadores com uma história que recolhe os ingredientes de sucesso de tantas outras que se tornaram reconhecidas?

Ser uma série leve não é um problema, porque uma série leve (geralmente rotulada, de forma depreciativa, de televisão de conforto) pode, ainda assim, ter uma escrita e uma execução brilhantes.

É certo que a qualidade do argumento de "White Lines" está longe desse patamar, mas a história entretém ao ser capaz de manter o espectador casual viciado nas personagens e nos dilemas morais com que se deparam tendo, pelo meio, tiroteios, perseguições e momentos de pura tensão. E, para muitos, isso basta. E se basta, cumpriu a sua missão.

A aposta nos atores portugueses

Se há lições a aprender depois desta pandemia, é que está na altura de reconhecer o trabalho dos fazedores de arte em Portugal. Daí que seja tão importante vê-los ganhar alguma dimensão internacional, principalmente em produções capazes de chegar aos principais mercados do mundo em que a Netflix opera.

E em "White Lines", há três atores portugueses que, ao longo dos dez episódios da primeira temporada, vão tendo maior ou menos protagonismo na série. Falamos de Nuno Lopes, um dos protagonistas, e Paulo Pires e Rafael Morais que têm papéis secundários, mas não menos relevantes na história.

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E Nuno Lopes está igual a si próprio: um ator de várias camadas e camaleónico, tal como a profissão assim exige. Se por um lado, a sua personagem consegue ser de uma frieza incalculável sempre que o conflito parte para desfechos mais violentos (Nuno Lopes dá vida a um soldado dos Calafate, uma das famílias criminosas mais poderosas de Ibiza), por outro tem um lado mais afável, carismático e sempre complexo.

E pode estar aqui o reconhecimento internacional para possíveis projetos futuros, numa altura em que a Netflix parece estar cada vez mais interessada em apostar em produções com elencos diversos. A nova série da Netflix, aliás, chamada "The One", vai contar com Albano Jerónimo como protagonista.

O mau

A escrita é descurada em favor do show off

Já estabelecemos que não há problema quando uma série se assume como mais leve. Entretenimento serve, essencialmente, para entreter. Partindo desta premissa simples, podemos, então, começar a desconstruir. É que em ficção não é importante que a história se assemelhe à realidade.

Mas, pelo menos, é necessário que faça sentido. E tal como já tem vindo a ser habitual nas produções de Álex Pina, conceitos como a lógica ou a verosimilhança narrativa são aspetos que, geralmente, tendem a ser descurados em favor do show off narrativo ou visual — porque é importante que uma coisa, geralmente chocante, aconteça de determinada maneira para que a ação siga em frente e sirva como justificação para algumas ações das personagens, geralmente também drásticas ou chocantes.

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Nesse aspeto, as reviravoltas de "White Lines" não só são pouco surpreendentes como, na verdade, muitas acabam por não fazer sentido. As personagens nem sempre são fiéis àquilo em que acreditam e limitam-se a servir as vontades do argumentista, custe o que custar. Mesmo que, para isso, a lógica e coerência sejam esquecidas.

Da mesma forma, o ambiente frenético e louco de Ibiza pouco parece mudar com alguns dos atos mais horríveis que vão sendo praticados por aquele grupo de criminosos.

Não há consequências nem redenção. Vale tudo para tornar a história o mais violenta e o mais louca possível, e isso é a definição de escrita preguiçosa, tal como marcou "La Casa de Papel". Mas lá que entretém, entretém.

O assim-assim

Os cenários são de luxo, mas podemos voltar ao mais simples?

Um bocadinho à semelhança do que foram as duas últimas temporadas de "La Casa de Papel" (as comparações são impossíveis), também os cenários de "White Lines" são riquíssimos, com paisagens paradisíacas de encher o olho. Tudo sinal de que houve dinheiro para investir e com vontade de rentabilizar um projeto que, feitas as contas, pode vir a ser renovado para novas temporadas.

Mas podemos voltar ao mais simples? Os cenários fantásticos, quase surreais e belos, não chegam quando o argumento tem falhas. É fácil desligarmo-nos de uma paisagem se a história, que é o mais importante, não trabalhar em função de enriquecer todo aquele ambiente que dá corpo à série.

Em suma, "White Lines" entretém, tal como foi sempre o seu propósito, e só por isso merece que se espreite com as expectativas bem moderadas. Não é um clássico, nunca teve pretensões de ser, mas diverte.

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