A frase "Famous for no reason", em português "famoso sem razão aparente", está pintada na parede exterior do Village Underground Lisboa, o local escolhido para o encontro com Diogo Reffóios Cunha. Uma ironia que cai que nem ginjas. O segundo classificado do reality show da TVI conversou com a MAGG sobre as primeiras semanas após a saída da casa mais vigiada do País.

Na primeira parte da entrevista, o gestor de marketing digital faz o balanço da participação no "BB2020", revela planos para o futuro e conta como se inspirou em Bruno Nogueira para melhorar a sua prestação dentro da casa.

Esteve três meses afastado de notícias sobre a pandemia. Quando saiu do “BB2020”, o que é que o assustou mais?
Não é bem assustar. Agora estamos todos a poder ir café, ao cinema, ao teatro… se bem que eu gosto do teatro com esta configuração nova de salas, confesso. Tens a certeza de que não tens ninguém nem à frente, nem atrás nem nos lados. Isso não me assusta. O que me assusta é saber ‘ok, isto anda tudo na rua. Porque é que anda tudo na rua?’. Ok, a vida tem de continuar mas assusta-me não usar máscara sempre, não desinfetar as mãos constantemente. Assustam-me esses esquecimentos que, facilmente deixamos de ter em atenção. É um pouco um paralelismo com o cliché de ‘ah, depois esqueces-te das câmaras”.

Só agora, ao fim de três semanas, é que sinto que tenho controlo da minha vida outra vez. Tenho a minha agenda, sei o que quero fazer, sei quais são as minhas prioridades pessoais e profissionais. Sempre quis controlar muito a minha vida e sempre fui diferente dos outros por causa disso. Há cinco anos estive no Vietname e, agora, senti que estive no Vietname três meses — que é algo que senti também no passado — quando voltei. Estou a sentir as saudades, as emoções, tal e qual quando fui para o Vietname e voltei. Querer estar com toda a gente, arranjarmos forma de estarmos todos juntos, haver a disponibilidade dos outros estarem comigo…

Diogo Reffóios Cunha
créditos: Luís Pereira / MAGG

Que antes não havia?
Não é uma questão de não haver…

É pelo tempo que se passou.
É, porque houve uma distância.

Acha que os factores ‘pandemia’ e ‘confinamento’ tiveram peso na forma como as pessoas viveram de forma intensa este reality show?
Óbvio! Eu estou a falar de cor mas acredito que quem viu, viu realmente. E quem viu foi mais de um milhão de pessoas. É muita gente. Enquanto que nos outros reality shows, a meu ver, quem via, ‘picava’. O que eu senti é que o TVI Reality foi acompanhado. Porque toda a gente estava a trabalhar em casa e, ao estares a trabalhar em casa, ter um conteúdo de slow tv, tipo rádio… aquilo não interessa para nada. Só de vez em quando. O que senti, ao início, é que nós não tivemos muita notoriedade, não tivemos muito interesse.

O “BB Zoom”, em termos de audiências, foi um desastre.
E em termos de conteúdos, como é que foi? É que foi uma coisa diferente, que nunca se tinha feito em Portugal.

Acho que o “BB Zoom” agarrou o público que, depois, viria a ser fundamental para criar os fenómenos do Twitter.
Ok! O Big Brother disse-me isso. Que correu bem num target juvenil.

Os miúdos que estavam em casa viam e percebiam o formato, porque percebem o que é estar atrás de um ecrã a falar com outra pessoa. Faz parte da geração deles. Quem tem mais de 30 anos talvez prefira o conceito antigo de reality show.
Os miúdos conheceram-nos antes.

Em termos de audiências correu mal até ao Pedro Soá [nr: concorrente que teve confrontos verbais com Diogo, com Teresa e que acabou por ser expulso]. Acha que, em termos de sucesso de programa…
Próxima!

… em termos de programa, o Pedro Soá foi um catalisador para o Diogo ter tido sucesso?
Próxima! Não falo de outras pessoas.

"Concorri ao Big Brother para mudar o paradigma"

Falando de si, mesmo na fase “BB Zoom”, o Diogo estava longe de ser o concorrente a quem as pessoas atribuíam uma potencial vitória.
A sério? Mas eu esforcei-me imenso!

Era a Sónia.
Mas ela foi a favorita do público logo na primeira semana. Eu esforcei-me imenso nessas duas semanas. Eu adorei participar num reality show. Adorei a dinâmica. Foi como estar no foyer do teatro à conversa enquanto a sala não abre. Como não foi em direto, deu para descansar. Eu dormia 10 horas por dia, li 3 livros, vi 70 filmes, vi finalmente o “Taxi Driver” do princípio ao fim e só não vi duas vezes porque não deu para puxar para trás. Eu estava com tempo, com disponibilidade porque eu sabia que vinha algo muito bom a seguir e que eu só tinha de ficar sossegadinho. A produção do “BB Zoom”, em termos de alimentação, deu-nos tudo o que nós precisávamos. Não havia limitações nenhumas.

Isso é tão antagónico em relação a alguns coisas que colegas seus disseram…
Mas cada um podia fazer o que quisesse. O que eu senti é que, se pedisse lagosta, eles davam-me lagosta. Se pedisse raspas de pão, eles davam-me raspas de pão. Comecei a comer bem outra vez. Eu adorei construir conteúdo porque tínhamos tempo.

O Diogo é provavelmente o único concorrente da história dos reality shows…
… bem, só por isso, obrigado (risos)!

… não me recordo de um concorrente que tenha conseguido chegar ao final de um reality show sem nunca ver exposta a sua vida privada fora do programa. Como é que o Diogo definiu que isso ia acontecer?
Não se define. Eu consigo controlar o que eu faço e a minha família e os meus amigos conseguem controlar o que eles fazem. O que sempre disse aos meus amigos foi ‘este programa é para eu aparecer, não é para mais ninguém aparecer’. E eles agradeceram. Família, idem. A partir do momento em que eu nunca converso, nunca exponho os meus amigos e familiares não há razões para o Big Brother o fazer. Só isso.

Diogo Reffóios Cunha
créditos: Luís Pereira / MAGG

Mas as revistas também não conseguiram.
Da mesma forma que eu consegui não me expor, estando 14 horas em direto num canal de televisão, a minha família e os meus amigos também conseguiram não se expor às solicitações de imprensa. Um reality show não tem que ser, cá fora, necessariamente a respeito das famílias. Há 300 milhões de assuntos, e no Diogo podes encontrar muitos. O “Big Brother” teve a oportunidade de expor trabalho remoto, nomadismo digital, fez peças com colegas de trabalho, que são assuntos do meu interesse. Ou seja, não precisa de ser o pai, a mãe, os tios, os amigos, os coitadinhos…

Daí eu falar de uma singularidade. Ninguém que, até 2020, tivesse visto reality shows, estava à espera que esses temas, e mesmo o veganismo da forma como a Ana Catharina abordou, fossem assunto. Depois há temas mais clássicos, como a homofobia, o racismo, que são recorrente
Infelizmente são recorrentes.

Haver um concorrente em que todos os temas são positivos. Cá fora, e tal como os seus colegas devem ter sentido estranheza, a pergunta era sempre a mesma: “porque é que este gajo concorreu ao Big Brother?”.
Para mudar o paradigma.

Porque é que meteu na cabeça que ia fazer diferente?
Eu não me inscrevi para fazer diferente. A partir do momento em que me inscrevi é que soube que ia fazer diferente. Porque é assim que eu faço no dia a dia. É intrínseco em mim, no que quer que eu faça, fazer diferente. A curiosidade de participar num reality show e, do dia para a noite, ser ‘famous for no reason’, é fixe. Eu tinha essa curiosidade.

Curiosidade mórbida, quase?
Mórbida, quase. Não pela fama per si mas pela visibilidade. O nómada digital tem uma prática que é ter um ordenado passivo para poder viajar. Quando começas a ter centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, começas a poder conseguir trabalhar esse rendimento passivo mais facilmente. Imagina que agora quero escrever um ebook sobre a minha participação no Big Brother. Vendo por 5 euros e, de repente, há futuros concorrentes a quem interessa ler aquilo. Se aqueles 20 me derem 5 euros, já posso ir jantar fora. É nesse registo a minha curiosidade em participar numa marca destas. Não é participar num “Love on Top” nem na “Casa dos Segredos”, embora me tenha inscrito na “Casa dos Segredos”. Mas é a marca “Big Brother”, que já tem uma comunidade gigantesca de pessoas que acompanham o formato e que está sempre a transformar-se.

O que aconteceu neste “BB2020” não é novidade nenhuma para mim. É simplesmente o que devia acontecer num "Big Brother” e que não acontecia no passado porque não existia essa marca. Quando se entra num formato destes podes encontrar um bocadinho de marketing de guerrilha para a tua vida. E foi o que eu fiz. Olhando para aquelas centenas de milhares de seguidores, eu consigo trabalhar de alguma forma a minha renda passiva e continuar a ser feliz, para dedicar muito tempo à minha vida artística. A parte boa do marketing digital é tu teres tudo automatizado. Consegues ter tempo para ler um livro, para participar numa peça, para ver 5 filmes por dia.

A TVI já lhe fez alguma proposta em relação à representação ou nem por isso?
(risos) Nem por isso.

"As relações, quando estão a iniciar-se, não são para serem vistas. São para serem sentidas"

O facto de o Diogo ter participado no “BB2020” vai influenciar o tipo de candidatos ao “Big Brother - A Revolução”? Acredito que haja muitas pessoas que partilham o seu ideal de vida, que nunca concorreriam a um reality show, e que, se calhar, agora o vão fazer.
(pausa) Boa sorte!

Então porquê?
(risos) Eu já recebi muitas chamadas de amigos que me revelaram que outros amigos tinham vergonha de se candidatarem a programas deste género mas que agora já não têm. Porém, acredito que qualquer um dos 20 que entrou no “BB2020” têm certamente pessoas que se identificam com elas, que querem participar porque se reviram de alguma forma. Como é que eu gostava que fosse o “Big Brother - A Revolução”? Gostava que fossem 20 pessoas com causas. 20 pessoas em que não tens vontade de ver outra coisa senão o “Big Brother”.

Mas tem de concordar que — e isto não é pejorativo — o tipo de pessoas que Sónia, a Iury ou mesmo a Sandrina representam mais facilmente concorre a um reality show do que pessoas como o Diogo.
Mas qualquer uma delas tem algo a dizer. Toda a gente vai ter pessoas com que se identificar.

Houve momentos em que achámos…
Quando dizes ‘nós’, é quem?

Nós, os jornalistas…
Tu e toda a comunidade jornalística de Portugal.

Não, na realidade a comunidade jornalística de Portugal que acompanhou diariamente o “Big Brother”. São para aí umas 15 pessoas. Somos muito poucos.
E conhecem-se todos.

E conhecemo-nos todos. Estávamos todos fechados em casa, com o TVI Reality ligado, de manhã à noite. Foi um paralelismo estranho, até.
Sabes mais do que eu do programa.

Decididamente, mas também há muita coisa que nós não vimos e o Diogo viu. Há coisas como, por exemplo, a sua relação com a Ana, que ninguém previu porque havia muitas coisas que as câmaras nunca mostravam.
Esse é o erro da Humanidade. As relações, a meu ver, quando estão a iniciar-se, não são para serem vistas. São para ser sentidas. Aquilo que tu sentes, nenhuma câmara ou microfone vai conseguir…

Mas há coisas mais óbvias e outras não.
Óbvias se verbalizares.

Certo. Mas há olhares, há posturas, há coisas que se notam…
Mas, se acontecesse, eu queria uma câmara no Cristiano Ronaldo, para vê-lo a todos os dias, a toda a hora, isso nunca vai existir num programa destes. E até porque havia casais ativos, havia onde arranjar beijos.

O ecrã é finito, não dá para dividir em 20.
Não foi por falta de dicas, o Big Brother sabia perfeitamente.

Há momentos, pequenas coisas que o Diogo dizia, em que parecia quase que estava a ser assistente de realização do programa.
Tipo o quê?

Houve momentos em que falava sobre os conteúdos do programa, em que parecia que estava a ver e a verbalizar como é que o programa se ia desenrolar. Além de outras questões, como ter-se recusado a fazer a linha da vida. Sentiu que houve momentos em que a produção ficou exasperada consigo?
O que é ficar exasperada comigo?

Questão concreta: ter recusado fazer a linha da vida. Sentiu que isso irritou ou causou algum tipo de incómodo?
Não. A essa altura, o Big Brother, a TVI, toda a gente que faz aquele programa já sabia perfeitamente aquilo que eu estava ali a fazer. Aí, o “BBZoom” ajudou-me bastante. Como era um programa gravado, havia muito mais participação da minha parte na criação do conteúdo e eles gostavam. O feedback que eu recebia é que eu estava ajudá-los na criação do conteúdo. Essa era uma razão pela qual eu me tinha inscrito no programa.

Tu sabes que tens uma régie enorme, a tecnologia toda que está por detrás. Tens, no mínimo, dois realizadores que querem trabalhar. Mais vale dar-lhes conteúdos para eles realizarem. Adorava participar na produção uma semaninha, só para ver como é aquilo no dia a dia. A minha ideia era criar conteúdo inspirado noutras coisas. Eu fiz lá muita coisa retirada do “Último a Sair”, do Bruno Nogueira. Acho que qualquer pessoa percebeu isso e percebeu que aquilo foi meta-reality show.

Acho que a maior parte das pessoas não percebeu.
Ainda bem.

Se calhar, os miúdos do Twitter perceberam.
Era o que me interessava. E quem não percebeu, achou graça. Porque, de facto, o conteúdo tem graça. Mas o génio aqui é o Bruno Nogueira. Aquele último live do Instagram dele.. Isso assustou-me. Não ter visto, perder essa dimensão.

Houve momentos em que senti que o Diogo irritou ligeiramente o Cláudio Ramos. Acha que ele se irritava de forma teatral para…
Não sei. Tens de lhe perguntar, não a mim.

Sentiu alguma animosidade da parte dele?
Nada. Só senti coisas boas do lado da produção e de todas as pessoas da TVI.

O que acha desta sucessão, da Teresa Guilherme regressar ao “Big Brother”?
Não tenho opinião formada a respeito disso.

Quando concorreu ao “BB2020”, não era conhecido o apresentador.
Sim, era pública, a informação.

Na fase de castings, não.
Aí não. Durante o processo.

Mas quando concorreu, quem é que achava que seria?
Em Portugal, sabemos que a rainha do reality show é a senhora dona Teresa Guilherme. E eu quero muito conhecê-la. Lembro-me do Zé Maria chamar-lhe Teresinha.

Acha que há algum tipo de paralelismo entre si e o Zé Maria, na forma como ambos eram ‘fora da caixa’?
O Zé Maria era fora da caixa? Ou o Zé Maria foi protegido por Portugal dentro de uma casa cheia de gente? Acho que foi mais isso. Mas é preciso rever o “Big Brother” antigo. Antes de começar o “BB2020”, esteve a dar o primeiro “Big Brother”, o que mudou de facto a televisão em Portugal. A nossa promessa era, de facto, a mudança da televisão em Portugal. Eu ainda não percebi se, de facto, mudámos. Acho que ainda não mudou. Daí haver agora “A Revolução”. Tem de ser mais guerrilha, a meu ver.

Diogo Reffóios Cunha
Diogo Reffóios Cunha fotografado no Village Underground Lisboa créditos: Luís Pereira / MAGG

Vocês plantaram as sementes daquilo que vamos ver no “Big Brother - A Revolução”. Não dá para voltar atrás numa tipologia de concorrentes como esta do “BB2020”.
Oxalá, até porque eu quero comentar o Big Brother no Twitter.

Só no Twitter ou mais do que no Twitter?
(risos) No Facebook, talvez.

Na antena da TVI, no Extra.
Se me pagarem o valor certo.

Não fecha a porta, gostava.
Está escancarada (risos)! Eu estou à espera que a Cristina venha de férias. É a única espera que tenho neste momento, senão vou ter de ser eu a chateá-la.

Na segunda parte da entrevista, que a MAGG irá publicar em breve, Diogo Reffóios Cunha fala sobre saúde mental, a relação com Ana Catharina e os planos para o futuro.

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

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