Estávamos prestes a atravessar a ponte Anne de Bretagne, que nos leva do centro histórico à ilha de Nantes, quando a guia Agnés Poras nos deu a conhecer o cheiro desta cidade francesa, que não é apenas trecho de uma música — como em Portugal se canta que "cheira bem, cheira a Lisboa". Há mesmo um perfume que caracteriza a cidade.

Tivemos oportunidade de sentir os aromas do novo Le Parfum, com notas de magnólia do Jardim das Plantas perto da estação de comboios e da Le Lieu Unique, a antiga fábrica de bolachas da marca LU transformada numa espaço de eventos e exposições que também adiciona notas a este perfume, e ainda traços aromáticos do bolo tradicional de Nantes, o gâteau Nantais, feito com rum, amêndoa, manteiga e trigo (à venda no mercado de Talensac).

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Estes são alguns dos pontos que fazem parte da nova tour associada ao perfume, que passa por alguns dos locais mais famosos de Nantes que inspiraram os três perfumistas de renome desafiados para o projeto. 30 pessoas votaram e foi a criação de Bertrand Duchaufour a vencedora e a que a partir de agora representa o aroma da cidade. A tour ligada ao perfume de Nantes começou a 16 de outubro, e pode reservar o passeio no moderno Nantes Tourisme (posto de turismo com uma lareira para aquecer antes de qualquer passeio). Custa 10€.

Também vai ser possível comprar o próprio perfume a partir de 20 de novembro em várias lojas e parceiros da Le Voyage à Nantes, projeto cultural de promoção de Nantes, por 45€ (50 ml).

O Le Parfum é considerada a obra de arte deste ano, como nos disse Agnés Poras, uma vez que desde há 20 anos artistas de todo o mundo são desafiados a criar projetos que são apresentados e instalados na cidade entre julho e agosto. "As pessoas ficam muito entusiasmadas com a chegada do verão para ver a cidade com novas peças de arte", referiu Bénédicte Pechereau, também guia do Le Voyage à Nantes.

A cidade que nos quer despertar a consciência

Basta seguir a green line (linha verde) e nada do que esta cidade tem para mostrar lhe vai escapar. A linha verde é literalmente uma linha de cor verde pintada no chão, que passa por um total de 67 pontos imperdíveis, como monumentos e peças de arte, desde o centro de Nantes até à ilha.

No que diz respeito à arte, eis alguns dos pontos que não pode perder:

  1. Jardim das Plantas. Aqui, se for com crianças, tem mesmo de passar no jardim e parque infantil The Dépodépo e também pelo Banc Géant de Claude Ponti, um banco de jardim gigante que serve de cenário para uma foto que já é um clássico quando se visita Nantes. Também neste jardim fica uma horta solidária na qual são cultivados legumes posteriormente doados por associações a pessoas com dificuldades.
  2. Nymphéa, de Ange Leccia. Consiste na projeção de uma ninfa ou sereia nas águas do canal Saint-Félix feita, que acontece sempre à noite;
  3. Jungle Intérieure. Um ponto que muitos turistas deixam escapar, mas que vale a pena visitar pela unicidade deste lugar criado por Evor, que pediu à Le Voyage à Nantes para tornar uma passagem privada num jardim de plantas suspenso que o próprio cuida todos os dias, como tivemos oportunidade de ver. A particularidade é não só a biodiversidade deste espaço no centro histórico da cidade, como o facto de, ao subir numerosas escadas, termos uma vista soberba para o sino da torre da igreja Sainte-Croix. O jardim só está aberto de maio a outubro, mas fica a referência caso planeie a viagem para essa altura;
  4. Éloge du pas de côté. A estátua de Philippe Ramette, na praça de Bouffay, pode passar despercebida entre tantos outros motivos de arte da cidade, mas tem de ver bem os pormenores desta obra: o facto de Philippe Ramette, um artista de belas artes, representar a ousadia da cidade com o pé suspenso e o apontamento no próprio sapato de Philippe Ramette, no qual está inscrito o nome do artista (e que muitos não se apercebem);
  5. Ping-Pong Park. A obra de Laurent Perbos, já na ilha de Nantes, consiste em mesas de pingue-pongue originais, como habitualmente o artista faz com outros objetos de desporto recriados de formas irreverentes. A ideia desta obra é juntar amigos e família numa competição saudável e sem ter de pagar para jogar: basta pedir as raquetes no restaurante Au Bureau Nantes.
  6. On va marcher sur la lune. Adultos, se querem diversão é aqui que vão ter, tal como nós fizemos quando não estavam crianças à vista para assistir aos saltos nos trampolins que estão dentro das crateras de uma Lua fictícia, também na ilha de Nantes. A obra (de sublinhar, criada para crianças) é de acesso gratuito.
  7. Olhos bem atentos. Não, não é o nome de uma das obras de arte urbana, mas o que deve fazer enquanto andar pelas ruas de Nantes e entre as múltiplas lojas da cidade. Desde 2014 que os artistas foram desafiados a criar sinais para identificar lojas emblemáticas e que tenham que ver com as mesmas. Fazem parte da green line, mas se for apenas a olhar para a linha junto aos pés e não para as fachadas, não vai ver cada um dos símbolos divertidos.

No que diz respeito a monumentos e outros pontos de destaque, deixamos mais cinco por onde tem de passar.

  1. Praça Graslin. Uma vez na praça projetada pelos arquitetos Ceineray e Crucy em meados do século XIX, pode seguir várias direções. Começando pela manhã, um dos locais mais icónicos é a La Cigale, com um pequeno-almoço completo por 16€; siga em direção à rua Saint Léonard, que também ao início do dia nos tenta com cheiro de pastelaria acabada de fazer, bem como com a montra da Chocolatier Gautier Debotté, com os tradicionais rebuçados berlingots (desde 4,85€) e a especialidade da casa, os bombons le mascaron nantais (caixa desde 6€).
  2. Passage Pommeraye. As galerias que datam de 1843 foram cridas com o intuito de as mulheres não sujarem os vestidos enquanto passeavam nas lojas. Atualmente, este espaço (renovado há dois anos) integra lojas das mais requintadas às mais banais e um pequeno café, o La Passagère (de quarta-feira a sábado as 11h às 18h), por onde deve passar pelo menos numa das manhãs que estiver em Nantes para comer um bolo quentinho, tomar um chá e levar alguns sabores da mercearia gourmet para recordar no regresso;
  3. Mercado de Talensac. O que dizer sobre um mercado com tudo o que Nantes tem para provar? Ora, para começar e bem, passe pela Creperie para provar um típico crepe ao natural, feito com farinha biológica e que só custa 0,80€; depois, leve os queijos cure nantais muscadet (7€ a unidade) e o brun de noix, queijo com nozes que quase parece que tem álcool (33,25€ por kg) da Fromagerie Beillevaire e para acompanhar, uma baguete (desde 1,20€) da La Maison. Na mesma pasteleira, vai encontrar o bolo do perfume de Nantes, o gâteau Nantais (desde 9€ um bolo para quatro pessoas). Vamos estender-nos neste ponto cheio de comida, porque não pode sair daqui sem levar uma bolacha LU transformada em chocolate, o p'tit beurre (2,10€), pela chocolateira artesanal Vincent Guerlais.
  4. Castelo dos duques da Bretanha. O castelo construído no final do século XIV mostra a história da cidade no Museu da História de Nantes e cruza-se com o presente numa obra de arte da Le Voyage à Nantes. Chama-se Un regard artistique, de Romuald Hazoumè, e representa o menino de 3 anos de idade que fugiu com a família da Síria para a Europa e não sobreviveu. O corpo foi depois encontrado à beira-mar de uma praia na Turquia e a imagem correu o mundo em 2015. Agora, está em Nantes numa obra temporária que pretende alertar para o problema dos refugiados.
  5. Memorial da abolição da escravatura. Mais uma vez, a história está presente em Nantes para que possamos aprender com o passado. Ao entrar no memorial, sentimos um arrepio quando se ouve a respiração ofegante dos escravos, início marcante que antecede uma linha de acontecimentos que nos guia desde 1777, quando a escravatura foi abolida nos Estados Unidos, até aos dias de hoje, altura em que a Organização das Nações Unidas e a Organização Internacional do Trabalho estimam que a escravatura ainda afeta cerca de 250 milhões de pessoas.

Arte também para dormir

Micr'home é o nome da obra e alojamento concebido pela arquiteta Myrtille Drouet. Parece uma loucura dormir a cinco metros do chão e numa casa que tem pouco mais do que 26 metros quadrados, mas é essa a experiência que vai poder ter se ficar neste alojamento mesmo no centro histórico de Nantes (de frente para a tentadora Chocolatier Gautier Debotté), mais precisamente na rua de la Fosse.

A casa, distribuída por três andares de dois metros de largura, tem tudo o que precisa para descansar, embora sem folgas para a imersão na arte da cidade. É composta por sala de estar, cozinha, casa de banho, quarto e janelas para começar o dia logo a sentir o cheiro das baguetes.

O alojamento custa a partir de 95€ por noite e se ficar duas noites recebe um desconto de 25% de desconto. Pode reservar aqui.

A alegria de encontrar um português

Delicatessaine
Sabrina Lejeune e o chef pasteleiro Gregory Lejeune créditos: MAGG

Mal chegámos a Nantes, percorremos algumas das ruas mais famosas do centro histórico até que nos deparámos com um cartaz que anunciava: o verdadeiro pastel de nata. "Ah, um primeiro sinal de Portugal", pensámos. Mal sabíamos que ao atravessar a ponte e andar pela ilha de Nantes, íamos encontrar não um pastel duvidoso e convencido, mas sim uma humilde portuguesa, Sabrina Lejeune, cuja mãe vive na aldeia de Goiás. A ex-naturopata, que já trabalhou em Itália, Londres, Paris e Nantes, é atualmente co-proprietária do Delicatessaine e esposa do chef pasteleiro Gregory Lejeune. Recebeu-nos no espaço de pastelaria natural com um “olá” que confortou quase tanto como o que se seguiu.

No Delicatessaine, que abriu em março, as montras apetitosas atraem os mais gulosos — mal eles sabem como são feitos os bolos. Ao ler os nomes que saltam da vitrine, ninguém diria que tudo é feito sem açúcar refinado (apenas açúcares naturais de coco, rapadura e gengibre), sem farinhas refinadas e que outros incluem-se na gama sem glúten, sem lactose e com baixo índice glicémico (indicado para pessoas com colesterol).

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Provámos uma das especialidades, o kauihn-amn tradicional da bretanha (3€), que estava mesmo ao lado do natain de nantes (3,60€). Apesar de todos os “sem”, o que trincávamos transmitia ao cérebro: "Como assim algo tão delicioso pode ser mais saudável?”. Não sabemos a resposta, mas questionámos o chef, que já passou por hotéis de luxo, e explicou que para chegar a este sabor foram precisos muitos testes.

Os próximos serão dedicados a um pastel de nata mais saudável para homenagear as raízes de Sabrina e fazer a vontade da família da mesma, que insiste para que seja criado um pastel de nata alinhado com o conceito da Delicatessaine. Não queremos causar pressão, mas como portugueses que visitámos Nantes (e sabemos que mais irão), um pastel de nata que não pesa tanto na consciência era como a cereja no topo do bolo. Ou deixemos essa expressão para falar do café artesanal ou dos blends de chá que, como tudo o resto, são feitos na pastelaria que abriu há sete meses como resultado da vontade do casal em posicionar-se num "sitio onde nascem as novas iniciativas", disse Sabrine.

Nass mesas da Delicatessaine sentam-se "nantenses" das redondezas, turistas e estudantes, que vão à procura de brunch, almoço (com opções desde sopa a veggie bowl) ou os bolos que saltam à vista. Há também quem leve algo da pastelaria natural de forma tão responsável quanto o conteúdo o é para a nossa saúde. Isto porque no serviço take away são usadas caixas recicláveis, reutilizáveis e laváveis de uma startup francesa que, para já, está apenas na Delicatessaine.

Na mesma rua, encontram-se a Laiterie Nantaise, com queijos artesanais de produção biológica, e o Bio Burger, com hambúrgueres biológicos — parece que se tornaram vizinhos propositadamente para que esta seja a rua dos bio.

Um elefante na ilha de Nantes (não é verdadeiro, mas parece)

Grande Elefante
créditos: MAGG

Em tempos eram os flamingos que estavam na moda, agora são os elefantes. Bem há pouco tempo encontrámos um elefante na sala do restaurante de um novo alojamento em Coimbra e o mais recente foi nesta cidade de arte que nos abre a mente. Em Nantes, o Grande Elefante é uma das principais atrações que leva os turistas a passar a ponte.

O elefante, com 48,4 toneladas e que até pestaneja, tem capacidade para transportar 45 pessoas no topo e na barriga através de uma percurso pela ilha que demora cerca de 30 minutos. Atualmente, o elefante anda na rua, mas até aí chegar, como acontece com outras estruturas, passou pela galeria das Máquinas da Ilha, um laboratório para experimentar máquinas — e não robôs. Parecem como que brinquedos de madeira para crianças, feitos em ponto grande: não mexem de forma automática, têm de ser os humanos a puxar os manípulos para que as máquinas ganhem vida. Algumas ficam por Nantes, já outras seguem viagem, como o dragão que está a ser feito atualmente e tem como destina a China.

Do recinto das Máquinas da Ilha, onde tudo é feito, para o exterior, o Grande Elefante não vai sair daqui tão depressa e é algo que tem mesmo de ver quando passar para a ponte. Melhor ainda é andar em cima do elefante com 12 metros de altura, viagem que custa 8,50€ para adultos (grátis para crianças menores de 4 anos).

Se é para experimentar as máquinas, suba também até ao Carrossel da Vida Marinha, uma espécie de carrossel de feira, com a diferença de que é feito apenas com animais marinhos que se movem com a sua ajuda, ao mesmo tempo que aprecia a vista panorâmica sobre Nantes. Custa 8,50€ para adultos e 3€ dos 1 aos 3 anos.

Passe para percorrer a cidade

A Le Voyage à Nantes tem um passe inédito para que os turistas possam percorrer a cidade sem ter de pagar cada viagem de metro de superfície ou entrada nas atrações da cidade.

Com um passe de um dia ou até uma semana, tem acesso direto a 40 atrações e transportes públicos ilimitados. Algumas das atrações incluídas são a galeria das Máquinas da Ilha, o Castelo dos Duques da Bretanha, tours de autocarro para percorrer a cidade sem andar quilómetros e o museu de Júlio Verne — conhecido escritor francês do século XIX e autor de títulos como "Viagem ao Centro da Terra", que passou a infância e juventude em Nantes e é lembrado um pouco por toda a parte.

Painel dedicado a Júlio Verne
Painel dedicado a Júlio Verne créditos: MAGG

Os passes vão desde os 26€ pelo passe normal, durante 24 horas, até aos 240€ para o passe de família para sete dias.

Já para viajar de Lisboa até Nantes, em França, pode fazê-lo a partir de 82€ a 17 de novembro, o valor mais barato através da companhia aérea Transavia. Já em outubro, encontra voos de ida a partir de 35€ em dezembro.

*A MAGG visitou Nantes a convite da Transavia e do projeto Le Voyage à Nantes. 

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